Pedro Pablo Pichardo: mais uma estrela a desertar de Cuba

Um dos melhores triplistas mundiais de sempre fugiu do estágio que a seleção está a realizar na Alemanha. Será menos um rival para Nelson Évora nos mundiais de agosto

É mais um rude golpe para Cuba e (provavelmente) menos um adversário de peso para Nelson Évora, nos próximo Mundiais de atletismo. Pedro Pablo Pichardo, atual vice-campeão mundial de triplo salto, desertou do estágio que a seleção cubana está a realizar em Estugarda (Alemanha): é o enésimo caso de uma estrela desportiva que decide abandonar o país, a meio de um compromisso internacional.
O destino de Pedro Pablo Pichardo, de 23 anos, ainda não é conhecido. Mas as consequências são claras: com a deserção, fica impedido de representar o país a nível internacional e de regressar à ilha durante oito anos. E o atletismo cubano perde uma das suas maiores promessas. O saltador - que se sagrou vice-campeão mundial em 2013 e 2015 e falhou os Jogos Olímpicos de 2016 por lesão - é um dos raros triplistas que já voaram para lá de 18 metros (18,08, quarta melhor marca de sempre) e era um dos favoritos à conquista do ouro nos Mundiais, que decorrem em agosto, em Londres (Reino Unido).

Foi precisamente durante um estágio de preparação para os Mundiais que Pichardo desertou. O saltador, que estagiava em Estugarda na companhia de outras vedetas cubanas como Yarisley Silva (campeã mundial de salto com vara) e Dayron Robles (ouro olímpico de 110 metros barreiras, em Pequim 2008), desapareceu na sexta-feira, faltando ao treino e abandonando o hotel onde estava hospedado, sem deixar rasto. Contudo, a sua deserção só foi noticiada anteontem à noite.

Pichardo já tinha entrado em rota de colisão com a Federação Cubana de Atletismo em 2014, porque pretendia abandonar o técnico Ricardo Ponce, para passar a ser treinado pelo pai. Então, acabou suspenso por seis meses. Mas isso não abalou a ascensão, que se adivinhava desde que se sagrou campeão mundial de juniores em 2012: voltou ainda mais forte em 2015, passando a marca dos 18 metros (como ninguém conseguia desde o britânico Jonathan Edwards, 18,29 metros, em 1995), e subindo ao pódio nos Mundiais de Pequim, lado a lado com Nelson Évora (medalha de bronze) e o estado-unidense Christian Taylor (ouro, com outra marca histórica, 18,21).

Com tamanho palmarés, Pedro Pablo Pichardo era uma das maiores promessas de Cuba para os Mundiais de 2017, ao lado de Yarisley Silva e Denia Caballero (disco), única representante do atletismo cubano a trazer uma medalha do Rio 2016. A deserção muda tudo: sem tempo para se naturalizar por outro país, caso não haja qualquer volte-face, o saltador não poderá reeditar em Londres o confronto com Christian Taylor. E Nelson Évora terá menos um rival na luta pelas medalhas.

De resto, por agora, o paradeiro de Pedro Pablo Pichardo é incerto. Especulava-se que o saltador poderia rumar a Espanha, como fizeram, nos últimos anos, os compatriotas Yidiel Contreras, Orlando Ortega, Lois Maikel Martínez e Mauri Castillo, após desertarem. No entanto, uma fonte inesperada veio logo desmenti-lo: "Pedro Pablo Pichardo, que fugiu de Cuba, disse-me que recebeu boas "ofertas" e para onde planeia ir. Não irá para Espanha, como muitos esperavam", revelou, via rede social Twitter, Annimari Korte, jornalista finlandesa que também é atleta, de 100 m barreiras, no FC Barcelona.
Pichardo terá muitos outros destinos à escolha. Apesar dos ténues sinais de abertura do regime de Havana, as deserções de atletas cubanos, em busca de outras condições de vida, têm-se sucedido nos últimos anos, enfraquecendo as representações nacionais do país.

Nos Jogos Olímpicos de 2016, Cuba conquistou onze medalhas, o número mais baixo desde 1972. Ao mesmo tempo, sete atletas nascidos na ilha subiram ao pódio por outros países, pelos quais se tinham naturalizado, como EUA, Espanha, Itália, Turquia ou Azerbaijão. Será Pedro Pablo Pichardo o próximo a fazê-lo?

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