Hélder Cristóvão: "Plantel do Benfica era extenso, envelhecido e foi mal escolhido"

Ex-jogador muito crítico com época do Benfica, considera que "Vlachodimos não é guarda-redes para o Benfica".

As razões para o segundo terceiro lugar consecutivo do Benfica na I Liga "estão a ser dadas aos poucos", assume o ex-futebolista e treinador Hélder Cristóvão, antecipando "outra época de risco" com a chegada de Roger Schmidt.

"As exibições um pouco cinzentas e os inúmeros atletas associados ao clube justificam muito o falhanço desta temporada. Muita coisa esteve mal e, atendendo às notícias que vão saindo, o presidente Rui Costa quer dar um murro na mesa. Ao mudar tudo ou muita coisa, como cerca de 50% do plantel, será outra época de risco", notou à agência Lusa o ex-defesa das 'águias' (1992-1996 e 2002-2004), que orientou a equipa B (2013-2018).

O Benfica, recordista de cetros, com 37, fechou o pódio da edição 2021/22 da I Liga com 74 pontos, menos 17 face ao campeão nacional FC Porto, e a 11 do Sporting, segundo, 'carimbando' o pior registo desde 2005/06 (em campeonatos disputados com 18 clubes).

"O plantel era demasiado extenso, algo envelhecido e acho que foi mal escolhido. Havia dois jogadores por posição, mas nem sempre a primeira opção era muito mais forte do que a segunda. Por exemplo, houve muitas dúvidas na ala direita e veio-se a comprovar que Gilberto era mais consistente do que Valentino Lazaro e Diogo Gonçalves", ilustrou.

Hélder Cristóvão, de 51 anos, enalteceu os desempenhos de Alejandro Grimaldo, Rafa, Gonçalo Ramos e Darwin Núñez, melhor marcador da prova, com 26 golos, detetando, porém, "perda de consistência" de Adel Taarabt na dupla de médios com Julian Weigl.

"Acho que Odysseas Vlachodimos não é guarda-redes para o Benfica. É preciso alguém que jogue mais a frente e inicie a construção com segurança, mas tenho de reconhecer que fez excelente época. Já os defesas centrais Nicolás Otamendi e Jan Vertonghen tiveram muitas dificuldades de adaptação ao campeonato e a um bloco alto", agregou.

A "metamorfose tática" entre os sistemas de '4-4-2' e '4-2-3-1' de Nélson Veríssimo "não ajudou", tal como a linha de três defesas centrais adotada pelo antecessor Jorge Jesus, havendo "muita coisa que se foi perdendo ou que nunca se ganhou ao longo da época".

"Quando se despede um treinador, é porque todos falharam. Não só o treinador que sai, mas também a estrutura. Ao assumir a entrada de novos dirigentes e a tentativa de se encurtar as pessoas que se juntarão à equipa principal, com ideias mais sólidas, há um reconhecimento de todos de que, estruturalmente, o Benfica não esteve bem", avaliou.

Hélder Cristóvão faz reparos a uma qualidade de jogo "muito aquém" dos 'encarnados', mesmo que tenham aplicado "muito bem" uma "estratégia diferente" em "momentos específicos" do percurso até aos quartos de final da Liga dos Campeões, sem receio de "serem dominados em vez de dominadores e jogarem num bloco baixo e em transição".

"Agora, esse modelo não dá para o campeonato. Além disso, a alteração de 'chip' de um jogo para o outro custava muito e a equipa tardava em dar essa resposta. Não foi um Benfica que entusiasmasse e havia algumas dúvidas entre I Liga e Liga dos Campeões sobre qual era o alvo, apesar de terem dito sempre que era o campeonato", recordou.

Jorge Jesus e Nélson Veríssimo, cada qual com duas derrotas caseiras na I Liga e outra na 'Champions', contribuíram para um registo sem paralelo desde a inauguração do novo Estádio da Luz, em 2003, igualando mesmo o recorde dos lisboetas fixado em 1996/97.

"Roger Schmidt é aposta do Rui Costa. Apesar de ser de uma escola diferente, pode ser positivo para o futebol português. Não podemos esquecer que Thomas Tuchel e Jürgen Klopp são dos melhores treinadores do mundo neste momento. Roger Schmidt bebe um pouco dessa escola e temos de lhe dar algum conforto. Uma vez escolhido o treinador, estou com ele a 100% e acredito nas ideias que possa trazer para o Benfica", afiançou.

Vencedor de um campeonato e três Taças de Portugal, Hélder Cristóvão levanta "várias questões" sobre a entrada do técnico alemão, de 55 anos, que está em fim de contrato com os neerlandeses do PSV Eindhoven e tem um princípio de acordo com as 'águias'.

"O treinador vai ter tempo? Acredito que sim, porque há dois anos de contrato e foi uma contratação do presidente. Depois, o 'tribunal' da Luz vai dar-lhe tempo para que consiga implementar as suas ideias? Esperamos bem que sim, mas são muitas mudanças e vai ser uma época complicadíssima. Qual a competição que irão dar mais relevância? Num plantel em construção, nunca se pode falar em atacar todas ao mesmo tempo", advertiu.

O ex-internacional luso prevê um Benfica "vertiginoso, com posse e a jogar mais de 70% no meio-campo adversário" depois da segunda época seguida sem títulos, para a qual contribuíram os desaires com FC Porto, nos 'oitavos' da Taça de Portugal, e Sporting, na final da Taça da Liga, enquanto os juniores venciam uma inédita UEFA Youth League.

"Muitas vezes, [apostar na formação] é uma necessidade. Creio que no meu tempo havia um plano a três ou quatro anos que incluía um espaço reservado aos jovens, mas estes têm de conquistá-lo. Este título, que, falo por experiência própria, o Benfica perseguia há muito anos, é muito importante para clube e país, mas não vai determinar quem sobe e fica na equipa principal. Isso passa pela prontidão do jogador quando lá chega", atirou.

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