A poucos dias do arranque dos Campeonatos da Europa de Atletismo, já no dia 10, em Birmingham, Domingos Castro não esconde a ambição. O presidente da Federação Portuguesa de Atletismo (FPA) acredita que Portugal reúne condições para regressar de Inglaterra com medalhas e assume, sem rodeios, que esse é um objetivo legítimo para uma seleção que integra alguns dos melhores atletas do mundo. Ao mesmo tempo, faz um balanço dos primeiros anos de mandato, fala da recuperação financeira da Federação, das novas infraestruturas, do apoio aos jovens e do sonho de construir um atletismo mais forte e mais profissional. "Se me perguntarem se estou à espera de medalhas, claro que sim. Portugal tem alguns dos melhores atletas do mundo e, quando temos atletas desse nível, eles são candidatos às medalhas", afirma Domingos Castro, sem hesitar.O antigo fundista recorda, contudo, que o atletismo é uma modalidade onde o resultado depende exclusivamente do rendimento do atleta no momento da competição. "Pode haver um dia menos bom. É um desporto individual, depende apenas do atleta. Mas estou muito confiante. Os próprios atletas também acreditam e isso deixa-me otimista", sublinha. Portugal apresentará em Birmingham a maior representação da sua história num Campeonato da Europa. "Levamos a maior comitiva de sempre. São 55 atletas e, no total, quase 90 pessoas entre treinadores, médicos, fisioterapeutas e dirigentes. É um momento histórico para a Federação", destaca. Essa dimensão representa também um esforço financeiro significativo, que ainda não está totalmente quantificado, mas Domingos Castro garante que a Federação encara essa despesa como um investimento. "Nós não gastamos dinheiro. Nós investimos nos atletas. É um investimento no futuro da modalidade", afirma, revelando que só as participações das seleções de sub-18 e sub-20 representaram recentemente um esforço superior a 230 mil euros. Apesar da confiança, o presidente da FPA rejeita transformar as medalhas numa obrigação. "Se regressarmos sem medalhas não considero isso uma frustração. Eu fui atleta e sei perfeitamente o que custa competir ao mais alto nível. Não há ninguém que queira ganhar mais do que os próprios atletas", explica.Entre os nomes capazes de lutar pelos lugares cimeiros aponta naturalmente os campeões e vice-campeões mundiais que integram a seleção, mas acredita que poderão surgir outras surpresas. "Temos atletas consagrados, mas acredito sinceramente que poderão aparecer surpresas muito positivas. Tenho de transmitir essa confiança aos atletas", refere. O olhar da Federação vai, porém, muito além destes europeus. Los Angeles 2028 surge já como o grande objetivo estratégico. "Queremos que não falte absolutamente nada aos nossos atletas. O nosso foco está também nos Jogos Olímpicos de Los Angeles", garante.Segundo Domingos Castro, a estrutura federativa trabalha hoje de forma muito mais profissional e próxima dos atletas. "Hoje temos uma estrutura altamente profissional. Estamos muito próximos dos atletas e sentimos que existe apoio do Comité Olímpico e do Governo. Queremos dar-lhes todas as condições possíveis", afirma. Questionado sobre a renovação geracional, mostra-se particularmente otimista. "Temos uma nova geração com enorme talento. Acredito que alguns destes jovens conseguirão chegar aos Jogos Olímpicos. Mas o talento, por si só, não chega", alerta. "Os atletas de alto rendimento não são cidadãos normais. Têm de abdicar de muita coisa. Hoje há muito mais distrações do que existiam no nosso tempo e isso obriga-os a um foco permanente".Domingos Castro acredita, ainda assim, que Portugal oferece atualmente condições competitivas aos principais atletas. "Os nossos atletas passam grande parte do ano em estágios de altitude, têm acompanhamento técnico e médico. Estamos constantemente a procurar melhorar aquilo que lhes oferecemos", explica. .Ao fazer um balanço do mandato iniciado em 2024, identifica a reorganização interna como uma das maiores conquistas." O principal problema que encontrámos foi a organização. Hoje a Federação está muito mais profissional. Temos de gerir uma Federação como se fosse uma empresa", afirma. Também na área financeira traça um cenário positivo. “Recebemos uma Federação que apresentava prejuízos consecutivos. O nosso primeiro ano já foi positivo. Temos as contas equilibradas e conseguimos aumentar o orçamento em mais de um milhão de euros", revela. Ainda assim, reconhece que persistem dificuldades importantes. "Há atletas de alto rendimento que vivem em casas partilhadas e que chegam ao fim do mês sem dinheiro suficiente. Como é que um atleta consegue treinar descansado sabendo que o dinheiro não chega para pagar as despesas?", questiona. Para Domingos Castro, este continua a ser um dos maiores desafios da modalidade. "Hoje há atletas praticamente a pagar para praticar atletismo. Antigamente os clubes conseguiam pagar melhor. Hoje isso mudou completamente", lamenta.Apesar disso, elogia o apoio governamental e admite que continuará a pedir mais investimento público. "Continuaremos a pedir mais apoio ao Governo porque os atletas precisam desse apoio para continuarem a competir ao mais alto nível". A modernização das infraestruturas é outro dos pilares da estratégia de Domingos Castro. O presidente da Federação considera que Portugal continua a ter carências importantes, mas garante que existem vários projetos em marcha que poderão alterar significativamente o panorama da modalidade nos próximos anos. A principal prioridade é a futura Casa das Seleções, na Marinha Grande. "A Casa das Seleções será a obra mais importante deste mandato. Vai permitir que os nossos atletas tenham condições de excelência para preparar todas as grandes competições internacionais", afirma. Segundo explica, o processo sofreu alguns atrasos burocráticos relacionados com a cedência dos terrenos, mas acredita que a situação ficará ultrapassada." Está prometido que os terrenos serão finalmente cedidos e vamos avançar com a construção. Será um salto enorme para o atletismo português", refere. Além desse projeto, Domingos Castro revela que a Federação trabalha também para aumentar a oferta de instalações cobertas em Portugal. "Temos a promessa de uma arena coberta em Vila Nova de Gaia e acredito que Lisboa também terá, em breve, uma infraestrutura deste género", adianta. A recuperação da pista destruída pelas intempéries em Pombal é outra das preocupações imediatas. "Vamos montar uma nova pista que nos foi oferecida pela Federação Espanhola e pela Federação Catalã. É um gesto extraordinário que muito agradecemos", diz.Apesar das limitações financeiras, acredita que Portugal consegue competir de igual para igual com muitos países europeus. "Nós, com pouco, fazemos muito. Somos autênticos heróis. Conseguimos resultados extraordinários com recursos muito inferiores aos das grandes potências", sustenta.E identifica um problema que considera estrutural que, na sua opinião, continua a prejudicar o desenvolvimento da modalidade. "O maior problema do atletismo português é a falta de visibilidade. Somos a modalidade rainha dos Jogos Olímpicos, temos campeões do mundo, campeões olímpicos, e muitas vezes nem notícia somos", lamenta.Sem apontar diretamente o dedo ao futebol, admite que a modalidade continua a ocupar praticamente todo o espaço mediático. "O atleta precisa da comunicação social. Eu próprio devo muito daquilo que fui enquanto atleta à comunicação social. Infelizmente, hoje o atletismo não recebe o reconhecimento que merece", afirma. Apesar disso, considera que a Federação conseguiu mobilizar uma nova geração para a modalidade. "Criámos um movimento extraordinário entre os jovens. Tivemos 850 atletas em estágios, organizámos dezenas de concentrações, envolvemos mais de 21 mil crianças no programa Kids' Athletics e fomos considerados número um da Europa nessa iniciativa", destaca. Domingos Castro lembra ainda a organização dos Campeonatos da Europa de Corta-Mato, em Lagoa, que considera um dos grandes sucessos recentes da Federação. "Recebemos elogios da European Athletics pela organização. Disseram-nos que tínhamos superado todas as expectativas", recorda. Para Domingos Castro o desporto adaptado é uma área que diz ter mudado profundamente a sua forma de olhar para o desporto. "Eu sou completamente apaixonado pelo desporto adaptado. Amo o desporto adaptado", afirma. E recorda a experiência vivida num Campeonato do Mundo, onde acompanhou diariamente os atletas. "Foi a primeira vez que muitos daqueles atletas sentiram que tinham um presidente ao lado deles do primeiro ao último dia. Isso emocionou-me profundamente", confessa.O objetivo passa agora por aproximar ainda mais atletas olímpicos e paralímpicos. "Quero realizar um estágio conjunto em Rio Maior. Quero que convivam, porque os atletas paralímpicos dão verdadeiras lições de vida aos olímpicos e a todos nós", afirma. Também garante que a futura Casa das Seleções será totalmente adaptada. "Não quero que falte absolutamente nada aos nossos atletas, incluindo os atletas paralímpicos. Essa é uma prioridade para mim". Já numa dimensão mais pessoal, Domingos Castro admite que a experiência enquanto atleta continua a marcar profundamente a forma como exerce o cargo. "Ter sido atleta ajuda-me todos os dias. Conheço a realidade deles porque vivi exatamente os mesmos problemas", refere.Quando questionado sobre o momento mais doloroso da carreira, não hesita. "A maior tristeza foi perder a medalha nos Jogos Olímpicos de Seul. Estava em segundo lugar a poucos metros da meta e fui ultrapassado nos instantes finais. Nunca esquecerei esse momento", recorda. Mas considera que a maior vitória da sua vida aconteceu longe das pistas. "A maior vitória foi conseguir proporcionar uma casa digna à minha família. Não há medalha nem dinheiro que paguem essa felicidade", afirma com muita emoção.Apesar de ainda não anunciar formalmente uma recandidatura à presidência da Federação, deixa claro que a possibilidade está em cima da mesa. Recusa, porém, alimentar qualquer ambição de liderar o Comité Olímpico de Portugal. "É uma honra ser vice-presidente do Comité Olímpico e trabalhar com Fernando Gomes. Não ambiciono ser presidente do Comité", assegura. O líder federativo fez questão de deixar uma mensagem que resume a forma como encara o cargo. "O atletismo deu-me tudo. Não precisava de assumir estas funções por razões financeiras. Estou aqui por gratidão. Quero sair de consciência tranquila, sabendo que fiz tudo para devolver ao atletismo aquilo que ele me deu", afirma. Por isso, tem muitas certezas sobre o que gostaria que fosse o legado do seu mandato. "Quero que atletas, treinadores e todos os que fazem parte da modalidade possam dizer apenas uma coisa: este homem fez muito pelo atletismo português. Se isso acontecer, sentirei que a missão foi cumprida". .Portugal com 15 atletas nos Mundiais de Estafetas em atletismo com ambição de reforçar peso internacional