Mauro Airez: O goleador que ilumina agora o palco para outros brilharem

"Não é fácil passar da bola para cabos e voltagens", mas foi o que o ex-avançado de Belenenses e Benfica, Mauro Airez, fez: trabalha em TV, cinema e publicidade, como assistente de iluminação

Como futebolista, era sobre ele - o goleador do Belenenses, o homem que deu uma Taça de Portugal ao Benfica - que os holofotes mais incidiam. Porém, agora, Mauro Airez está do outro lado, a iluminar o palco para outros brilharem. O antigo jogador argentino ficou radicado em Portugal e trabalha como assistente de iluminação.

A vida, fora dos relvados, é feita de luzes e sombras. E foi no meio dessas aventuras e desventuras que Mauro Airez passou a trabalhar, em 2007, como assistente de iluminação, na gravação de filmes, campanhas publicitárias e programas de televisão . "Não é fácil passar da bola para cabos e voltagens", reconhece o ex-futebolista, garantindo que hoje está "perfeitamente adaptado".

O antigo jogador trabalhou com uma empresa argentina de agenciamento de futebolistas - "trouxe Duscher e Quiroga para o Sporting" - , que teve de fechar portas devido à grave situação económica/financeira do país sul-americano, na década passada. "Devido ao corralito, quando os bancos fecharam e ficaram com as poupanças do povo, a empresa faliu. De um dia para o outro fiquei sem trabalho", recorda.

Então, Mauro Airez precisou de se reinventar, longe do futebol. "Em conversa, um amigo que trabalhava na área e disse-me que lhe faltava uma pessoa na equipa de iluminação. E foi aí que comecei", explica. Hoje - depois de uma pausa de dois anos e meio, passados na Argentina (entre 2010 e 2013) - por lá continua. "Sou freelancer e não me posso queixar de falta de trabalho", afirma o antigo jogador, que também representou Estrela da Amadora e Estoril.

"Tenho feito vários filmes, incluindo um que foi premiado recentemente em Cannes [a curta--metragem A Fábrica de Nada, de Pedro Pinho], séries estrangeiras e portuguesas, como Madre Paula [estreada este mês na RTP1], e reality shows para a Alemanha", elenca Mauro Airez. "Quem vê no ecrã não se apercebe da produção e de toda a parte técnica, como a iluminação. O que vemos ao vivo não tem na-da que ver com o resultado final. E quando o resultado é bom uma pessoa fica satisfeita", acrescenta.

Mauro Airez mantém, no entanto, a paixão pelo futebol - "o bichinho fica sempre", reconhece. Ainda assim, a última tentativa de reaproximação aos relvados, com a criação de uma escola para jovens, na Argentina, não correu bem. "A crise no país voltou a emergir, privatizaram-se empresas do Estado e entrou-se num buraco sem fim. E somou-se à crise financeira a minha má adaptação ao país. Tinha passado 17 ou 18 anos aqui e não me adaptei ao ritmo de vida argentina, à insegurança em Buenos Aires... tendo família e crianças pensamos nisso tudo", conta Mauro Airez. Por isso, acabou por regressar a Portugal ("passei metade da minha aqui, já sou meio português").

O ex-futebolista é tão português que tem uma filha fadista, Maura Airez, e um filho ator de telenovelas, Diogo Nobre (participa em Espelho d"Água, da SIC). A mais velha, Marta, "está a terminar a faculdade na Argentina". E o mais novo, Martim, de 5 anos - único descendente da atual relação, com Sónia - , é a última esperança do ex-goleador para ter um sucessor nos relvados. "Ele só quer bola, anda com ela para todos os lados. Se dará jogador, só o tempo o dirá. Obviamente, gostava que desse. Mas sou da opinião de que não os devemos obrigar", refere.

Belém: paixão e saída polémica

Enquanto o filho não cresce, Airez mantém-se afastado dos estádios (também devido à agitada vida profissional, já que ainda ajuda a mulher, que tem um negócio de produção e distribuição de sobremesas). "Não escondo que gostava de voltar ao futebol mas já estou há muito tempo afastado do ativo e nunca cheguei a fazer o curso de treinador. Conforme está o nosso futebol, só regressava se fosse para um projeto credível, a longo prazo, que me desse garantias que justifiquem afastar-me do que estou a fazer", aponta.

Ainda assim, Mauro Airez não esquece as memórias dos relvados. E guarda uma paixão especial: "Se tiver de escolher um, sou Belenenses", garante, mesmo ressalvando que "quando falamos de grandeza, estrutura ou massa associativa, o Benfica não tem comparação". "O Belenenses foi o clube que me abriu as portas da Europa, depois de vir para o Bari (Itália), mas sem oportunidades devido ao excesso de estrangeiros na equipa. Foi lá que passei os meus melhores anos e tenho muito carinho pelo Belém", diz.

A sua saída do Restelo para a Luz, a meio da época 1995/96, ficou envolta em polémica. Airez rebobina a sua versão da história: "Depois de quatro anos como melhor marcador e jogador mais mediático do clube, a jogar com ponta-de-lança ou segundo avançado, o treinador João Alves queria que jogasse a lateral-direito (não sei onde foi buscar isso...). Eu, que já podia ter rescindido por salários em atraso, dei ao presidente dois ou três meses para resolver a situação. E, como não se resolveu, tive de me fazer à vida, como toda a gente. Durante anos fui incompreendido pela massa associativa mas, entre aspas, fui obrigado a abandonar o Belenenses."

De lá, "após mês e meio a treinar sozinho", saltou para o Benfica "para substituir o marroquino Hassan, que se tinha lesionado entretanto". E com a águia ao peito, marcou um dos golos que valeram a conquista da Taça de Portugal de 1995/96 (3-1 ao Sporting, na final do very light). Foi um dos principais momentos em que os holofotes da fama incidiram sobre Mauro Airez.

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