Ajuda do Sindicato permite solução para 61% dos jogadores desempregados

Estágio do Jogador. Futebolistas sem contrato treinam-se sob orientação de Silas. Dos 37 que começaram, dois já arranjaram colocação

O Sindicato de Jogadores de Futebol Profissional organiza pelo 15.º ano o Estágio do Jogador, iniciativa destinada aos futebolistas (portugueses e estrangeiros) sem colocação. A edição deste ano começou a 3 deste mês, prolonga-se até 31 de agosto e, para além de sessões de treino diárias, existe uma componente formativa, que se inicia a 17 deste mês. A partir dessa data, haverá todos os dias aulas, desde coaching e desenvolvimento pessoal, passando pelo curso de prevenção de lesões, scouting, educação financeira, entre outros módulos.

Silas, que há poucas semanas terminou a carreira de futebolista, é o treinador. O ex-futebolista do Belenenses e da U. Leiria tem como adjuntos Rebelo e José Pedro. José Carlos, antigo defesa-direito, é o coordenador do estágio e Pedro Barbosa é o padrinho da edição deste ano e na passada semana deu uma palestra ao grupo. A estrutura é semelhante a um clube profissional, existindo ainda treinador de guarda-redes, massagista, fisioterapeuta e até assessor de imprensa.

O objetivo é proporcionar aos atletas um trabalho diário, como se estivessem num clube, de modo a estarem em forma quando surgir a oportunidade de assinar um vínculo profissional. O estágio já teve boas notícias - o médio João Vilela, formado no Benfica, assinou pelo Merelinense, equipa do Campeonato de Portugal que na última época disputou até à última a subida à II Liga. E neste fim de semana João Coimbra chegou a acordo com o Trofense, também do Campeonato de Portugal. Ou seja, neste momento o grupo tem 35 atletas.

Um dos casos de maior sucesso das edições do Estágio do Jogador foi o de Miguel Garcia, em 2009. Após recuperar de uma grave lesão, o futebolista formado no Sporting participou no estágio e arranjou colocação no Olhanense. Na época seguinte estava no Sp. Braga, onde foi figura importante numa equipa que chegou à final da Liga Europa, perdida para o FC Porto. O "herói de Alkmaar" - marcou o golo no último minuto do prolongamento que permitiu a passagem do Sporting à final da Taça UEFA, em 2004-05 - é um claro exemplo do sucesso das 15 edições do estágio, com 529 futebolistas colocados em 893 inscritos, uma taxa de empregabilidade de 61%.

Esta não é a primeira experiência de Silas como treinador, ele que também frequentou este estágio como jogador, há dois anos. "Sempre tive esta vocação, até porque gostava de falar muito dentro de campo e de ajudar os meus colegas", explica, deixando o aviso aos jogadores da equipa do Sindicato: "Não partilho dessa ideia de que isto é só para manter a forma. Comigo têm de jogar para competir a sério durante os 90 minutos e tentar fazer bons resultados nos jogos-treino, pois só dessa forma vão conseguir valorizar-se", afiança.

Todos os jogadores podem fazer a sua inscrição no site do Sindicato. A candidatura é depois alvo de análise, sendo dada prioridade aos atletas que tiveram experiências na I e II Ligas. Os selecionados poderão depois pôr a informação que quiserem a seu respeito no site, na área portal do jogador, nomeadamente clubes representados, vídeos e outros dados.

Dormir com 20 pessoas

Nesta 15.ª edição do Estágio do Jogador não faltam caras conhecidas, como os médios João Coimbra, formado no Benfica e que entretanto arranjou clube, Celestino, made in Academia de Alcochete, e Paulo Regula, que despontou no V. Setúbal. Mas a história mais dramática foi vivida pelo sul-africano Thibedi Ramu, 26 anos, cujo primeiro ano em Portugal foi muito diferente do que estava à espera.

Ramu chegou a Portugal em 2014 com uma mala carregada de sonhos. Na altura, com 23 anos, ingressou no Estrela de Portalegre, da I Divisão distrital, onde viveu um ano infernal. "Vim com a promessa de ter um teto para viver, um salário e a possibilidade de jogar futebol. Mas recebi um único ordenado durante toda a época e foram uns míseros 100 euros", conta ao DN.

Como conseguiu então sobreviver num país estranho quase sem dinheiro? "Os diretores do clube davam-nos comida duas vezes por dia. Não era muita, mas dava para sobreviver. Tive de me safar sozinho, nem sabia onde era o posto da polícia", diz. Mas o pior era mesmo o facto de viver numa divisão com 65 metros quadrados, em plena sede do Estrela de Portalegre, juntamente com mais... 20 pessoas.

Esta exploração acabaria por ser denunciada por ex-jogadores do clube, em abril de 2015. Nessa altura, já não havia equipa sénior no clube, desativada depois de uma inspeção do SEF. Foi por essa altura que Thibedi abandonou Portalegre. Depois desta traumatizante experiência, representou o Alcanenense, Vilaverdense e Eléctrico de Ponte Sor, onde na última época ganhou o campeonato e a Taça, conseguindo a promoção para o Campeonato Nacional de Seniores. No entanto, não houve interesse na sua continuidade e Thibedi procura um novo desafio, mantendo a esperança. "O meu destino é ser profissional de futebol", assegura, revelando que o seu grande sonho é jogar um dia na Premier League. "Em Portugal não digo qual é a minha preferência, pois já sei como vocês são loucos por futebol e não quero arranjar confusão!", atira o jogador, autor do golo no empate a uma bola com o Real, anteontem.

O médio made in Alcochete

Rui Patrício, Daniel Carriço, Miguel Veloso, Fábio Paim, Nani e... Celestino. Seis integrantes de uma das melhores fornadas da formação do Sporting. Quatro estão a realizar carreiras ao mais alto nível - Rui Patrício, Nani, Daniel Carriço e Miguel Veloso. Fábio Paim, desperdiçou o enorme talento que tinha e por fim, Celestino, que construiu uma carreira respeitável, em clubes como o Belenenses, Estrela da Amadora e Olhanense.

Celestino chegou a realizar uma pré-temporada integrado na equipa principal do Sporting, mas nunca se estreou oficialmente de leão ao peito, tendo sido sucessivamente emprestado a Olivais e Moscavide, Estrela da Amadora e Estoril, até sair a custo zero para o Belenenses, em julho de 2009.

Atualmente com 30 anos, este médio que pode alinhar nas posições 6 ou 8 não jogou na última época por motivos pessoais e o último clube que representou foi o Atlético, em 2015-16, "experiência que não correu bem", pois o histórico clube lisboeta desceu da II Liga para o Campeonato de Portugal.

Enaltecendo a utilidade do Estágio do Jogador, pelo facto de "permitir manter a condição física, para todos estarmos preparados quando surgir alguma oportunidade de assinar por um clube", confessa que tem algumas hipóteses em carteira, tendo preferido treinar na equipa do Sindicato em vez de o fazer sozinho.

Celestino reconhece que poderia ter construído uma carreira bem melhor. "Paulo Bento disse--me que tinha a intenção de apostar em mim, mas assim não aconteceu e segui em frente. O futebol é como tudo na vida... é preciso estar no local certo, na hora certa e ter aquela estrelinha... Mas ainda estou a tempo de assinar por um bom clube, mesmo estando ciente de que não irei alcançar um grande patamar", reconhece.

O talento promissor do Sado

Foi em 2008-09 que Paulo Regula, com apenas 19 anos, surgiu em grande plano na equipa principal do V. Setúbal. No entanto, este produto da renomada formação sadina acabou por não confirmar as potencialidades e pouco jogou nas duas épocas seguintes. Mudou-se então para o Olhanense, onde não foi totalmente feliz, apesar de ter marcado alguns golos importantes. A sua melhor temporada foi quando esteve cedido à Naval, em 2012-13 (41 jogos/9 golos). Passou pelo Litex Lovech, da Bulgária, e depois de uma boa temporada no Atlético, representou o Pinhalnovense em 2016-17 (apenas 12 partidas disputadas).

O médio de 28 anos agradece a ajuda do Sindicato de Jogadores. "Este género de ações são muito importantes e sempre contei com a colaboração do Sindicato em questões jurídicas. Gostei muito da palestra que o Pedro Barbosa [padrinho deste estágio] nos deu, em que nos explicou que não viemos aqui para brincar, mas sim para nos prepararmos com seriedade, como se estivéssemos num clube a sério", sublinha.

Paulo Regula acha que não deve haver vergonha em participar no Estágio do Jogador, assumindo a condição de desempregado. "Vergonha? De modo algum! Este estágio é muito útil, pois preparamo--nos e limpamos a cabeça. Quando chegarmos aos clubes estaremos em boas condições", garante.

O médio considera que a componente formativa deste estágio é muito importante. "O futebol não dura uma vida inteira e temos de começar a preparar o fim da carreira. Eu já comecei a pensar nisso e tenho um projeto ligado ao futebol que já está em construção", anuncia.

Sem a sorte de Nélson Semedo

Em janeiro de 2012, o Benfica anunciou a contratação de dois jovens jogadores do Sintrense, com integração a partir da temporada seguinte. Um deles, Nélson Semedo, acabaria por se afirmar no Benfica B e o resto da história é conhecida. O outro, Manuel Liz, nunca chegou a representar o clube da Luz. "Fui emprestado ao Fátima no primeiro ano, tal como o Nélson Semedo. No segundo ano regressámos, ele jogou na equipa B, mas eu não tive uma única oportunidade durante seis meses e como queria jogar rescindi e fui para o Atlético", conta.

Este defesa/médio direito, atualmente com 27 anos, continua a ter contacto com Nélson Semedo e desfaz-se em elogios ao seu rendimento. "Está uma máquina! Mas já se adivinhava que ele viria a ser um grande jogador, pois sempre teve grande qualidade", refere, fazendo um pedido ao Benfica para que baixe dos 50 milhões de euros pedidos pelo passo do internacional português: "Acho que deviam baixar a fasquia, para ver se ele consegue ser feliz noutro lado. Trata-se de um valor exorbitante, ainda para mais quando falamos de um defesa-lateral. Mas atenção, eu acho que ele vale isso e eu dava!", atira.

Manuel Liz está no desemprego por uma infeliz coincidência. "Não assinei por um clube porque estava à espera que outra situação se concretizasse. Agora, nem um nem outro", lamenta, reconhecendo que este estágio está a ser muito útil "para manter a forma até aparecer outro clube interessado".

O jogador que nas duas últimas temporadas regressou ao Sintrense elogia a aposta do Sindicato de Jogadores na formação. "Estou a acabar o 12.º ano com a ajuda de um protocolo celebrado pelo Sindicato. Também vou fazer um curso de inglês", revela, confessando que gostaria de abraçar uma primeira aventura no estrangeiro.

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