Ex-guarda-redes do Benfica ensina os mais jovens no Canadá

Antigo guardião é coordenador da formação de guarda-redes na Federação Canadiana há cinco anos. Grave lesão nos primeiros dias de águia ao peito prejudicou-o na Luz

Nuno Santos nasceu, cresceu e despontou para o futebol na soalheira Setúbal, mas depois de ter pendurado as botas tem sido no gélido Canadá que tem exercido a sua atividade. Com o conterrâneo e amigo Silvino Louro como referência, o antigo guarda-redes de V. Setúbal, Leeds e Benfica, entre outros, é coordenador da formação de guarda-redes na Federação do Canadá há cinco anos.

"É muito agradável. Tive de fazer uma adaptação a um futebol diferente. Sinto-me integrado, mas neste momento procuro voltar para a Europa", começou por contar ao DN. "Acabo por passar mais tempo no Canadá do que em Portugal, mas temos muitos estágios na Europa e na América Central. Quando não tenho estágios, vou para Setúbal, para estar junto da minha família", narrou o antigo guardião, convidado a desempenhar as atuais funções por António Fonseca, antigo defesa de Benfica, V. Guimarães e Estrela da Amadora, que terminou a carreira de jogador e iniciou a de treinador naquele país da América do Norte.

O seu trabalho, diz, é "muito mais absorvente" do que o de futebolista. "Quando somos jogadores não temos ideia do que é ser treinador. Queremos ter apenas uma vida regrada, para estarmos aptos para treinar e jogar. A vida de treinador é diferente, é um trabalho mais acrescido. Não é só o trabalho de campo, é o trabalho diário de análise e de preparação de treinos. É uma rotina que não nos dá descanso", disse, com o sentimento de missão cumprida. "Convidaram--me para fazer a evolução do trabalho dos guarda-redes e sinto que o objetivo foi alcançado e que as bases foram lançadas. Está na altura de abraçar um novo projeto, de um clube, em Portugal ou no resto da Europa", voltou a frisar o antigo guardião, que vive em Toronto e está a finalizar um curso da UEFA.

A influência de José Mourinho

Nuno Santos tinha 15 anos quando teve o primeiro treinador de guarda-redes, que dava pelo nome de... José Mourinho. "Quando me iniciei, essa era uma função envolta em desconhecimento e era quase sempre um antigo jogador do clube que ajudava. O meu primeiro treinador de guarda-redes, que trabalhou bastante comigo dos 15 aos 18 anos no V. Setúbal, foi José Mourinho. Ele era o treinador dos juvenis mas trabalhava muito os guarda-redes. Deu-me as bases para me iniciar no futebol profissional. Uma das pessoas com quem tenho aprendido muito é o Silvino, da equipa técnica do Mourinho. Sigo as suas pisadas", revelou, contando com nova influência do Special One para abraçar a nova carreira.

"Numa fase em que ele já era treinador principal e até já tinha sido campeão europeu pelo FC Porto, Mourinho perguntou-me o que é que eu me via a fazer após deixar de jogar, e eu disse-lhe que não sabia mas que queria ficar ligado ao futebol. Então, ele disse-me para pensar em ser treinador de guarda-redes e começar a documentar-me. Hoje, sinto-me muito satisfeito e realizado", salientou.

Três sonhos concretizados

Para trás fica uma carreira de mais de duas décadas, na qual conseguiu concretizar três sonhos. "Gosto de recordar a minha estreia pelo V. Setúbal. Foi o realizar de um sonho", começou por contar o antigo guarda-redes formado no emblema sadino, pelo qual se estreou na equipa principal no dia do seu 24.º aniversário, ao substituir Cândido ao minuto 7 numa derrota caseira com o Estrela da Amadora (1-2).

"Depois, consegui jogar em Inglaterra, e logo no Leeds United, que era um dos clubes mais importantes da Premier League na altura", continuou, a propósito da transferência para Ellan Road no verão de 1998. "O treinador George Graham deslocou-se ao Bonfim para ver um jogo entre o V. Setúbal e o Boavista [2-2, em maio de 1997], com o intuito de levar o Jimmy Floyd Hasselbaink e o Nuno Gomes para o Leeds. O Nuno Gomes já estava acertado para o Benfica, mas acabou por levar o Jimmy e o Bruno Ribeiro, de quem gostou bastante. Eu fiquei referenciado e fui para lá um ano depois, depois de o Bruno Ribeiro ter indicado o meu nome numa fase em que o Leeds precisava de um guarda-redes", recordou, com saudades de ver o clube na Premier League.

No ano seguinte, mais um sonho cumprido, "jogar pelo Benfica", embora os quatro anos que passou de águia ao peito tenham ficado marcados por uma grave lesão poucos dias depois de ter chegado à Luz. "Sofri uma rutura na junção do braço com o tronco. Foi a grande mágoa da minha carreira, porque os objetivos a que me propus foram alcançados", confidenciou. Entre empréstimos ao Badajoz, Santa Clara e Beira-Mar, Nuno Santos conseguiu jogar por duas vezes pelo clube encarnado, ambas para a Taça de Portugal e no antigo estádio. O primeiro, em 1999 e com Jupp Heynckes ao leme, culminou num triunfo pela margem mínima sobre o Torres Novas. O segundo, três anos depois, resultou numa das mais inesperadas derrotas na centenária história do Benfica, diante do Gondomar.

O Gondomar foi precisamente um dos clubes que veio a representar até ao final da carreira, depois de regressos ao V. Setúbal e ao Santa Clara e a uma incursão pelo futebol da América do Norte, nos norte-americanos do Rochester Rhinos e nos canadianos do Toronto FC. Depois, defendeu a baliza do Arouca e pendurou as luvas no Chipre, em 2012, ao serviço do Ethnikos Assias.

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