Djokovic já tem o Grand Slam completo: o coração fica marcado em Roland Garros

Sérvio venceu torneio francês, único Major que lhe faltava. Derrotou Andy Murray na final e cumpriu promessa de festejar como Gustavo Kuerten, em 2001. Há 47 anos que ninguém vencia de seguida as quatro provas do Grand Slam

A história do desporto faz-se de momentos - rápidos 90 segundos - como este: assim que a bola lançada por Andy Murray bateu na rede, Novak Djokovic deitou-se no court, levantou os braços em jeito triunfal, reergueu-se, cumprimentou e aplaudiu o rival, debruçou-se de mãos nos joelhos e cabeça baixa (como quem tenta ganhar noção do que acaba de fazer), e, por fim, pegou novamente na raqueta, para cumprir a promessa de desenhar um coração no pó de tijolo e deitar-se sobre ele. Nas bancadas, os pais do tenista sérvio beijavam-se e Gustavo Kuerten - o inventor da original celebração - chorava. "Djoko" tinha acabado de vencer o torneio de ténis de Roland Garros.

Aquele momento foi o epílogo da histórica consagração a que se assistiu ontem em Paris (França). Aos 29 anos e 14 dias, Novak Djokovic completou, por fim, o Grand Slam de carreira que há muito perseguia - ou seja, juntou no palmarés os quatro torneios Major do circuito mundial de ténis (Austrália, Roland Garros, Wimbledon e US Open). Na final da prova francesa, Andy Murray foi derrotado por 3-6, 6-1, 6-2 e 6-4, ao fim de 3.05 horas de partida.

O atual n.º1 do ranking mundial de ténis junta-se a um grupo restrito. Antes dele, só sete homens conseguiram completar o Grand Slam de carreira: Fred Perry (1935), Don Budge (1938), Rod Laver (1962), Roy Emerson (1964), André Agassi (1999), Roger Federer (2009) e Rafael Nadal (2010). E desde o australiano Laver, em 1969, que ninguém detinha os quatro títulos em simultâneo - Djokovic venceu, de forma consecutiva, Wimbledon (2015), US Open (2015), Open da Austrália (2016) e, agora, Roland Garros. "É um momento muito especial. Provavelmente, o maior da minha carreira", resumiu no final.

No entanto, a consagração tardou em acontecer - tal como o sol se fez esperar e só ontem apareceu em Paris. Desde 2011 que só faltava a "Djoko" triunfar no pó de tijolo de Roland Garros para completar o Grand Slam. Porém, o sérvio foi perdendo uma, outra e ainda mais outra final (2012 e 2014 contra Rafael Nadal, 2015 perante Stanislas Wawrinka). E só ontem pôde celebrar, ao mesmo que conquistou o 12.º título do Grand Slam - iguala Roy Emerson, está a dois de Pete Sampras e Rafael Nadal e a cinco do recordista Roger Federer.

Contudo, Novak Djokovic teve de sofrer um pouco para derrotar Andy Murray - que já fora a sua vítima este ano na final do Open da Austrália. O britânico, atual n.º2 do ranking ATP, venceu o primeiro set (6-3). Depois, o sérvio não lhe hipóteses no segundo (6-1) e no terceiro (6-2), quebrando cedo o seu serviço.

Por fim, ao quarto set, "Djoko" vacilou, quando já vencia por 5-2 e estava a um só jogo de conquistar o torneio. Permitiu a recuperação a Murray de 5-2 para 5-4. Desperdiçou dois match point após chegar aos 40-15. Mas acabou a celebrar, quando, depois de cruzar o campo por 19 vezes, a bola rebatida por Andy Murray bateu na rede.

"Guga": o meu desenho era melhor

Então, soltou-se a tal celebração, rematada com o desenhar de um coração, com a raqueta, no pó de tijolo do court central de Roland Garros. O icónico festejo - uma declaração de amor ao torneio parisiense - foi celebrizado pelo brasileiro Gustavo Kuerten, em 2001, na sua caminhada para o terceiro triunfo consecutivo na prova. E ficou na retina de Djokovic, então um miúdo de 14 anos, a assistir a tudo pela televisão. Este ano, o sérvio pediu permissão a "Guga" para imitá-lo e ele anuiu - e assistiu a tudo, em lágrimas, na bancada.

"Ele perguntou se podia fazê-lo se vencesse e eu disse "claro que sim". Mas o meu [desenho] era um pouco melhor. Vou-lhe dizer "precisas melhorar bastante"", brincou o ex-tenista, de 39 anos, que viveu os melhores momentos da carreira em Roland Garros (o único Major que venceu).

Novak Djokovic também falou do gesto e de como era "muito importante" para ele "deixar o coração" para os adeptos, "como "Guga" fez". "Este é um momento muito especial, agradeço-vos do fundo do coração", sublinhou o atleta sérvio, por entre elogios a Andy Murray - "infelizmente, um de nós tinha de perder mas voltaremos a vermos no futuro e haverá triunfos para ti".

O escocês, que também procurava o primeiro triunfo em Roland Garros, devolveu as palavras de cortesia. "É "lixado" estar no lado oposto e perder o jogo, mas vocês [adeptos] foram uns sortudos por assistirem a um momento histórico como este e tenho orgulho de ter feito parte dele", disse Murray, que conquistou os únicos Grand Slam da carreira (US Open 2012 e Wimbledon 2013) ante Djokovic.

Quanto ao sérvio segue na senda de outro feito histórico: vencer os quatro Majors no mesmo ano. Entre os homens, só Budge (1938) e Laver (1962 e 1969) o alcançaram.

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