A mudança para julho obrigou o Millennium Estoril Open a enfrentar um dos maiores desafios da sua história, mas João Zilhão termina a edição de 2026 com um balanço “extremamente positivo”. O diretor do torneio destaca as bancadas cheias, a resposta dos patrocinadores e do público, o peso crescente da componente corporate e, sobretudo, a capacidade de tornar financeiramente sustentável uma edição que teve o orçamento mais elevado de sempre da prova. “O orçamento este ano superou os seis milhões de euros. Foi o orçamento mais caro de sempre para montar o torneio”, revela João Zilhão ao DN, explicando que a passagem da tradicional janela de primavera para julho teve um impacto significativo nos custos.A data, sublinha, não resultou propriamente de uma escolha da organização. “Quando toda a gente me perguntava se tinha sido eu a escolher esta nova data, eu respondia: esta data é espetacular, é a melhor possível porque é a única possível.” O ATP disponibilizou esta janela para 2026 e 2027, num calendário cada vez mais congestionado, e o Estoril decidiu adaptar-se. A fatura dessa mudança, porém, foi pesada. Julho coincide com a época alta turística e com um período de enorme procura para as empresas que trabalham na montagem e funcionamento de grandes eventos. “A hotelaria duplica. É época alta versus época baixa em março”, exemplifica Zilhão. Catering, tendas, bancadas, equipamentos, fornecedores e recursos humanos estão também sujeitos a uma procura muito superior. “Todos os nossos fornecedores estão envolvidos noutros grandes eventos. É um mês muito complicado para as equipas e para os fornecedores”, explica, acrescentando que o Estoril Open teve de disputar recursos com festivais, casamentos e outros grandes acontecimentos realizados nesta altura do ano. A organização acredita, ainda assim, que as contas terminarão no verde. Os números finais ainda não estão fechados, mas João Zilhão não esconde a confiança: “Uma operação a correr tão bem como correu, com venda de patrocínios com sucesso, venda de direitos exclusivos com sucesso, corporate e camarotes com sucesso, bilhética com sucesso, merchandising e food court com sucesso, obrigatoriamente tem de ultrapassar o break-even. Se não, alguma coisa está errada na nossa gestão.”A zona corporate e VIP voltou a registar forte procura. Zilhão define mesmo o torneio como “o evento de referência em Portugal social, de networking e de relações públicas”. A componente desportiva continua a ser o centro do evento, mas em redor dos courts desenvolveu-se uma estrutura de restauração, música, ativações comerciais e espaços empresariais que ajuda a explicar a dimensão económica atingida pela prova. “Temos muitas marcas que já estão connosco com contratos firmados para 2027, mas há outras que ainda vão ter de tomar a decisão de continuar ou não. Estou esperançoso, pelo feedback que recebi”, afirma Zilhão. A edição de 2027 está garantida como ATP 250 e decorrerá entre 17 e 25 de julho. Depois de em 2025 a prova ter sido realizada num formato de categoria inferior, o regresso ao principal circuito teve um significado especial. “Voltar a ser ATP 250 teve um sabor especial”, confirma.Mais incerto está 2028. A ATP encontra-se a redesenhar o calendário, num ano que incluirá os Jogos Olímpicos e que antecede a introdução do novo Masters 1000 da Arábia Saudita. “Aqui é work in progress. O ATP está a desenhar por completo o calendário de 2028”, explica. O crescimento do torneio pode, porém, trazer uma transformação ainda mais profunda. A organização tem acordo para continuar no Clube de Ténis do Estoril em 2027, mas Zilhão confirma ao DN que já houve conversas com a Câmara Municipal de Cascais sobre a possibilidade de construir um espaço de raiz que se torne a casa permanente da prova. “Em conversas com o presidente da Câmara, já se aflorou a possibilidade de o torneio crescer e ganhar a sua própria casa noutra localização. São conversas que estão a andar”, revela. Questionado se seria um espaço construído especificamente para a prova, responde: “Criar um espaço de raiz para o torneio, sim. Em Cascais, claro.”A justificação volta a ter uma forte componente económica. A infraestrutura atualmente necessária para transformar o Clube de Ténis do Estoril num recinto ATP implica uma operação gigantesca e temporária. “São quase dois meses de montagem e um mês de desmontagem para uma semana de evento. É uma operação muito dispendiosa e muito complicada tecnicamente”, explica. Um recinto permanente exigiria um investimento inicial considerável, mas Zilhão prefere colocar a questão numa perspetiva de longo prazo, salientando o retorno económico e promocional que a prova gera para a região. “O projeto traz uma valorização económica brutal, tanto diretamente para a economia local como em exposição mundial para a cidade e para Portugal.”Dentro do court, o diretor rejeita que a final entre dois jovens jogadores tenha sido uma desilusão pela ausência das principais figuras inicialmente inscritas. “O ténis não é assim. Quem acompanha sabe que há surpresas constantes.” E olha para os dois finalistas como potenciais estrelas do futuro: “Chegaram à final dois miúdos que já foram número um do mundo de juniores, com 21 e 22 anos, que seguramente estarão a dar cartas no top 20 e no top 10 nos próximos anos.”Também a participação portuguesa deixou sinais positivos, embora João Zilhão recorde a crueldade própria da modalidade. Sobre Jaime Faria, que deixou escapar uma vantagem importante, admite: “Tinha o jogo completamente ganho, 6-3, 5-2 e ia servir. Deixou fugir.” Mas resume a imprevisibilidade do ténis numa frase: “Há uma linha muito fina entre uma grande vitória e uma grande desilusão.”Para 2027, além da sustentabilidade financeira e da manutenção dos patrocinadores, há um desejo claro: voltar a apresentar um quadro forte e contar com uma presença portuguesa capaz de mobilizar as bancadas. “Os portugueses dão uma alegria grande. O estádio vibra de outra maneira quando os portugueses jogam.”Zilhão faz questão, contudo, de defender a organização das críticas relacionadas com desistências de jogadores anunciados. “Para eu poder usar a imagem de um jogador numa campanha é porque tenho um contrato firmado com a agência do jogador e está tudo acordado”, garante, lembrando que lesões e problemas físicos fazem parte do circuito e podem afastar tenistas à última hora..Estoril Open: Luca Van Assche conquista primeiro título ATP.Estoril Open regressa ao circuito ATP com dois portugueses no quadro principal.E depois de 2027, irá o Estoril Open mudar de casa?