Na Rússia com amor aos triunfos e desdém pela nota artística

Portugal fez o que tinha a fazer sem o espetáculo das vitórias morais. Madonna, Jesus, Conceição e Vitória foram testemunhas

Esta é uma época em que aqueles que torcem pela seleção nacional estão felizes. É a era de Cristiano Ronaldo, quatro vezes Bola de Ouro e com a quinta já encomendada, a era em que os resultados, porque são aquilo que fica, têm prioridade sobre tudo o resto.

Com Fernando Santos, que ontem teve motivos para festejar com agrado o seu 63.º aniversário, as exibições são claramente o menos importante. Portugal chega à Rússia com amor aos triunfos e um desdém pela nota artística.

Podemos perguntar se não é possível compatibilizar vitórias com a estética do futebol. Claro que se pode, mas não sendo o possível, o que é preferível? A resposta é óbvia.

Portugal chega à sua décima fase final consecutiva de seleções e ao primeiro Mundial desde 2006 sem passar pelo arreliador playoff. Era esse o cenário a evitar ontem e, por isso, Portugal precisava de um triunfo sobre a Suíça.

Se recuarmos uns anos, não são precisos muitos, a seleção nacional nestas condições tremia e até podia concretizar o seu objetivo, mas sofrendo a bom sofrer...

Ontem na Luz, o seu estádio-talismã, Portugal sabia que só uma vitória o apurava diretamente para o Mundial. E chegou a ser irritante ver a paciência com que os futebolistas nacionais atuavam, própria de quem sabia o que tinha a fazer sem fugir ao plano traçado. Na primeira meia hora, Portugal tem zero oportunidades de golo, Ronaldo, o seu capitão, jogava longe da área e a Suíça parecia ter o antídoto perfeito para levar a água ao seu moinho: ritmo baixo, impetuosidade nos duelos e ao mesmo tempo aproveitar a qualidade do seu lateral esquerdo Ricardo Rodríguez e do seu virtuoso extremo Shaqiri.

O momento-chave dá-se quando Fernando Santos deslocou João Mário mais para a zona central. Fazia sentido, pois no flanco esquerdo português Lichtsteiner pouco atacava e Shaqiri nada defendia. Mas era preciso qualquer coisa que agitasse o jogo para a qualidade de Portugal vir ao de cima e isso surgiu pelos pés do ontem superlativo João Moutinho, que solicitou Bernardo Silva na área para este por à prova Sommer.

Pouco depois, numa das poucas investidas de Portugal pela esquerda na primeira parte, Eliseu, inteligente, colocou a bola entre o guarda-redes e Djourou. João Mário intrometeu-se e o central helvético marcou... na própria baliza.

Merecia a seleção nacional estar em vantagem? Não. Verdade que dominava o meio-campo com os imperiais William e Moutinho, Pepe e Fonte eram uns garantes na defesa, Bernardo Silva e João Mário tentavam descobrir o caminho do golo, mas com reduzido sucesso até então. As grandes equipas são assim; matreiras, eficazes e letais ao primeiro golpe. E sem nunca se impacientarem.

Percebia-se que agora, sim, o campeão europeu podia fazer o jogo que tanto gosta, do contragolpe. A segunda parte rendeu, por isso, mais oportunidades para os homens de Fernando Santos. Pepe, Ronaldo, este em duas ocasiões - uma delas isolado - e Bernardo Silva tiveram o golo nos pés, mas acabaria por ser André Silva a matar o jogo e a mostrar, em definitivo, aos os suíços o caminho do playoff.

O remate vitorioso do avançado do AC Milan surgiu fruto de uma jogada bem trabalhada e que foi a exceção que confirma a regra da falta de nota artística desta seleção.

Pensava-se que a Suíça iria reagir, mas temos de ser honestos: os helvéticos fizeram uma qualificação acima do seu real valor e quando se apanhou "fora" do Mundial mostrou pouquíssimos argumentos. Registámos um desvio de Seferovic a um remate de Shaqiri, e foi só.

Por isto tudo, Portugal mereceu, mesmo com o seu capitão a fazer uma exibição abaixo do que já mostrou, carimbar o passaporte. Temos, de uma vez por todas, de levar a sério Fernando Santos. Se o homem disse que só regressava a Portugal no dia a seguir à final do Euro e cumpriu, se voltou a dizer que Portugal ia vencer a Suíça e cumpriu... agora é desejar que ele diga que só sai da Rússia depois da final do Mundial.

Para já, a qualificação foi conseguida, com a mediática Madonna e os treinadores dos três grandes a presenciarem ao vivo uma vitória material da seleção, porque o tempo das vitórias morais já lá vai.

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