Como Fernando Santos construiu uma equipa

A partir de uma ideia elementar - dar as melhores condições ao melhor jogador (CR, claro) -, puzzle foi sendo montado. Ausência de pontas-de-lança e abundância de médios ajudaram a encaixar as peças

Há muito tempo que Fernando Santos sabe como quer que Portugal jogue neste Europeu. Ou qual o modo teoricamente mais eficaz de organizar os jogadores em campo. Sigamos os passos:

1 - Percebeu cedo que não é possível ter a equipa equilibrada com Cristiano Ronaldo colocado na ala esquerda. O jogador que melhor ataca é também o que menos defende - e não há mal nisso, Messi também é assim. Pelo que, quando o adversário tem a bola, não se pode contar com CR7 para ocupar com eficácia um corredor lateral. Paulo Bento fez a enésima tentativa de o conseguir no Mundial do Brasil, pedindo a Raul Meireles ou Moutinho que fechassem o lado esquerdo, mas não foi bem-sucedido. No Real Madrid, alguém tem de se colocar na proteção ao lateral Marcelo, seja James ou Isco (quando jogam) ou até Kroos (também por isso a equipa melhorou com Casemiro, que permite a Kroos estar mais perto de acudir ao flanco). Ronaldo já não é um extremo a atacar - cada vez mais um avançado-centro, com liberdade para surgir onde possa cheirar o golo - mas sobretudo nunca foi um ala a defender. Por aqui, o sistema de jogo estava encontrado e partia de uma estrutura 4-4-2, em que Ronaldo estava dispensado de tarefas defensivas;

2 - A seguir, o selecionador procurou mas nunca encontrou o ponta-de-lança que pudesse ser o complemento para Ronaldo. Postiga já não era o mesmo, André Silva ainda não é o que irá ser, Lima não estava naturalizado, Nelson Oliveira lesionou-se após uma época interessante, a Hugo Vieira faltava dimensão e Éder, a despeito do bom momento que atravessa, não é nem um titular óbvio nem o parceiro tático ideal para Ronaldo. Consequência: o 4-4-2 ia viver de mobilidade dos dois homens da frente e, falhada também a experiência Danny - mais forte de trás para a frente, testado antes de se lesionar -, restava Nani, pela qualidade e pelo sentido tático que desenvolveu com os anos e lhe permite jogar mais atrás ou mais à frente, nos corredores laterais como na zona central. Só o momento exuberante de Quaresma alterou o curso deste raciocínio linear, embora a pequena lesão que o afeta deva fazer que Portugal comece o Euro com o onze previsto até há um par de semanas;

3 - Na defesa, um problema: a maturidade dos centrais tem no reverso da medalha um défice de velocidade. Pepe é a exceção, apesar dos 32 anos, que as demais opções são jogadores que nunca foram rápidos, como Bruno Alves e Fonte, e Ricardo Carvalho, que, apesar da classe natural e nos seus incrivelmente competitivos 38 anos, não se desloca com a rapidez de outrora. A consequência é a dificuldade em controlar a profundidade defensiva, ou seja, quanto mais metros a seleção quiser ter entre a linha defensiva e a sua própria baliza, mais dificuldade terá em não sofrer com os lançamentos longos do adversário. Além de que, para se protegerem da falta de velocidade, os próprios jogadores acabam por fazer que a equipa jogue menos subida, comprometendo a intenção - que parece evidente para os primeiros jogos - de pressionar mais alto os adversários (e o que define se o bloco está a pressionar mais ou menos alto é precisamente a colocação da linha defensiva);

4 - A ideia de jogo inicial poderia ser a de um bloco menos subido, para conceder menos espaço nas costas e proteger os centrais, aproveitando o espaço à frente com a velocidade de Ronaldo, Nani, mas também Quaresma ou Rafa. No fundo, Portugal voltaria a apostar mais no contra-ataque como fez noutros campeonatos, reconhecendo não ter alguns jogadores essenciais para proceder de outra forma. Dois fatores vieram alterar este cenário: o sorteio da fase de grupos, que colocou Portugal perante equipas teoricamente mais frágeis e que dificilmente assumirão iniciativa de jogo, e a emergência de vários médios de qualidade, como João Mário, André Gomes, Adrien e Renato Sanches, que, com Moutinho, reclamam que a seleção queira ter a bola mais tempo, assumindo maior controlo de jogo e esperando em posse o momento certo, seja para acionar os avançados ou mesmo os laterais levezinhos e de perfil ofensivo (Raphael Guerreiro e Cédric) que exploram os corredores;

5 - É esta existência de médios de qualidade mas também rotativos que permite a Fernando Santos pensar numa pressão mais alta nos primeiros jogos - a começar hoje e tal como ensaiado com a Estónia - e foi por isso o recado a Danilo após o último teste, que um bloco só é eficaz se avançar e recuar de modo compacto. A ação de Moutinho, de garantir a pressão no corredor central perto da área contrária, tem de ser acompanhada de uma subida do médio defensivo e dos centrais de modo a atingir os objetivos estratégicos: impedir que a Islândia tenha espaço para sair a jogar e permitir que Portugal recupere a bola mais perto da baliza contrária. Ofensivamente, há sempre dois médios - João Mário e André Gomes - que surgem da ala para dentro, para jogar em espaços curtos na aproximação aos atacantes, mas que também sabem variar e atacar "por fora", mais junto à linha, de modo a tornar o jogo menos previsível;

Uma nota final de aviso: a Islândia não é o adversário mais forte para já - será a Áustria -, mas também não é a Estónia. Mais: foi segunda no grupo de qualificação que provocou a principal ausência deste Europeu, a da Holanda, a quem os islandeses ganharam duas vezes.

UM DUELO A SEGUIR

Ronaldo vs. Sigurdsson

Entre os 300 mil habitantes da Islândia, dois futebolistas se destacaram nas últimas décadas e estão ambos em França: Eidur Gudjohnsen, antigo jogador do Barcelona e que aos 37 anos recebe um prémio de carreira, e Gylfi Sigurdsson, o craque atual, a jogar no Swansea da Premier League, onde sempre brilhou mais do que na passagem pelo Tottenham. Se Portugal tem um jogador estratosférico, Ronaldo, a Islândia tem em Sigurdsson alguém claramente melhor do que os demais, autor de seis golos no apuramento, incluindo os três que ditaram vitórias frente à Holanda. Cristiano Ronaldo é o que sabemos, talvez o avançado mais completo da história do futebol, e com certeza um dos melhores. Corre como poucos, chuta como ninguém, mas também assiste, dribla e cabeceia. E ainda tem tomahawks guardados para quando a bola não mexe. Gylfi Sigurdsson não sobe tão alto mas é cérebro e técnica, médio que organiza, que progride, passa e finaliza. Dele depende a melhor Islândia e dos seus pés sairá o perigo maior para a baliza de Rui Patrício.

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