Os sócios do Sporting vão este sábado, 11 de março, às urnas para eleger os órgãos sociais que vão liderar o clube nos próximos quatro anos. Os cerca de 76 mil associados com direito a voto têm de escolher entre Frederico Varandas, que se candidata ao terceiro mandato, e Bruno Sá, empresário de 45 anos, desconhecido para a maioria dos sportinguistas.O ato eleitoral será na prática um medidor de popularidade para Varandas. Afinal, Bruno Sá tem como adversário o presidente com mais títulos dos 120 anos de história do Sporting, podendo tornar-se, em caso de eleição, no segundo com mais tempo na liderança do clube, apenas suplantado por João Rocha, que esteve 13 anos e 25 dias a comandar os destinos dos leões, entre 1973 e 1986. Para já, Frederico Varandas é o quarto com mais tempo na presidência, totalizando sete anos, seis meses e cinco dias, mas se ganhar as eleições deste sábado irá ultrapassar Guilherme Brás Medeiros (1965-1973) e Joaquim Oliveira Duarte (1932-1942).O caminho de Varandas tem sido, no entanto, complicado - afinal sentou-se na cadeira do poder numa altura em que o Sporting estava em profunda crise, consequência do furacão Bruno de Carvalho e da invasão à Academia de Alcochete, que levou à rescisão de contrato de alguns futebolistas. Ainda assim, no discurso de tomada de posse prometeu devolver o sucesso desportivo ao clube e, ao tirar do bolso a medalha de finalista vencido da Taça de Portugal (frente ao Desp. Aves), deixou a garantia que aquela medalha de prata iria, “mais cedo ou mais tarde, para o museu com a taça de campeão nacional”. Uma promessa arrojada, mas que foi cumprida.No primeiro mandato, Frederico Varandas teve de lidar com inúmeros protestos por parte dos seus opositores, em consequência dos resultados desportivos que demoravam a chegar, mas também devido ao litígio que mantinha com as principais claques do clube, depois de ter acabado com alguns privilégios.As coisas começaram a acalmar depois da contratação do treinador Ruben Amorim, que levou a equipa ao primeiro título de campeão nacional após 18 anos, dando o pontapé de saída para uma das melhores fases da história do Sporting, a nível desportivo e financeiro.Amorim: à terceira foi de vez Quando Varandas assumiu a presidência do Sporting a 9 de setembro de 2018, José Peseiro era o treinador da equipa. Contudo, apenas se manteve no cargo durante dez jogos devido aos maus resultados, tendo Tiago Fernandes assegurado a transição para a primeira grande aposta do novo presidente: o neerlandês Marcel Keizer, que vinha dos Emirados Árabes Unidos para revolucionar o futebol leonino. Se nessa época levou a equipa à conquista da Taça da Liga e da Taça de Portugal, uma goleada 0-5 com o Benfica na Supertaça traçou-lhe o destino e ao quinto jogo da época 2019/20 foi demitido.Leonel Pontes assegurou, na altura, a transição para Jorge Silas, visto como um treinador da nova geração, que também não foi feliz, tendo sido demitido após 28 jogos. É então que Varandas e o seu diretor desportivo Hugo Viana conseguem inverter o ciclo negativo com a contratação que ninguém esperava, a do jovem treinador Ruben Amorim, que tinha apenas 13 jogos no futebol profissional ao serviço do Sp. Braga e era um confesso benfiquista. “E se correr bem?”, disse o técnico no dia da apresentação. E a verdade é que, após ter finalizado essa época em quarto lugar na I Liga, o Sporting arrancou para um ciclo de vitórias, com dois títulos de campeão, duas Taças da Liga e uma Supertaça.A ligação terminou a 10 de novembro de 2024, com o adeus de Ruben Amorim rumo ao Manchester United. A tarefa de manter o Sporting na rota do sucesso era complicada e a solução encontrada foi João Pereira, promovido da equipa B. Uma decisão que se revelou um desastre, pois apenas conseguiu três vitórias em oito jogos. Seguiu-se outra aposta de risco quando Varandas foi a Guimarães contratar Rui Borges, treinador transmontano que se mostrou à altura e conduziu os leões à conquista da dobradinha, estando esta época na luta para repetir o mesmo feito.Tricampeão em oito anosO que define o sucesso ou insucesso da gestão num grande clube são os resultados da equipa principal de futebol e, nesse campo, Varandas apresenta um currículo invejável em quase oito anos de mandato: três títulos de campeão nacional, duas Taças de Portugal, três Taças da Liga e uma Supertaça, além de duas presenças nos oitavos de final da Liga dos Campeões, com a possibilidade de este ano, se ultrapassar o Bodo/Glimt, alcançar os quartos, feito só conseguido em 1982/83.Na final da Taça de Portugal da época passada, conquistada diante do Benfica, Varandas tornou-se no presidente mais titulado da história do Sporting, ultrapassando António Ribeiro Ferreira, que tinha liderado o clube entre 1946 e 1953, contabilizando oito troféus conquistados.Gyökeres, o senhor milhões Nos quase oito anos de mandato, o investimento nos reforços da equipa foi crescendo à medida que as vendas de atletas também subiram. Se em 2020/21, os leões gastaram o valor mais baixo - 19,4 milhões de euros, segundo o relatório e contas do Sporting -, a atual temporada é aquela onde o investimento foi mais forte, atingindo os 74,6 milhões de euros, de acordo com a mesma fonte. Nos dois mandatos de Varandas, o Sporting investiu um total de 298,5 milhões de euros, com um saldo positivo de 291,9 milhões de euros em comparação com as vendas, que totalizaram 590,4 milhões de euros, parcela que para o próximo verão vai engordar 50,78 milhões de euros correspondentes à venda de Geovany Quenda ao Chelsea.Em três das oito épocas do Sporting de Varandas foi ultrapassada a fasquia dos 100 milhões de encaixe com a venda de jogadores (2019/20, 2023/24 e 2024,25), sendo a transferência de Viktor Gyökeres para o Arsenal a mais avultada de sempre: 65,8 milhões de euros. O avançado sueco também foi a contratação mais alta dos leões, atingindo os 24 milhões de euros que foram pagos ao Coventry em 2023.Perdão e finanças no verde No campo financeiro, uma grande vitória foi a renegociação da dívida da SAD no final de 2023, que contemplou a recompra das VMOC (Valores Mobiliários Obrigatoriamente Convertíveis) e consequentemente um perdão de dívida por parte da banca de mais de 100 milhões.A SAD leonina está agora numa série de quatro exercícios consecutivos com resultados anuais líquidos positivos, sendo que 2023/24 foi a melhor temporada com 25,2 milhões de euros de lucro, enquanto as últimas contas apresentavam um saldo positivo de 20 milhões. A situação herdada por Varandas não foi famosa, pois no primeiro exercício apresentou um prejuízo de 11,4 milhões e no terceiro foi de 33 milhões de euros negativos devido à pandemia de covid-19.Por sua vez, os rendimentos operacionais excluindo transações de atletas atingiram no exercício 2024/25 o recorde de 148,1 milhões de euros, sendo que nos três primeiros relatórios do mandato não chegavam aos 80 milhões. Quanto aos capitais próprios, passaram de um estado de falência técnica (23,6 milhões negativos) no primeiro ano, para um saldo positivo desde 2022/23, tendo no último exercício atingido os 40,9 milhões.51 troféus nos pavilhõesNo âmbito das modalidades masculinas de pavilhão, o Sporting tem celebrado vários títulos nacionais e internacionais, destacando-se cinco de campeão europeu: três no hóquei em patins e dois no futsal. Quanto a campeonatos nacionais foram conquistados nove, com destaque para o futsal com quatro, andebol com dois e um título para hóquei em patins, basquetebol e voleibol.De resto, se somarmos todos os troféus conquistados por estas cinco modalidades na era Varandas, contabilizamos 51, com a maior contribuição a ser do futsal com 19, hóquei e andebol com nove, basquetebol com oito e voleibol com seis.Pior é o balanço das modalidades no feminino, pois só o voleibol conseguiu troféus (duas Taças de Portugal e duas Taças da Federação). O basquetebol regressou esta época ao escalão principal, o futsal está na segunda divisão, a equipa de hóquei fechou portas em 2024 e o andebol não existe. As mulheres têm, no entanto, maior protagonismo no futebol, onde ainda assim não foram conquistados títulos de campeãs nacionais, e no atletismo, pois são campeãs de Portugal de pista desde 2011. Nesta modalidade de tanta tradição em Alvalade, os homens romperam em 2025 com o domínio do Benfica ao conquistarem o título, após 15 anos.Parece inegável que há um Sporting antes e outro depois de Frederico Varandas. E é neste contexto que vai medir a sua popularidade junto dos sócios frente a Bruno Sá, que se apresenta com reduzida margem para surpreender.Bruno Sá quer um clube de sócios e não de clientes.Bruno Sorreluz, mais conhecido por Bruno Sá, é o adversário do incumbente Frederico Varandas para as eleições do Sporting. Aos 45 anos tem uma vida ligada ao clube de Alvalade, onde praticou ginástica e basquetebol, tendo ainda sido membro da claque Juventude Leonina, tempos em que fez amizade com Ricardo Sá Pinto e “herdou” o nome Sá, que usa até hoje.Licenciou-se em Comunicação e Jornalismo na Universidade Lusófona e tem também o curso UEFA B de treinador desportivo, mas a sua atividade profissional acabou por ir noutra direção quando, em 2018, comprou o antigo restaurante Lumiar, bem perto do pavilhão João Rocha, e deu-lhe o nome de Cantinho do Sá. Tornou-o também numa espécie de museu tendo em conta os inúmeros artigos relacionados com o Sporting que se encontram expostos.Aposta agora em destronar Varandas do cargo de presidente porque defende que “há muitos sinais” de que o Sporting está “em fim de ciclo”, defendendo que devia ter havido um maior investimento para conquistar o tricampeonato, algo que diz não ter existido, acusando a direção de não ter dado ao treinador Rui Borges mais soluções, sobretudo no meio-campo.Por outro lado, diz ter uma “ideia diferente de clube”, pois em sua opinião a atual direção está a caminhar para um clube de “clientes” e não de sócios. E é na defesa daqueles que não se reveem na atual política de clube que decidiu avançar nesta corrida eleitoral, porque pretende que os sócios sejam mais bem tratados e, nesse sentido, tem como uma das suas medidas criar um “gabinete de ADN” leonino. Apesar de agradecer recorrentemente a Frederico Varandas ter tornado o Sporting “um clube vitorioso”, mostra-se preocupado com o aumento da dívida do clube à SAD, que o faz desconfiar de que está para breve a venda do capital social da sociedade, lançando mesmo a questão sobre se estará o Chelsea envolvido, tendo em conta a venda de Geovany Quenda e Dario Essugo ao clube de Londres.“Imagine um clube que volta a colocar os sócios no centro. Imagine um Sporting que volta a tratar os sócios como sócios e não como clientes”, diz Bruno Sá no seu manifesto eleitoral que tem como lema “É possível!”.