"Ganhar o Mundial seria a cereja no topo do bolo"

A surfista, 29 anos, sagrou-se no fim de semana campeã europeia pelo quarto ano consecutivo e está em boa posição para conquistar o título mundial, algo que seria inédito no bodyboard português

O que é preciso para se ser tetracampeã europeia?

Não sei se há uma fórmula, mas acho que é fundamental gostar do que se faz e treinar o máximo possível. Treino todos os dias e dedico a minha vida ao bodyboard. Acho que os meus resultados são o produto do trabalho diário, quando ninguém está a ver.

Além do treino dentro de água, que outro tipo de treino complementar e de sacrifícios é que a Joana faz para ter desempenhos de nível elevado?

O treino no mar é sempre o mais importante, tento surfar uma vez por dia, mas também treino flexibilidade, força e resistência em casa, sozinha, sem ginásio ou personal trainer. O bodyboard é muito exigente fisicamente e temos de trabalhar zonas que estão mais expostas a lesões, como ombros e costas. E depois, sou vegetariana desde os 10 anos, por motivos de ética animal, e acho que isso traz benefícios. E desde que tenho uma alimentação mais restrita, sem alimentos de origem animal, acho que recupero melhor e tenho energia durante todo o dia, sem oscilações.

Imagino que agora o objetivo é colocar o ouro sobre azul e juntar o título mundial ao europeu...

De repente, começou a ser um grande objetivo, após ter vencido o Sintra Pro, na Praia Grande. É uma oportunidade que quero agarrar com todas as forças, mas o objetivo a que me tinha proposto no início do ano já está cumprido, que era revalidar os títulos nacional e europeu. Já tenho o top 3 mundial garantido e ganhar o Mundial seria a cereja no topo do bolo.

Faltam duas provas. A primeira na Nazaré, que já conhece bem, e a segunda nas Canárias, onde nunca competiu. Arrumar o assunto já na próxima etapa é fundamental?

É importante, claro, porque é uma onda de que gosto, já a conheço e com a qual me tenho dado bem. É uma onda de areia, que é diferente todos os anos. Vou fazer o mesmo de sempre: tentar passar os meus heats em primeiro, dar o melhor em cada heat e esperar que as contas finais sejam favoráveis. Para garantir o título na Nazaré tenho de ganhar a prova, e no circuito mundial é algo que não está sob o nosso controlo. Tudo pode acontecer. Na Madeira, não ganhei mas consegui aumentar a distância pontual.

O que faltou para chegar pelo menos à final do Bodyboard Girls Experience?

Cometi um erro tático frente à Neymara Carvalho [na meia-final]. Eu tinha a prioridade, vi uma onda com potencial mas que não me pareceu que fosse boa, e então deixei-a ir e ela fez uma onda muito boa. Depois, não surgiram muitas ondas pontuáveis. Foi um erro de avaliação do mar.

A Joana nasceu e cresceu junto à costa algarvia. Como é que se iniciou no bodyboard?

O bodyboard tem muita tradição naquela zona, que já viu grandes campeões e tem muitos jovens praticantes. É o desporto na terra e não tive grande hipótese. Os meus amigos faziam bodyboard e tive de ir também [risos]. Foi por influência deles. Temos ondas excelentes.

Entrou tarde no circuito mundial...

O ano passado foi o primeiro em que fiz o circuito na íntegra. Fiquei em 4.º lugar e neste ano já tenho o 3.º garantido. Tenho pena de não ter começado uns anos antes. Acho que a grande diferença entre as atletas é mesmo a experiência nos vários tipos de onda, e a experiência competitiva é muito importante. Poderia ter evoluído mais. Entretanto, o Município de Vila do Bispo reforçou a aposta em mim e a Sagres entrou no meu projeto desportivo.

Essa é uma questão importante. É difícil conseguir patrocínios?

Muito difícil. Dependemos a 100% dos patrocinadores. Há sempre uma incógnita no início de cada ano se vamos ou não conseguir as condições necessárias para poder competir. O circuito mundial é muito dispendioso. Desde julho até meio de novembro, praticamente não estou em casa. Mesmo que tivesse de ter um emprego, não conseguia. As marcas deviam abrir os olhos para atletas que andam aí e têm um potencial enorme.

É igualmente tetracampeã nacional, mas é filha de pais alemães, que se radicaram no Algarve. Porque é que eles decidiram vir para Portugal?

Conquistei o título uma quinta vez, mas ainda não tinha nacionalidade portuguesa. Eles eram viajantes do mundo, andavam por todo o lado, mas aquele local é especial. É um sítio muito puro e bonito e tem uma tranquilidade muito grande. Eles reconstruíram uma casa que lá estava e eu e as minhas irmã [mais novas] crescemos lá, no meio da natureza. Tenho família na Alemanha, mas sinto-me portuguesa. Cresci e fiz tudo em Portugal.

Hoje é uma atleta titulada, mas quando era criança não gostava das aulas de Educação Física...

Sempre gostei de desporto e sempre pratiquei, mas não gostava das aulas em particular e recusei fazer do 5.º ao 9.º ano. Não gostava do ambiente de obrigação em jogar à bola. Para mim, não fazia sentido algum. Durante as aulas, estudava e fazia trabalhos de casa para as outras disciplinas. Era um bocadinho rebelde e gostava de desafiar a autoridade. Não gostava de desportos coletivos. Queria era fazer bodyboard.

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