Diogo Carmona é um atleta português de desporto adaptado, especializado em para-snowboard, que fará a estreia nos Jogos Paralímpicos de Inverno de Milão-Cortina 2026. Tornou-se inicialmente conhecido do público português como ator, ainda em criança e adolescência, participando em séries e telenovelas populares como Morangos com Açúcar, Floribella e Dancin’ Days. Apesar da exposição mediática precoce, a sua vida mudou profundamente em outubro de 2019, quando sofreu um acidente grave que levou à amputação parcial da perna esquerda. O período seguinte foi marcado por recuperação física e psicológica exigente e por uma redefinição completa de objetivos pessoais e profissionais.Antes do acidente já praticava skate desde os 10 anos e foi precisamente essa ligação ao desporto que funcionou como motor de reabilitação. Após meses de fisioterapia voltou gradualmente à prática desportiva, primeiro no skate adaptado e depois na neve, onde encontrou o seu caminho competitivo definitivo. Experimentou snowboard apenas em 2022 e, em poucos anos, passou do nível inicial para a alta competição internacional, um progresso considerado invulgarmente rápido no contexto do desporto paralímpico. Compete na classe SB-LL2, destinada a atletas com amputação abaixo do joelho..Em Portugal tornou-se campeão nacional de para-snowboard e também campeão nacional de skate adaptado. A nível internacional foi o primeiro português a competir numa Taça do Mundo da modalidade, alcançou lugares de top-15 em etapas do circuito mundial, obteve um quarto lugar numa prova da Europa Cup de snowboard cross na Finlândia e conquistou duas medalhas de prata numa etapa da FIS Asian Cup de banked slalom realizada no Dubai. Paralelamente manteve ligação ao skate adaptado e participou numa demonstração internacional durante os Jogos Olímpicos de Paris 2024.Em fevereiro de 2026 garantiu a qualificação para os Jogos Paralímpicos de Inverno de Milão-Cortina, tornando-se o primeiro atleta português confirmado nesta edição na disciplina de snowboard adaptado. A presença tem significado especial para o desporto nacional, tradicionalmente pouco representado em modalidades de inverno, e simboliza também a expansão do movimento paralímpico português para novas áreas competitivas. Para além dos resultados desportivos, foi incluído na lista Forbes Portugal Under 30 e participa regularmente em ações educativas e de sensibilização para inclusão e igualdade de oportunidades, sendo frequentemente apontado como exemplo de superação..Está prestes a estrear-se nos Jogos Paralímpicos de Inverno de Milão-Cortina 2026. O que sentiu quando recebeu a confirmação do apuramento?Foi um momento muito intenso. Houve ali um segundo em que fiquei em silêncio porque não estava a conseguir processar. Sabia que era uma possibilidade, tinha sido falada dentro da equipa técnica, mas uma coisa é saber que pode acontecer e outra é acontecer mesmo. Quando recebi a confirmação senti uma descarga emocional enorme, comecei a chorar e precisei de alguns minutos para perceber o que significava. Foram meses muito duros, sobretudo esta época, entre recuperação física, fisioterapia e a incerteza de não saber se ia estar pronto a tempo. Aquela notícia funcionou como uma validação de todo o esforço. Senti orgulho, alívio e também uma responsabilidade imediata.Antes do snowboard havia uma vida completamente diferente, ligada ao skate e à representação. Como surgiu a mudança?A mudança não foi planeada. Recebi um convite da Federação para experimentar snowboard e fui numa lógica de curiosidade, não de carreira. Na altura não tinha qualquer expectativa de competição internacional. Simplesmente gostei muito da sensação, da liberdade e do desafio técnico. O processo de evolução acabou por ser rápido, talvez pela base do skate, que ajuda bastante na leitura do equilíbrio e na forma como se usa a prancha. A partir daí começaram a surgir oportunidades e percebi que podia levar aquilo a sério.O skate desapareceu da sua vida?Não desapareceu, mas deixou de ser prioridade. Sempre foi uma paixão desde muito novo, passei milhares de horas em skateparks, mas depois da fratura no pé tive de repensar riscos. O skate tem uma imprevisibilidade muito grande — uma pequena distração pode significar meses parado. Neste momento preciso de proteger a minha capacidade de competir no snowboard. Ainda assim, continuo a sentir-me ligado ao skate e não o abandono emocionalmente..Sente mais entusiasmo ou mais responsabilidade por representar Portugal?É impossível separar as duas coisas. O entusiasmo dá-me energia e motivação, a responsabilidade obriga-me a manter foco. Representar um país, sobretudo numa modalidade pouco conhecida em Portugal, tem um peso diferente. Não é só competir por mim, é mostrar que é possível existir desporto adaptado de inverno em Portugal. Tento equilibrar emoções para que não interfiram no desempenho.Será o primeiro português no para-snowboard paralímpico. Isso mexe consigo?Claro que mexe, mas tento não pensar demasiado nisso durante a competição. É algo histórico e dá orgulho, mas também pode criar pressão desnecessária. Se entrar na pista a pensar no simbolismo e não na técnica, prejudico-me. Prefiro encarar como mais um passo natural do percurso. O reconhecimento virá depois; naquele minuto de descida só existe a pista.Quais são os seus objetivos para estes Jogos?Dar o máximo e terminar a prova. Pode parecer modesto, mas não é. Os Jogos são o topo absoluto da modalidade. Chegar aqui significa estar entre os melhores do mundo. Muitas vezes as pessoas olham apenas para medalhas, mas ignoram tudo o que está antes: qualificação, pontos internacionais, viagens, custos pessoais e superação física diária. Terminar a prova com a sensação de que executei o melhor possível será um sucesso.Tem pouco tempo de prática na modalidade. Como foi possível chegar tão longe tão rápido?Muito trabalho concentrado num período curto. Treinos intensivos, muita análise técnica e uma grande capacidade de adaptação. Também tive bons treinadores e apoio certo no momento certo. A base do skate ajudou na aprendizagem inicial, mas a partir de determinado nível isso deixa de ser suficiente. O snowboard competitivo exige leitura de terreno, precisão de trajetórias e controlo mental muito específico. Tive de aprender tudo rapidamente.A lesão desta época complicou a preparação?Bastante. Falhei uma competição importante e isso afetou o ritmo competitivo. Ainda não estou totalmente a 100%, embora esteja muito perto. O impacto no pé ainda causa algum desconforto, sobretudo em zonas mais duras da pista. Nesta fase final estou focado na fisioterapia e na preparação mental para chegar aos Jogos com confiança..O acidente de 2019 mudou a sua vida. Como olha para ele hoje?Foi o pior momento da minha vida. Não há romantização possível nisso. Mas tentei transformá-lo em algo positivo. O processo foi gradual, não aconteceu de um dia para o outro. Primeiro há adaptação, frustração e perda de identidade. Depois começa-se a construir outra versão de nós próprios. Hoje vejo como um ponto de viragem que me obrigou a descobrir capacidades que não sabia que tinha.A experiência como ator ajuda no desporto?De certa forma, sim. O teatro ensina disciplina, repetição e controlo emocional. Também ensina a lidar com público e pressão. No desporto existe uma exposição diferente, mas igualmente intensa. A grande diferença é que no palco interpretamos um papel, no desporto somos nós próprios sem filtro. O teatro continua a ser uma paixão e acredito que voltarei a dedicar-me mais a ele no futuro.Como lida com a visibilidade mediática?Já estava habituado desde novo, por isso não foi uma novidade completa. A exposição pode ser positiva porque dá voz ao desporto adaptado, mas não pode interferir com o foco competitivo. Tento manter uma distância saudável: dar atenção quando é importante e depois regressar ao treino.Treinar sendo português num desporto de inverno é difícil?Muito. Implica deslocações constantes para o estrangeiro e uma gestão financeira rigorosa. Cada estágio tem custos elevados. É preciso decidir cuidadosamente onde investir: material, viagens ou tempo extra de treino. Também obriga a grande autonomia do atleta. Não existe uma estrutura massiva como noutros países.Tem medo antes das descidas?Existe sempre respeito. O medo controlado é útil porque mantém alerta. O importante é transformar essa sensação em concentração. Estudo a pista, visualizo mentalmente o percurso e sigo um ritual: abraço o treinador, faço movimentos de ativação e entro no modo competitivo.Já teve alguma experiência marcante na montanha?Na primeira vez que fui para um glaciar na Áustria perdi-me durante um nevão. Fiquei sozinho, enterrado até ao peito na neve, sem referência visual. Foi assustador e fez-me perceber a dimensão do perigo real da montanha. Felizmente tinha o telemóvel comigo e consegui enviar a localização ao treinador e fui encontrado mais tarde. Nunca mais encarei a neve de forma leviana.Sente que pode inspirar jovens com incapacidades?Espero que sim. Muitas pessoas precisam de referências para acreditar que são capazes. Recebo mensagens nesse sentido e isso tem um valor enorme. O desporto ajuda na autonomia, confiança e saúde mental. Não precisa de ser alta competição — basta experimentar.O que falta em Portugal para valorizar mais o desporto adaptado?Proximidade. Quando o público conhece os atletas, percebe imediatamente o nível extraordinário de exigência. Mais cobertura mediática ajuda, mas também é preciso contacto direto, eventos e educação desportiva.Já pensa nos próximos Jogos?Este é apenas o começo. Quero evoluir e tentar regressar daqui a quatro anos mais preparado. A experiência adquirida agora será essencial para o futuro.E fora do desporto? Gostaria de voltar ao teatro?Gostaria de voltar a explorar mais o teatro e outras áreas criativas. Não me vejo limitado a uma só identidade profissional. O importante é continuar ativo e a aprender.Uma mensagem antes de Milão Cortina?Aproveitar cada momento e competir com tudo o que tenho. Chegar aqui já foi uma vitória, agora quero honrar essa oportunidade..Encerramento dos Jogos Paralímpicos de Inverno homenageia Stephen Hawking.Vicente Pereira: "O meu sonho é ir aos Jogos Paralímpicos"