Dragão quebra enguiço e apuramento fica mais perto

Os três avançados de Sérgio Conceição fizeram o gosto ao pé perante um Rio Ave que arriscou muito e pagou o preço, num jogo em que as duas equipas acabaram com dez

Oito jogos depois, o FC Porto voltou a vencer uma partida na Taça da Liga (3-0) e colocou-se em boa posição para vencer o grupo D e chegar à final four da competição. Frente a um Rio Ave que quis manter-se fiel aos seus princípios, assumindo o risco desde a saída de bola como faz sempre independentemente do adversário, a equipa de Sérgio Conceição soube impor-se desde o início, pressionando alto e aproveitando bem o espaço que o seu adversário foi dando nas costas da defesa.

Com quatro alterações em relação ao onze que bateu o Marítimo na Liga, incluindo o regresso de Felipe à titularidade - na frente, Soares surgiu na equipa em detrimento de Aboubakar -, o FC Porto demonstrou desde bem cedo que queria levar a sério a partida de ontem, onde os visitantes não puderam contar com o castigado Marcelo. E, aos dois minutos, podia ter chegado à vantagem, não fosse Soares ter falhado inacreditavelmente em frente à baliza após cruzamento de Marega. O Rio Ave ainda respondeu, numa jogada entre os dois Ribeiros (Yuri e Rúben) que deixou Francisco Geraldes em boa posição na área, mas a intervenção de Danilo travou o remate do médio.

Até que aos 11 minutos aconteceu o inevitável: Cássio tentou um passe arriscado que Brahimi intercetou, Herrera tocou de calcanhar e Soares bateu o guardião brasileiro com um tiro rasteiro de pé esquerdo. Mesmo com mais posse de bola, o Rio Ave abanou. Sentiu muitas dificuldades na saída (importante a ação de Herrera) e, quando chegava ao meio-campo contrário, a formação da casa conseguia recuperar rapidamente a bola, que lançava para o enorme espaço que se abria no meio-campo visitante. Em três minutos apenas, Marega teve outras ocasiões para marcar: na primeira, isolado por Brahimi, tocou sobre Cássio ao lado; logo a seguir rematou rasteiro para uma defesa apertada do guarda-redes; e depois fez mesmo o segundo, de novo lançado pelo argelino e passando por Cássio antes de rematar para a baliza.

Penálti fecha contas

Logo após João Novais ter marcado um livre rente ao poste, Miguel Cardoso teve de substituir o seu guardião devido a um problema físico mas as coordenadas do jogo não se alteraram. O FC Porto continuou a construir e a desperdiçar ocasiões e, apesar de ter tido a felicidade de continuar com onze - Soares podia ter visto o vermelho por entrada dura -, justificou amplamente a vantagem ao intervalo.

A segunda parte foi bastante menos interessante, apesar de os dragões terem entrado a todo o gás, desperdiçando três ocasiões de seguida. O Rio Ave foi equilibrando as coisas e só nos dez minutos finais, após Danilo ver o segundo amarelo por protestar uma decisão, as coisas voltaram a aquecer na noite fria da Invicta. E seria Aboubakar a fechar as contas, de penálti , que valeu a segunda expulsão da noite (Pelé).

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