"Helton Leite lê muito bem o jogo e é melhor a sair da baliza"

António Fidalgo, antigo guardião e atual comentador, considera que, para já, a razão está do lado de Jorge Jesus na questão da troca dos guarda-redes, embora elogie Odysseas Vlachodimos. Sobre o recorde de Baía é "extremamente difícil" mas "no futebol tudo é possível"

E, subitamente, Jorge Jesus trocou de guarda-redes. De forma algo inesperada, o grego Odysseas Vlachodimos perdeu a titularidade depois de dois jogos em que nem sequer sofreu golos e o brasileiro Helton Leite assumiu a titularidade na baliza do Benfica. A opção do técnico causou alguma estranheza mas a verdade é que os números não podiam ser melhores, pelo menos a nível interno: o novo dono da baliza completou este fim de semana 680 minutos sem sofrer qualquer golo, superando o máximo da época nas principais ligas europeias, que estava na posse de Ederson, do Manchester City (602). São mais de sete jogos e meio desde que Helton Leite foi ao fundo da baliza em Portugal: a última vez foi a 14 de fevereiro, quando Yan Matheus fez, da marca de penálti, o golo do empate do Moreirense na receção aos encarnados.

"Foi preciso uma certa coragem para trocar o Odysseas pelo Helton Leite, em função do que o Odysseas estava a fazer. A mim surpreendeu-me, tê-lo feito naquele momento surpreendeu-me", confessa ao Diário de Notícias António Fidalgo, antigo guarda-redes, que representou entre outros Benfica, Sporting e Sp. Braga.

No entanto, o agora comentador e formador em coaching desportivo e programação neurolinguística, não atribui todo o mérito da façanha à mera alteração de nome do guardião mas "ao trabalho coletivo e à mudança no processo defensivo". "Há, claro, o mérito da última barreira, que é o guarda-redes. Mas creio que esta marca é fruto essencialmente do trabalho coletivo. Hoje em dia, mais do que nunca, o guarda-redes está inserido na estratégia da equipa. Antigamente não era bem assim, os guarda-redes trabalhavam à parte, mas agora fazem-no com o resto da equipa", diz.

Agarrar a oportunidade

Fidalgo, aliás, faz questão de "enaltecer o grande trabalho do Odysseas enquanto esteve na baliza do Benfica": "Foi fundamental para ganhar um campeonato, foi fundamental para algumas prestações da equipa na Liga portuguesa. Mas a vida de um guarda-redes é assim, o Helton Leite teve uma oportunidade e aproveitou-a."

Sobre as diferenças entre os dois guarda-redes, o antigo jogador destaca que o brasileiro "é extremamente inteligente a ler o jogo". "Estrategicamente faz uma excelente leitura e é muito bom fora da baliza, sai melhor do que o Odysseas aos cruzamentos e mesmo para intercetar bolas, tem sido melhor nesse capítulo. Mas, entre os postes, o Odysseas parece-me um pouquinho superior ao Helton, é mais eficaz", acrescenta António Fidalgo.

Para o antigo guarda-redes, a justificação principal para a alteração terá sido o último tento sofrido pelo grego, num lance em que não ficou isento de culpas - exatamente por causa de uma saída mal sucedida a um cruzamento. "Segundo o que tenho ouvido e lido, mas pode ser só ruído, terá a ver com alguns erros individuais, nomeadamente no jogo com o Sporting, no único golo do jogo. Mas os guarda-redes são aquele elemento que num jogo basta terem um erro para serem culpabilizados pelo resultado. O avançado falha seis golos mas marca no último minuto e é um herói, o guarda-redes evita dez golos mas tem um azar no fim e é o réu", reforça Fidalgo, descartando que o técnico mostre uma particular exigência para quem ocupa a baliza: "Pelo que conheço do Jorge e por aquilo que vou vendo, não é só exigente com o guarda-redes, é-o com todos os jogadores, tanto a nível individual como coletivo. Agora está justificado o porquê da decisão que tomou e o Jorge Jesus é quem os treina, ele é quem os vê todos os dias e a razão, para já, está claramente do lado dele."

Já no que diz respeito à possibilidade de Helton Leite vir a bater a marca de Vítor Baía no principal escalão do futebol português (1191 minutos imbatível, entre setembro de 1991 e janeiro do ano seguinte) ou de João Botelho (que ao serviço dos açorianos do Operário conseguiu 1221 minutos sem ir ao fundo das redes), o antigo guardião considerou-a "extremamente difícil". "680 minutos é uma marca incrível [atingida na Luz por José Henrique, Bento, Silvino, Enke, Júlio César e Ederson] mas não sei se vai bater o recorde. Possível é, porque no futebol tudo é possível mas, numa carreira inteira, apanha-se uma vez uma sequência de jogos assim..."

Uma escola que não é de samba

Olhados com desconfiança durante muitos anos, os guarda-redes brasileiros estão a afirmar-se com grande fulgor no futebol europeu em geral e português em particular. Allison Becker (Liverpool) e Ederson (Manchester City, com passagem pela Luz) estão claramente no topo e só na última ronda da Liga portuguesa oito equipas apostaram nas suas qualidades para defender a baliza - Samuel (Portimonense), Léo Jardim (Boavista), Jordi (Paços), Denis (Gil Vicente), Pasinato (Moreirense), Matheus (Sp. Braga) e Luíz Jr. (Famalicão), isto além do ex-boavisteiro formado no Atlético Mineiro.

"Também é uma surpresa para mim, embora seja uma coisa com algum tempo. A escola de guarda-redes do Brasil é completamente diferente de há alguns anos. No meu tempo, falava-se muito da escola dos países de Leste, da ex-Jugoslávia, mas agora sem dúvida que o Brasil tem dos melhores guarda-redes do mundo. Os treinadores portugueses fazem bem em apostar neles. Já não estamos em 1982, quando o Waldir Peres destoava claramente do resto da seleção brasileira", refere bem disposto Fidalgo, finalizando: "Penso que misturam um bocadinho aquilo que é alegria de jogar e de treinar do brasileiro com outro tipo de responsabilidade e de trabalho mais aturado. E antigamente eram baixinhos, agora são todos altos. Mas esse é só um dos fatores."

dnot@dn.pt

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