"Percebi que Ricardinho ia ser um fora de série aos 15 anos"

Porventura se não fosse Carolina Silva hoje não tínhamos Ricardinho. A primeira treinadora do melhor futsalista do mundo concede ao DN uma inédita entrevista na qual conta o que muita gente ainda não sabe sobre o capitão da seleção.

Na altura em que treinava o Gramidense, e em especial aquela equipa do Ricardinho, quantos anos tinha?
22 anos.

E como é que eles encaravam ter uma irmã mais velha como treinadora?
Eles não me viam como irmã, tinham muito respeito (risos). Eu estava muito ao alcance deles e o facto de ser mulher num mundo masculino era uma aliança que se formava; eles eram miúdos pequenos, colocados à parte dos clubes de futebol e eu era uma mulher a treinar rapazes. Quando íamos para um jogo havia a afirmação de ambas as partes.

E como é que descobriu o Ricardinho?
O Ricardinho apareceu-nos aqui num treino, trazido por outro colega, numa altura em que não treinava em lado nenhum. Tinha-o visto num Torneio 25 de abril em que ele tinha marcado o golo da nossa derrota, entretanto disseram-nos que ele estava sem clube e como éramos perspicazes mandámos logo recado por outros miúdos do bairro e insistimos para que ele viesse treinar connosco.

O que via nele? Não me vai dizer que via que ele ia ser considerado o melhor do mundo cinco vezes...
(risos) não, isso não via, mas via que era um miúdo com talento. Na altura tínhamos uma equipa muito talentosa e tudo o que pudesse ser uma mais valia era bem vindo.

Ele já se destacava?
Destacava-se pela técnica, tinha o pormenor do pé esquerdo muito acentuado. Já era acima da média para a idade, ele treinou sempre dois anos acima. A nossa equipa era de primeiro ano de juvenis e ele era de primeiro ano de iniciados. Mas havia outros fatores que precisavam de ser trabalhados...

Como por exemplo?
O jogo com os dois pés, a visão periférica, a organização... mas ele assimilava tudo rapidamente.

Era inteligente?
Era e é. A capacidade que ele tinha de assimilar qualquer jogada defensiva ou ofensiva era uma mais-valia. A capacidade de tomar a decisão quando poucos esperavam, ele tinha essa ousadia.

Mas quando viu que ele podia ser qualquer coisa de extraordinário?
Por volta dos 14, 15 anos.

Percebia que ele ia ser um fora de série?
Sim, porque já estava a dar saltos muito grandes e a atingir uma fase da adolescência em que estava totalmente concentrado no futsal.

Esse período surge depois de ter sido rejeitado no FC Porto como jogador de futebol?
Sim, sim, o objetivo foi mesmo esse.

Como assim?
Ele quando nos vem ter à mão tinha clube, o Gondomar, mas não tinha como ir aos treinos. Depois a nossa equipa dava nas vistas, sobretudo ele. E havia pessoas que se queriam aproveitar e começaram a aliciá-lo para o futebol de 11 mas para clubes sem estruturas de formação. E eu estava com dificuldades em concentrá-lo aqui no clube. Falei com o pai e a mãe e sugeri que ele devia ir tentar a sorte no melhor clube da nossa zona, o FC Porto.

Ele era portista?
Sim, ele era portista e se o objetivo dele era o FC Porto eu disse "vamos lá". Levei-o a ele e mais três. Não ficou... era preciso esse baque.

A Carolina já sabia que ele não ia ficar?
Não, eu não sabia (risos). Vou ser sincera. A prioridade do Gramidense era o bem-estar dos nossos atletas, se eles conseguissem vencer na vida éramos os primeiros a largá-los e a dar a carta. Se ele tem ficado no FC Porto tinha ficado muito feliz, mas triste porque perdia uma mais-valia.

O seu objetivo foi atingido, ele passou a estar focado a 100% no futsal.
Sim, foi. Ficou desolado, chorou muito, mas é assim que uma pessoa avança na vida. E ele teve uma ótima reação, focou-se cada vez mais nos treinos e no trabalho individual e sempre a querer ser melhor...

Demorou a recompor-se?
Não, mas não vou negar que quando via o FC Porto na televisão que se emocionava um bocadinho. Ainda ficou lá um bichinho porque depois no Benfica ainda pensou nessa possibilidade.

Porventura perdeu-se mais um futebolista mas ganhou-se um fora de série.
Eu tive sempre essa ideia e cheguei a dizer-lhe que ele no futebol seria um jogador médio mas que no futsal seria dos melhores do mundo e uma referência para os outros.

Conte-nos lá como é que era o Ricardinho fora do campo...
Era um miúdo normal, com as suas ambições, mas com uma vida pessoal e familiar bastante difícil. Com os amigos do bairro estava totalmente integrado. Não era um miúdo complicado ou indisciplinado, sabia ouvir, acatava. Sabia que para ter os mesmos que os outros tinha que trabalhar mais. Vou contar duas histórias...

Conte...
Uma vez levei-o ao Shopping para lhe comprar as sapatilhas do momento. Chegámos lá e ele escolheu as mais baratinhas, eu insisti com ele e ele voltou a escolher as mesmas. Tive quase que me zangar para ele escolher as sapatilhas que eu sabia que ele queria. Outra vez ele estava a jogar e rompeu-se a sapatilha, que já era velha e usada e um colega dele que estava no banco cedeu-lhe logo a sapatilha que ele precisava.

Esse contexto também o terá ajudado a chegar mais longe...
O Ricardinho foi obrigado a crescer muito cedo, tanto a nível familiar... cuidava do irmão mais novo e tinha que o trazer para os treinos muitas vezes. Chegava ao bairro com a carrinha para ir buscar os miúdos e à porta dele "então Ricardinho?". "Hoje não posso, tenho que cuidar do Rubinho". Qual era a solução? O Rubinho com três anos ia connosco para o treino.

O Ricardinho era um líder nessa altura?
Ele tinha um talento fora de série e era um líder dentro de campo. Na parte ele já liderava a equipa no seu todo, e isso é que o fazia destacar. Atletas com capacidades técnicas tivemos muitos, mas não tinham essa liderança de jogo.

Os adversários não gostavam muito de algumas brincadeiras...
Havia momentos deslumbrantes, de maior liberdade no jogo. Não posso negar que lhe pedia a minha preferida, a vírgula. A uma certa altura os adversários passaram a respeitá-lo. Sofreu muito em campo mas quando passa a jogar pelos seniores, ainda como júnior, fica apreensivo; A diferença de estatura era acentuada e ele tinha medo de enfrentar alguns jogadores. Nós dissemos que ia ser protegido pelos colegas, pela arbitragem e só tinha que jogar. Ele não jogava para rebaixar ou para gozar. A equipa era muito boa e jogava muito, tínhamos o pavilhão cheio a ver um jogo de juniores. Tive que fazer treinos à porta fechada porque havia comentários de pais, havia miúdas e a exibição para a bancada.

Acompanhou a mudança do Ricardinho para o Benfica?
Acompanhei sempre.

E como foi?
Não quero dizer coisas muito pessoais mas ao início foi difícil. Ele era jovem, tinha 16 anos, mas houve ali um momento, depois de assinar, em que hesitou um bocadinho mas seguiu o rumo dele. Fui entregá-lo ao Benfica; eu, a mãe e o falecido presidente do Miramar, José Manuel Leite. Fomos a Dona Maria, perto de Caneças, à vivenda onde viviam o Arnaldo e o André Lima. Ligaram-me, fui à casa dele, ele chorava muito mas falámos e fomos os quatro entregar o Ricardinho à porta. Para ele foi complicado, era o maior no bairro...

Lembra-se de um momento em que teve de o colocar na ordem?
Antes da final de juniores contra o Sporting, em que fomos campeões, já no Miramar, estávamos a treinar e no final eu mandei todos alongar e ele não quis. Não era uma atitude normal dele. E eu pensei com os meus botões "isto não está a acontecer, temos a final no fim-de-semana e ele não está a querer alongar". Disse que não queria, não precisava. Às vezes há razões por trás... disse "ok, não alongas, podes ir para o balneário". E tive que tomar uma decisão muito importante mas ele não foi titular na final contra o Sporting.

Para os miúdos que treinou, mais importante do que os resultados era a educação...
Educá-los era a prioridade, inclusivamente fiz questão de os levar à faculdade onde estudava e participaram também em trabalhos científicos relacionados com o desenvolvimento do Futsal. Mas íamos ao McDonald"s, ao cinema, fazíamos estágios, coisas a que não tinham acesso. E conseguimos mostrar que havia um mundo para além do bairro onde viviam.

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