O dia em que o Evereste se zangou

Competição feroz, excesso de confiança, erros de análise, decisões emocionais. Em 1996, duas expedições comerciais enfrentaram uma das piores tragédias do alpinismo. Vinte anos depois, será que aprendemos a lição? Provavelmente, não

A 8 de maio de 1996, uma tempestade começou a avançar sobre a região dos Himalaias. As previsões apontavam para a sua chegada à zona do Evereste três dias depois, a 11. Mesmo assim, no dia 10, aproveitando uma aberta na meteorologia, quatro expedições decidiram tentar o cume. Ao todo, as três que avançaram do lado nepalês (vertente sul) eram compostas por 34 pessoas. Muita gente, na sua maioria clientes que pagaram para serem guiados até ao ponto mais alto da Terra. Alguns muito lentos. Nas horas que se seguiram, desenrolou-se uma das maiores tragédias do alpinismo.

Quando se conseguiu fazer o balanço final, oito pessoas tinham perdido a vida, três do lado norte e cinco na vertente sul, entre elas os guias das duas expedições comerciais que forçaram a chegada ao cume, Scott Fischer (Mountain Madness) e Rob Hall (Adventure Consultants). Fischer colapsou aos 8300m de altitude, na descida; Hall recusou-se a abandonar um cliente, Doug Hansen, e ficou bloqueado perto do cume sul (8749m), já depois de Hansen ter sofrido uma queda fatal.

Numa ligação satélite feita a partir do campo-base, Hall despediu-se da mulher, grávida, com a frase: "Dorme bem, querida. Por favor, não te preocupes muito" e depois pereceu devido à prolongada exposição aos elementos. Andrew Harris, guia da Adventure Consultants, já tinha ficado na mesma zona. Mais abaixo, outros dois clientes da agência, a japonesa Yasuko Namba e o norte-americano Beck Weathers, foram dados como mortos, mas, incrivelmente, numa das mais notáveis histórias de sobrevivência no Evereste, este último acabou por conseguir arrastar-se até ao campo IV e salvou-se, embora com gravíssimas queimaduras. Na vertente norte, três elementos de uma expedição indiana também não regressaram.

Até aos tristes acontecimentos dos dois últimos anos - as avalanchas que mataram 16 pessoas em 2014 e 18 em 2015 (esta desencadeada pelo sismo que assolou o Nepal em abril) -, os dias 10 e 11 de maio de 1996 detiveram o triste recorde da jornada mais assassina nos flancos do teto do mundo. E desencadearam um aceso debate sobre as virtudes e as misérias da comercialização do Evereste. Um debate que continua ainda hoje. Será que aprendemos alguma coisa com as mortes de 1996?

Uma história global

Para além do peso expressivo dos números, dois fatores contribuíram para a globalização desta tragédia e para a sua aura de episódio exemplar. Ao contrário de 2014 e 2015, os mortos eram ocidentais. E, acima de tudo, a história foi testemunhada de dentro por um jornalista, Jon Krakauer, cliente da Adventure Consultants em serviço para a revista Outside. O seu relato, publicado no livro Into Thin Air, tornou-se um best-seller mundial e acabou por dar origem ao filme Everest, lançado no ano passado. Krakauer é um crítico assumido do filme e o facto de Hollywood ter demorado quase duas décadas a capitalizar uma história tão boa mostra bem como estamos em terreno minado.

Depois de Krakauer, pelo menos mais seis livros foram publicados, uns dando conta de relatos de pessoas envolvidas na tragédia, outros refutando versões divulgadas anteriormente, outros ainda analisando os acontecimentos de um ponto de vista exterior. Para se chegar ao argumento final do filme, foi preciso conciliar todas as sensibilidades envolvidas. E, mesmo assim... Isto sucede apenas porque toda a gente quer ser herói e sacudir a água do capote no que toca a assumir responsabilidades? Nem tanto. Para começar, os dois maiores protagonistas, os respetivos líderes da expedição, morreram nesse dia, o mesmo sucedendo com Anatoly Boukreev, um guia russo da Mountain Madness, um ano mais tarde, no dia de Natal, no Annapurna.

Acontece que na alta montanha, e principalmente na chamada "zona da morte", acima dos 8000 metros, o cérebro humano não funciona bem. Na verdade, cada minuto a essa altitude é um passo na direção de uma morte certa. O que os alpinistas fazem é entrar nessas paragens e sair o mais depressa possível, antes que o seu organismo ceda às terríveis condições que aí se apresentam.

Além do cansaço físico, das dificuldades do terreno e dos desafios da meteorologia, o fator fundamental é a privação de oxigénio. Expliquemo-nos: devido à reduzida pressão atmosférica, o ar que inspiramos contém muito menos moléculas de oxigénio do que as que respiramos ao nível do mar (apenas um terço no cume do Evereste). O desempenho físico é reduzido drasticamente, o raciocínio fica embotado. E, por isso, nem sempre o que as pessoas se lembram é o que realmente aconteceu. Na "zona da morte", o tempo, o espaço e a verdade são conceitos altamente relativos.

Curiosamente, ou não, as estatísticas mostram que 1996 não foi um ano particularmente letal no Evereste, por comparação com o número dos que atingiram o cume. E porquê? Porque esse ano marca a aceleração imparável da comercialização da montanha, com agências a "oferecerem" o cume a troco de algumas dezenas de milhares de dólares. O negócio era bom e pegou. No século XXI, uma média de mais de 500 pessoas por ano chegam ao ponto mais alto da Terra. E o facto de alguns morrerem na tentativa só torna ainda mais "suculenta" a aventura, como assume o alpinista português João Garcia (ver entrevista em cima).

Passos para a tragédia

Olhando para 1996 à distância, o que correu mal? Como em todas as tragédias, o desfecho final explica-se por uma sucessão de passos em falso. A competição entre as duas agências, que levou os líderes a forçar a subida. A falta de preparação de muitos dos clientes, que abrandou o ritmo de progressão, "queimando" todos os prazos de segurança. Falhas de organização e logística, que causaram atrasos, mal-entendidos e desencontros fatais. No final da lista, uma tempestade. Que, conforme já foi provado, estava claramente identificada.

Por que razão Hall e Fischer decidiram lançar para o cume um grupo tão grande de pessoas, muitas delas lentas e sem experiência de escalada a estas altitudes, sabendo de antemão que a janela de meteorologia era tão apertada? Pela mesma razão que os líderes das expedições o fazem atualmente: para gerir grupos tão grandes é necessária uma planificação ao milímetro. E essa planificação implica a definição de datas de cume, uma vez que a logística de apoio é pesadíssima. Resultado: a não ser que as condições sejam calamitosas, avança-se e logo se vê. Se não der, voltam para baixo e os clientes já não têm razões para protestar, uma vez que foi cumprida a obrigação contratual de organizar pelo menos uma tentativa... E quem paga quer receber o serviço que contratou.

É isso mesmo que explica o português Vítor Baía, um autodidata que apoiou João Garcia na sua campanha dos 14 "8000" e se transformou nos anos mais recentes no meteorologista de confiança de alguns grandes nomes do alpinismo mundial: "As grandes expedições montam a sua logística e não querem saber da previsão meteorológica. Têm uns modelos genéricos, umas estatísticas que mostram as datas historicamente mais favoráveis, e vão em frente. Já os alpinistas profissionais podem esperar pela altura certa para avançar, o seu calendário é normalmente mais elástico."

Uma história recente ilustra bem a análise de Vítor: "No ano passado, no Manaslu, na temporada de outono, muitas expedições abandonaram a montanha a 28 de setembro, porque era esse o calendário predefinido. Eu tinha dado indicações de que o melhor dia de cume seria 1 de outubro... Todos os que lá ficaram fizeram cume nesse dia." Num meio ainda muito dominado pela superstição e pela adrenalina, só alguns aprenderam a acreditar na tecnologia. Ou se podem dar a esse luxo. "E são normalmente os mais experientes, os que já apanharam sustos", confirma o português sediado na Guarda.

Em alta montanha, muitas vezes o primeiro erro pode ser o último. Será que aprendemos com os erros? Vítor e João acham que não. Há cada vez mais gente a desafiar a sorte nas encostas do Evereste, escudadas na falsa segurança que lhes é proporcionada pela gigantesca logística das grandes agências. Na primavera, o campo base do Evereste do lado sul é uma verdadeira cidade de tendas, com discotecas, vendedores ambulantes de cerveja e wi-fi por todo o lado. Para os puristas, isto é atraiçoar o espírito do alpinismo. Para os clientes, trata-se de pagar para ter uma aventura. Para as agências, é um negócio de milhões. Lá do alto, o Evereste observa. E, de vez, em quando, zanga-se.

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