Exclusão à vista. COI promete mão dura contra a Rússia

Relatório conclui que Estado russo patrocinava programa de dopagem a larga escala. Comité Olímpico reúne-se esta terça-feira de emergência.

Podia ser o enredo de um filme de espionagem ao estilo da Guerra Fria, mas é apenas um episódio insólito de uso reiterado de doping na Rússia, com conhecimento do Estado e a ajuda dos serviços secretos, segundo um relatório independente da Agência Mundial Antidoping (AMA).

O programa "à prova de falhas" - assim o descreveu o autor do documento, o professor canadiano Richard McLaren -, era nada mais nada menos do que um sistema de dopagem de atletas durante vários anos (entre 2011 e 2015), em várias competições (incluindo os Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi, em 2014), de várias modalidades (e não apenas do atletismo, o mais visado até agora).

Práticas fora da lei que não ficarão impunes, garante o presidente do Comité Olímpico Internacional (COI). Poucas horas depois de ser conhecido o conteúdo do relatório, Thomas Bach advertiu que o organismo "não hesitará em adotar as sanções mais duras possíveis" contra a Rússia, depois do "ataque chocante e sem precedentes à integridade do desporto e dos Jogos Olímpicos".

Por isso, o COI poderá decidir já hoje, numa reunião de emergência e por telefone, "medidas provisórias e sanções". Uma delas pode passar pela exclusão total da Rússia do Rio 2016 (já pedida pelos EUA e por mais nove países).

As revelações do relatório McLaren não surpreenderam o presidente do Comité Olímpico de Portugal (COP). "A questão da dopagem na Rússia não resultava apenas de um problema estritamente desportivo, mas era, digamos, um problema de Estado. Era um problema que envolvia uma atitude política deliberada, organizada, devidamente preparada para que se iludisse o controlo sobre os atletas que utilizavam procedimentos dopantes", considerou José Manuel Constantino.

Para o máximo responsável pelo desporto olímpico português, um dilema desta gravidade, a poucos dias do início dos Jogos, torna a resolução da situação "extremamente difícil e complexa".

Até porque no meio desta guerra há inocentes, ou seja, atletas limpos de doping. E Constantino espera que "não haja outros [países]", além da Rússia, com "sistemas de organização similares", a "iludir os procedimentos".

Indícios graves desde 2013

A investigação já tinha detetado irregularidades durante os Campeonatos do Mundo de atletismo de Moscovo em 2013 e na preparação da equipa russa para os Jogos Olímpicos de Londres em 2012. No entanto, só ganhou força quando Grigory Rodchenkov, ex-diretor do laboratório antidopagem russo, denunciou a manipulação de amostras durante os Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi 2014, em que pelo menos 15 atletas foram "ajudados" a conquistar medalhas.

Como? Segundo o mesmo relatório, o "laboratório de Sochi operou um método de troca de amostras para permitir que os atletas russos dopados competissem nos Jogos Olímpicos de Inverno".

E tudo com a bênção de Vitaly Mutko, ministro do Desporto, que, segundo o documento, "criou, controlou e supervisionou" o esquema, com a "participação ativa" dos serviços secretos do país.

Assim, segundo o relatório McLaren, 312 casos positivos de doping, de 31 modalidades, foram adulterados e escondidos pelas autoridades russas entre 2011 e 2015. O atletismo é a modalidade com mais casos (139), mas são vários os desportos que fazem parte da lista, desde halterofilismo (117) a canoagem (27), ciclismo (26), futebol (11) e até curling (2) ou ténis de mesa (1).

A Rússia já anunciou, por Vladimir Putin, que vai punir os responsáveis citados no relatório. Mas hoje pode ver o Comité Olímpico Internacional excluir o país dos Jogos do Rio. Seja qual for a decisão, a Rússia poderá ainda apelar à Comissão de Ética do COI. O chefe do Comité Olímpico russo, Alexander Zhukov, já manifestou essa intenção, depois de saber do relatório e da carta do diretor da agência antidopagem americana (USADA), Travis Tygart, a pedir a exclusão da Rússia dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos.

Algo que a Federação Internacional de Ginástica (FIG), por exemplo, espera que não aconteça: "Apesar de a FIG apoiar a política do COI de tolerância zero em casos de doping, nem todos os atletas russos de todos os desportos devem ser excluídos e considerados culpados por atos cometidos noutros desportos."

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