Os portugueses Cristiano Matias e Fábio Ribeiro estão na origem de um dos mais inesperados sucessos recentes do desporto islandês. Treinador-jogador e treinador adjunto-jogador-capitão do Futebol Clube Ibéria, respetivamente, conduziram o clube à conquista do campeonato nacional de futsal da Islândia, um título inédito que garantiu também o apuramento para as fases preliminares da Liga dos Campeões de Futsal da UEFA.A vitória assume particular relevância pelo contexto em que foi alcançada. O Futebol Clube Ibéria foi fundado em 2018 e iniciou a sua atividade exclusivamente no futebol de onze. “O clube foi criado em 2018 para o futebol de onze. Era um grupo de amigos que jogava futebol de sete e decidiu inscrever uma equipa”, explica Cristiano Matias. Os fundadores são maioritariamente espanhóis, razão pela qual o clube adotou o nome Ibéria..Durante vários anos, o percurso no futebol de onze foi discreto, com o clube a competir nas divisões inferiores do sistema islandês. “O clube nunca foi muito bem-sucedido no futebol de onze. Só no ano passado fizemos a melhor época de sempre”, refere Cristiano. A grande mudança ocorreu em 2022, quando foi criada a secção de futsal. “Foi quando me fizeram o convite e eu pedi ao Fábio para vir comigo, porque jogávamos noutro clube”, acrescenta.Fábio Ribeiro aceitou de imediato o desafio. “Não foi preciso pensar muito. Assim que o Cristiano me disse, claro que vou aceitar este projeto e vou contigo”, recorda. A decisão revelou-se determinante. Em apenas três participações no campeonato nacional de futsal, o Ibéria conquistou o primeiro título da sua história, quebrando a hegemonia de um clube que dominava a competição há quatro anos consecutivos. .O campeonato de futsal da Islândia apresenta um formato pouco comum no contexto europeu. Não existe uma liga regular ao longo da época, mas sim uma competição concentrada em apenas três semanas. “É mais um torneio do que um campeonato”, descreve Cristiano Matias. A prova realiza-se com uma primeira fase em Novembro, outra em Dezembro e a fase final em Janeiro.Participam doze equipas, divididas em três grupos. Os jogos são disputados a um ritmo intenso. “Chegámos a fazer quatro jogos num dia”, revela Cristiano. Após a fase de grupos, os primeiros classificados e os melhores segundos apuram-se para uma fase final concentrada num único fim-de-semana, com quartos-de-final, meias-finais e final disputados em dias consecutivos.Apesar da curta duração, o título nacional garante ao vencedor o acesso às pré-eliminatórias da Liga dos Campeões de futsal, competição organizada pela UEFA. “O vencedor vai representar o país a nível europeu, com uma visibilidade que o futsal não tem na Islândia”, sublinha Cristiano Matias.Segundo os responsáveis do Ibéria, o futsal continua a ser uma modalidade secundária no país. “Aqui são completamente fanáticos pelo andebol”, afirma o treinador. A ausência de um campeonato regular é apontada como um dos principais entraves ao desenvolvimento da modalidade. “Jogamos três semanas e depois ficamos parados até Agosto. Quando chegamos à Europa, apanhamos equipas que fazem campeonatos de seis ou sete meses”, explica.Essa diferença torna-se evidente nas competições internacionais. Cristiano Matias e Fábio Ribeiro já participaram em fases preliminares da Liga dos Campeões ao serviço de outro clube islandês. “Jogámos na Polónia em 2022 e apanhámos equipas com orçamentos vinte ou trinta vezes superiores ao nosso”, recorda Cristiano. Ainda assim, o objetivo mantém-se realista. “Nunca uma equipa islandesa passou estas fases. O nosso primeiro objetivo é sermos sempre os melhores a nível interno.”Um dos fatores que explica o sucesso do Ibéria é o conhecimento específico do futsal trazido por vários jogadores estrangeiros, em particular portugueses. “Eu, o Fábio e mais alguns jogadores jogámos futsal em Portugal, em Espanha e na América do Sul. Temos um conhecimento do jogo que muitos não têm aqui”, explica Cristiano Matias. Muitos adversários são jogadores profissionais de futebol de onze que competem também no futsal. “Quando passam para o futsal, acabam por não ter as mesmas rotinas. O jogo é diferente”, acrescenta.O plantel do Ibéria é maioritariamente composto por jogadores estrangeiros. “No futsal temos apenas um islandês”, refere Cristiano. Ainda assim, a conquista do título teve algum impacto mediático. “Houve referência nos jornais desportivos e também por parte da federação”, confirma..Apesar disso, Fábio Ribeiro considera que o apoio institucional continua a ser reduzido. “Não sentimos grande ajuda. Há vários anos que se fala num campeonato mais longo e isso nunca acontece”, afirma. A ausência de formação é outro problema identificado. “Não há camadas jovens de futsal. As crianças começam no futebol de onze e não têm continuidade no futsal”, explica Cristiano Matias.A realidade diária do clube reflete o carácter amador do projeto. Jogadores e treinadores acumulam múltiplas funções. “Somos treinadores, jogadores, roupeiros, preparadores físicos, responsáveis pelas redes sociais”, enumera Cristiano. O funcionamento do clube depende também do apoio das famílias. “Quando dizemos ‘nós’, muitas vezes são elas que ajudam por trás”, reconhece.Os treinos realizam-se em horários tardios, geralmente entre as 22h e as 23h, em pavilhões cedidos por uma autarquia local. “Não temos campo próprio. Estamos sempre dependentes dos horários disponíveis”, explica Cristiano Matias. A prioridade é frequentemente dada a outras modalidades, como o andebol e o voleibol.A qualificação para a Liga dos Campeões obriga agora o clube a preparar-se para um novo patamar competitivo. “Estamos a tentar arranjar patrocinadores e mais meios”, explica Fábio Ribeiro. O clube prevê integrar um fisioterapeuta e um preparador físico na preparação para a prova europeia. “A partir do momento em que vamos jogar a Champions, torna-se mais fácil atrair pessoas”, acrescenta Cristiano.Quanto aos objetivos, ambos mantêm um discurso prudente. “Vamos lutar jogo a jogo, sem receio”, afirma Cristiano Matias. Fábio Ribeiro partilha da mesma ambição. “Queremos fazer um bom campeonato para sermos vistos de outra maneira e continuar a lutar para ser campeões.”Num país onde o futsal permanece numa posição periférica, o percurso do Futebol Clube Ibéria e o papel determinante de Cristiano Matias e Fábio Ribeiro demonstram como um projeto recente, sustentado no conhecimento da modalidade e na organização interna, conseguiu alcançar um título nacional e garantir a representação da Islândia nas competições europeias.