O irlandês que atravessou o Atlântico a remo em 49 dias

Gavan Hennigan, ex-toxicodependente irlandês, encontrou nos desafios extremos uma boia de salvação. Bateu recorde no Atlântico

A vida de Gavan Hennigan começou cedo a ser um desafio extremo. O irlandês, filho de um pai alcoólatra, tornou-se também ele um adicto ao álcool e a drogas ainda na adolescência, caiu mesmo na indulgência, vagabundeou por Amesterdão e Londres e foi internado com uma overdose de ecstasy aos 20 anos.

Superar os seus próprios "demónios" foi a mais exigente prova da vida de Gavan, nascido na cidade portuária de Galway, juntinho ao Atlântico. Por isso, acaba por não ser estranho que o irlandês tenha feito dos desafios extremos um modo de vida. O último, superou-o há poucos dias: atravessou o Atlântico a remo, sozinho, batendo o recorde daquela que é conhecida como a mais dura das experiências para um remador - e completada por menos gente do que a subida ao Evereste.

Gavan Hennigan, agora com 35 anos, conseguiu completar a travessia de 5000 km entre La Gomera, uma das ilhas Canárias espanholas, e o porto de English Harbour, na ilha de Antigua, em menos de 50 dias (49 dias, 11 horas e 37 minutos), batendo por grande margem o anterior recorde de travessia a solo, que o italiano Matteo Perruchini tinha fixado em 52 dias, na edição do ano passado, deste Atlantic Challenge, competição de travessia atlântica a remo inspirada na odisseia dos militares britânicos Charley Blyth e John Ridgway, em 1966, que remaram durante 92 dias desde Cape Cod, nos EUA, até à Irlanda.

Agora, ao longo dos 49 dias que durou a travessia de Gavan Hennigan, que partiu das Canárias no último dia 14 de dezembro, o irlandês também teve de ultrapassar vários desafios físicos e mentais até cruzar a linha de chegada no terceiro lugar da geral - o primeiro em solitário -, à frente de embarcações compostas por dois, três e quatro elementos.

"Estes últimos dias foram bastante complicados, remei nonstop porque queria muito este terceiro lugar", comentou o irlandês na chegada às Caraíbas, em êxtase por uma "épica aventura que repetiria de imediato".

Para trás na vida de Hennigan ficaram já esses tempos de uma dura adolescência, na qual as drogas e o álcool foram refúgio para depressões, problemas de autoestima e dificuldades em lidar com a sua própria homossexualidade... Depois da overdose, aos 20 anos, o irlandês foi salvo pelo desporto, quando descobriu o prazer do surf e do snowboard.

"A partir daí comecei a desenvolver um gosto por desportos e aventuras cada vez mais extremos", conta o irlandês, que entretanto se dedicou também a um dos empregos mais arriscados do mundo: mergulho profissional saturado em alto- -mar (a profundidades que podem atingir os 200 metros), geralmente ao serviço de empresas petrolíferas na construção ou manutenção de plataformas. Antes desta travessia a remo, Gavan já tinha protagonizado várias outras aventuras que desafiam os limites da resistência humana, como a Yukon, corrida de travessia do Ártico que completou em seis dias, a temperaturas de 30 graus negativos, ou a travessia do lago Baikal, na Sibéria, em que percorreu 700 km ao longo de 17 dias.

"Gosto de desafios mentais, de me testar a mim mesmo. Já estive no sítio mais escuro que podia estar, por isso nada me assusta propriamente. Divirto-me a fazer isto", explica Gavan, um adicto da aventura.

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