Inglaterra e Itália discutem em Wembley quem vai suceder a Portugal no trono

Cinco anos e um dia depois do golo de Éder, a seleção dos "três leões" recebe a "squadra azzurra" num confronto entre duas seleções que apostam mais no espírito coletivo do que nas individualidades, mérito dos técnicos Gareth Southgate e Roberto Mancini.

Tudo o que é bom chega ao fim. Como vai suceder hoje com o Euro 2020 jogado em 2021, quando Inglaterra e Itália se defrontarem para discutir quem sucede a Portugal - o segundo campeão com mais tempo como detentor do troféu, cinco anos, por força da pandemia -, na final de uma competição de grande nível, com excelentes jogos, muitos golos (2,8 por jogo, quarta melhor média da história da prova, sendo que os três primeiros foram em edições com quatro participantes) e até um drama que comoveu meio mundo. Contra as expectativas generalizadas, depois de uma época incaracterística e desgastante e devido a um formato inédito (com 11 cidades-sede, algo que segundo o presidente da UEFA, Aleksander Ceferin, dificilmente se voltará a repetir), este Europeu vai deixar boas recordações a quem o seguiu. Falta só saber se, como cantam os adeptos ingleses, o "futebol regressa a casa" e os "três leões" vencem a prova pela primeira vez e a juntam no palmarés ao Mundial"66 ou a squadra azzurra repete a proeza de 1968 e, tal como Éder e companhia, vence a decisão em casa do rival.

A partir das 20 horas (direto na RTP1 e Sport TV1), no renovado e lotado Wembley numa espécie de regresso ao passado pré-covid, e sob arbitragem do neerlandês Björn Kuipers, defrontam-se duas seleções que tiveram a mesma grande virtude: a de jogarem como equipa, fiéis à ideia dos respetivos técnicos. E que, curiosamente, basearam o seu jogo em contraciclo com a fama que granjearam ao longo dos tempos. Ou seja, uma Inglaterra assente na solidez defensiva, bastante eficaz no último terço (perto de metade dos remates saíram enquadrados e marcou todos os dez golos dentro da grande área) e uma Itália assumidamente ofensiva e virada para o ataque (chega à decisão com 108 tiros efetuados, mais 50 que o seu adversário!) mas que quando foi preciso (na meia-final com a Espanha, equipa que lidera as principais estatísticas atacantes, apesar de só ter vencido uma vez nos 90 minutos) soube apelar ao seu ADN para levar o jogo para onde queria e garantir o passaporte para a final.

Claro que os dois finalistas beneficiaram, também, do já referido formato deste Europeu. Ingleses e italianos jogaram toda a fase de grupos em casa e os primeiros só disputaram um jogo fora de portas, nos quartos de final. "Não é correto que umas equipas tenham de viajar mais de 10 mil quilómetros e outras mil, por exemplo", concedeu Ceferin numa entrevista à BBC.

Malapata oficial

Apesar de serem dois países históricos no contexto do futebol europeu, o certo é que só se defrontaram oito vezes a nível oficial, sendo esta a primeira vez que jogam uma final. "Culpa" dos ingleses, naturalmente, uma vez que esta será apenas a segunda vez na história que vão disputar um grande título internacional - os italianos têm um palmarés bastante mais rico, com quatro títulos mundiais e um europeu. Curiosamente, nesses jogos a "sério", a azzurra leva grande vantagem: nunca perdeu numa fase final e apenas cedeu uma derrota num jogo de qualificação para o Mundial de 1978. No resto, três triunfos e um empate com sabor a vitória, uma vez que venceu no desempate por pontapés da marca de penálti, nos quartos do Europeu de 2012, onde seria finalista vencida.

Já o balanço geral é bastante mais equilibrado, ainda que o conjunto latino tenha ligeira vantagem: num total de 27 jogos, o primeiro deles em 1933, ganhou dez e perdeu oito, sobrando nove empates, o último dos quais no derradeiro embate disputado em Wembley a 27 de Marços de 2018. Ficou 1-1, com Vardy a marcar para o conjunto de Southgate (que utilizou apenas três jogadores que devem ser titulares este domingo: Kyle Walker, John Stones e Raheem Sterling) e Insigne a igualar perto do fim, de penálti, numa altura em que Roberto Mancini não tinha ainda assumido o cargo e a equipa ficou a cargo do interino Luigi Di Biagio (que fez alinhar muitos nomes que jogarão hoje, como Donnarumma, Bonucci, Jorginho, Immobile, Federico Chiesa ou Belotti, além do autor do golo).

Por isso, mas não só, espera-se muito equilíbrio na final deste domingo, uma vez que ambas as seleções chegam à disputa do troféu com sequências de resultados incríveis - a Inglaterra segue com 12 jogos sem perder (o último algoz foi a Bélgica, no apuramento para a Liga das Nações), a Itália vai em 33, um recorde da equipa, iniciado depois de uma derrota na Luz com Portugal (golo de André Silva). E, curiosamente, nenhuma delas aderiu à defesa a três a tempo inteiro, que esteve na moda durante a competição: Southgate aposta num 4x2x3x1, embora perante a Alemanha tenha adaptado o sistema com Kyle Walker a juntar-se a Maguire e Stones no centro da defesa e Trippier a fazer o corredor direito, numa rara demonstração de pragmatismo de um técnico inglês; Mancini opta por um 4x3x3, assente na solidez dos veteranos centrais Chiellini e Bonucci, na capacidade de trabalho do "invisível" Jorginho (segundo jogador que mais correu até agora, 72,3 quilómetros, só atrás do espanhol Pedri, e terceiro com mais recuperações de bola, 40) e na imaginação à frente de Insigne e Chiesa Pena que o lateral esquerdo Spinazzola não possa estar presente, depois de ter sofrido uma lesão grave. De resto, a grande diferença entre os finalistas está mesmo na baliza, onde Donnarumma se tem mostrado seguríssimo, ao contrário de Pickford, e nas opções do banco, uma vez que Southgate parece dispor de mais talento para poder alterar os acontecimentos.

Da chacota ao respeito

Como já foi dito, mais do que as individualidades, os dois finalistas beneficiaram sobretudo do empenho coletivo e aí o mérito cabe aos respetivos técnicos que, ainda assim, partem de situações diferentes. Para Gareth Southgate, o jogo de Wembley é uma oportunidade histórica de apagar de vez o penálti falhado enquanto jogador, no antigo estádio, que afastou a Inglaterra da possibilidade de vitória no Euro que organizou em 1996. Sem grande currículo como treinador quando chegou ao cargo - contava uma passagem de três anos e pouco pelo Middlesbrough, onde somou uma despromoção, e outra pelos sub-21 ingleses (na única fase final que disputou, em 2015, caiu na fase de grupos, perdendo com Portugal e... Itália, embora tenha vencido no ano seguinte o Torneio de Toulon, único troféu da sua carreira) -, tem conseguido convencer, a pouco e pouco, toda a gente.

"Deu muito à sua equipa, com dois coisas acima do resto. Em primeiro lugar, na sua carta à nação ["Dear England"], onde mostrou que vê o seu papel na equipa nacional como social além de futebolístico. Depois, fez a equipa acreditar no seu plano, que é: ninguém nos marca rápida ou facilmente", referiu o antigo internacional alemão Phillip Lahm, num artigo no The Guardian.

"É um líder incrível, muito atencioso e inteligente. A forma como manteve os jogadores unidos e como os apoiou, não só em campo mas fora dele, foi muito importante", elogiou Gary Lineker, antigo avançado dos "três leões".

Já Roberto Mancini chegou com outro currículo, depois de a Itália ter falhado o apuramento para o Mundial"18. Antigo dianteiro de grande categoria (apesar de só ter somado 36 internacionalizações e quatro golos pela azzurra), tem já um longo percurso no banco, onde se especializou, sobretudo, nas provas a eliminar, com seis taças a juntar aos quatro títulos de campeão, três deles no Inter e o último... em Inglaterra, no Man. City. "Os 11 jogadores italianos atuam tão harmoniosamente como se estivessem num clube e isso é uma proeza enorme. A ligação entre Mancini e os jogadores pode sentir-se nas conferências e a Itália joga com convicção", salientou Lahm.

dnot@dn.pt

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