Genes de talento no atletismo passaram de mãe para filha

Com apenas 16 anos, Mariana Machado, filha da ex-campeã Albertina Machado, conseguiu já surpreendentes vitórias entre seniores, apesar de treinar há apenas dois anos

São vários os casos, no desporto, onde se pode aplicar o ditado popular "filho de peixe sabe nadar". E em Braga está a nascer mais um exemplo. Mariana Machado, filha da consagrada atleta Albertina Machado, uma dos melhores valores do meio-fundo nacional dos anos 1980 e 90, tem mostrado que herdou os genes de talento da mãe e, com apenas 16 anos, começa a revelar-se como um diamante em bruto no atletismo nacional.

Apesar de ter começado a treinar "a sério" há apenas dois anos, Mariana já tem impressionado pelos resultados que tem vindo a alcançar. Paradigmática dessa ascensão foi a atuação no passado fim de semana, no Campeonato Nacional de Clubes em Pista Coberta.

A jovem bracarense bateu o recorde juvenil na prova dos 800 metros, logrando o terceiro lugar mesmo competindo contra atletas mais velhas, e surpreendeu toda a gente ao garantir a vitória na prova dos 1500 metros, de novo entre seniores e assegurando também o recorde nacional juvenil desta distância.

Com tamanha demonstração de talento, era inevitável que os holofotes mediáticos iluminassem a jovem corredora que representa as cores do Sporting de Braga, algo a que Mariana ainda se está a habituar. "Não estava nada à espera destes resultados, foi mesmo uma surpresa, mas significa que o trabalho tem sido bem feito, e isso dá--me motivação para tentar alcançar outros resultados", começou por partilhar com o DN.

À incontornável questão sobre se a carreira da mãe foi fonte de inspiração, Mariana responde sem hesitação: "Claro que ter como mãe a Albertina Machado é motivador, mas esta foi uma decisão tomada por mim, nunca fui pressionada em casa para me dedicar ao atletismo."

Ainda assim, a jovem adolescente não prescinde dos conselhos experientes da progenitora, admitindo que "é um privilégio ter em casa alguém que compreende as dificuldades da modalidade". "A minha mãe já viveu tudo isto, sabe todos os problemas que eu possa ter no dia-a-dia e consegue mostrar--me o melhor caminho. Por isso, digo que existem muitas atletas que admiro, mas nenhuma como a Albertina Machado", acrescenta.

As palavras de Mariana deixam a mãe Albertina embevecida, mas servem também para aumentar um dilema interior, fruto do instinto maternal de proteção.

"A Mariana é uma aluna de excelência [ainda no último período conseguiu 20 valores a Matemática e a Físico-Química] e é nos estudos que se deve focar. Quando ela me fala em demasia no atletismo eu corto logo a conversa, para que não se entusiasme tanto", diz a mãe: "Prefiro que não seja uma atleta tão boa, mas que tenha um curso que lhe permita ter um bom emprego se no atletismo as coisas não correrem bem. Tenho medo de que ela se deslumbre com os resultados e não aproveite as imensas capacidades que também tem enquanto aluna."

No entanto, Albertina Machado não esconde o brilho nos olhos quando a conversa deriva para o talento da filha na modalidade, sobretudo quando é desafiada a comparar qualidades de uma e outra. "É uma fotocópia minha. Tanto gosta das distâncias que eu fazia em pista [800, 1500 e 3000 metros] como também do corta-mato. Tem potencial para tudo, porque é rápida e tem força", descreve Albertina.

Ainda assim, lembra que se a eventual carreira de Mariana no atletismo fosse comparável a uma maratona, o percurso da filha ainda estaria nos primeiros quilómetros. Por isso, há que pôr travão às euforias.

"É preciso muito espírito de sacrifício, dedicação, sofrimento e saber lidar muito bem com os objetivos. Por isso nunca pressionei a Mariana a competir, porque sei o quanto é difícil o mundo desporto, onde tudo é bonito quando corre bem, mas somos completamente esquecidos quando acontecem coisas más", lembra Albertina.

Com invulgar maturidade para uma adolescente, Mariana está, simplesmente, a fruir de todas as coisas positivas que o sucesso desportivo precoce lhe tem proporcionado. E mesmo admitindo que um dia "gostaria de representar Portugal em importantes provas internacionais", não faz, por enquanto, muitos planos para o futuro na modalidade.

"Correr sem pressão, um passo de cada vez, para tentar progredir, e fazer cada vez melhor", afirma, concordando que os estudos não podem ser descurados: "Gosto muito de atletismo e quero ter bons resultados, mas, por outro lado, também me quero aplicar na escola, porque sei que se tiver alguma lesão a minha carreira pode acabar e tenho de ter um curso que me dê boas possibilidades para trabalhar."

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