No Minho, o futebol respira-se com uma intensidade particular. Entre Braga e Guimarães, cidades separadas por pouco mais de vinte quilómetros, a rivalidade é tão antiga como emocional. Durante décadas, o dérbi do Minho foi vivido como um território simbólico de afirmação regional: Guimarães, berço da nação e da história, frente a Braga, capital de influência, clero e poder. No futebol, essa rivalidade encontrou palco, mediu forças e consolidou uma identidade própria, independente do “trio tradicional” do futebol português. Agora, com a inédita final da Taça da Liga a rivalidade regional atinge, pela primeira vez, dimensão nacional com um troféu em jogo.A chegada do Vitória Sport Clube à final não se fez pela via mais previsível. Nas meias-finais, frente ao Sporting, os vimaranenses estiveram grande parte do tempo em desvantagem, depois de Luis Suárez inaugurar o marcador aos 13 minutos. Mas a equipa de Guimarães, historicamente associada à combatividade e ao jogo físico, voltou a demonstrar capacidade emocional nos momentos limites. Alioune Ndoye, avançado de 22 anos, marcou dois golos já nos descontos, garantindo o 2-1 final e reescrevendo o rumo da equipa na competição. Era o regresso do Vitória a uma decisão nacional e a confirmação de um traço competitivo que acompanha o clube desde a década de 1980: nunca se entregar.No plano estrutural, o Vitória chega à decisão com um modelo de jogo equilibrado. Equipa organizada, com blocos médios bem definidos e transições frontais, aposta na recuperação rápida e na agressividade nos duelos. A projeção dos laterais é calculada, e a zona central costuma assumir responsabilidades de contacto e progressão curta, enquanto o ataque alterna entre movimentos de rutura e presença física. Nesta Taça da Liga, os números reforçam a ideia de eficácia: média de 3 golos por jogo e apenas 1 golo sofrido, sinal de que o conjunto não só cria como concretiza. Na Liga Portugal Betclic, o Vitória tem registado regularidade, com média próxima de 1,7 pontos por jogo em casa, e a capacidade de disputar pontos com equipas do primeiro terço da tabela — algo que tem sido crucial para a confiança do plantel.O Braga vem de um percurso distinto e mais controlado. A vitória por 3-1 sobre o Benfica nas meias-finais foi um retrato fiel da identidade competitiva que o clube construiu na última década: posse de bola criteriosa, mobilidade ofensiva, ocupação dos espaços interiores e ritmo variável no ataque. Pau Víctor marcou aos 19 minutos, Rodrigo Zalazar ampliou aos 33, e a equipa jamais perdeu hegemonia sobre o jogo. Esse controlo é fruto de um modelo tático que permite ao SC Braga alternar entre ataque posicional — com Zalazar e Horta como condutores de criatividade — e transições rápidas, onde Navarro ou Víctor funcionam como válvula de finalização e ataque à profundidade.Estatisticamente, o Braga confirma o estatuto de potência em consolidação no futebol português. Com presença regular em finais e meias-finais de taças nacionais e campanhas europeias consistentes, o clube tem vindo a aproximar-se do patamar superior do futebol nacional. Na época 2025/26, Zalazar e Ricardo Horta destacam-se na produção ofensiva, somando golos e assistências em todas as competições, enquanto Pau Víctor tem funcionado como referência útil no último terço, pela capacidade de receber, fixar e finalizar. A ideia arsenalista é clara: posse com intencionalidade e “soldados” criativos em zonas interiores.Historicamente, a rivalidade entre Vitória SC e SC Braga nunca encontrou um desfecho com troféu pelo meio. O dérbi do Minho viveu sobretudo de simbologia, território e afirmação regional. O Braga, mais recente no sucesso competitivo, conquistou títulos nacionais e consolidou presença europeia nos anos 2010 e 2020; o Vitória, mais antigo e tradicional, firmou-se como clube de forte base social e estádio sempre cheio, representando um dos ambientes mais fortes do país. Nos confrontos diretos, o equilíbrio foi regra, mas a dimensão institucional seguiu caminhos diferentes: o Braga tornou-se SAD de projeção europeia, o Vitória manteve identidade competitiva e apoio local de grande dimensão — os dois rostos da região estarão finalmente unidos num palco nacional.Em campo, se o Vitória sofre menos quando o jogo se parte, o Braga ganha quando o jogo se organiza. A final minhota — inédita e historicamente carregada — oferecerá, mais do que a atribuição de um troféu. Oferece a validação da identidade competitiva do Minho, a expressão de duas trajetórias distintas e a oportunidade para que um clube escreva uma página nova no seu palmarés. Para Guimarães, seria histórico. Para Braga, seria continuidade. .Sp. Braga vence Benfica e vai defrontar V. Guimarães em duelo minhoto na final da Taça da Liga.Vitória de Guimarães vence Sporting com golo em tempo de compensação e estreia-se na final da Taça da Liga