A complexa missão de passar dos relvados para o comentário

Pedro Henriques e José Calado jogaram ao mais alto nível e nunca pensaram em ser comentadores. Hoje adoram o novo papel

Foram colegas no Benfica dois anos, de 1995 a 1997, e juntos conquistaram uma Taça de Portugal, conhecida, infelizmente, pelo incidente do very light que vitimou um adepto do Sporting. Mas têm mais dois pontos em comum; hoje são ambos comentadores de futebol e nenhum deles sequer traçou esse objetivo quando deixou o futebol.

O veterano na arte do comentário é Pedro Henriques. Desde 2007 que está ligado à Sport TV. "Deixei de jogar devido a um joelho em mau estado e tinha decidido que não ia ficar ligado ao futebol, estava definido que a minha vida ia passar pelo imobiliário e foi isso que fiz nos dois anos seguintes depois de deixar o futebol", conta ao DN o antigo lateral-esquerdo, que pensava que o comentário fosse uma coisa que "não ia gostar de fazer". Até que um dia... "bem, um dia fui convidado para ir a um fórum da Sport TV para falar sobre ordenados em atraso, depois fui convidado para ir a outro e mais tarde surgiu o convite para começar a comentar na Sport TV". Estávamos em 2007.

Para Calado, a nova vida começou mais tarde e... na RTP. "Fiz lá uns comentários e depois o Hélder Conduto, que ia passar para a Benfica TV, perguntou se eu não queria fazer comentários, porque ele entendia que podia encaixar-me nesse projeto", refere o antigo capitão do Benfica, que é uma espécie de elemento afeto aos encarnados na CMTV, muito embora garanta que analisa os jogos "de uma forma imparcial". E sustenta porquê: "Se é penálti, é penálti, seja a favor de quem for e contra quem for."

O grande problema para estes homens que já estiveram nas quatro linhas, e suscetíveis à crítica, é precisamente quando têm de analisar encontros nos quais são intervenientes antigos colegas ou mesmo amigos pessoais.

"É sempre muito difícil, o mais importante é sermos fiéis a nós próprios e, com muito respeito, dizer o que está a passar-se em campo. Isso é o essencial. Mas reconheço que é complicado porque há colegas que estão no ativo e que nós conhecemos, é difícil a apreciação", salienta Calado. Pedro Henriques confessa ter menos pruridos em relação a isso. "Trato os outros como quero que me tratem a mim; com justiça e respeito. Mas não estou ali para ser amigo de ninguém. Com colegas com os quais tenha partilhado o balneário nunca tive qualquer problema, mas eu faço sempre questão de dizer que é muito mais difícil estar na posição deles do que falar do trabalho deles. Sempre me preocupei em fazer uma avaliação mas os jogadores têm de agradar é ao treinador. Posso dizer que um lateral está a fazer mal, mas se o treinador lhes pediu aquilo...", esclarece Pedro Henriques, que garante que jamais utilizará expressões como "vergonha" ou "miserável" para qualificar exibições dos atletas.

No entanto, tem sempre o objetivo de comprometer-se "com uma opinião". "Uma coisa que eu não gostava quando andava no futebol era andarem todos em cima do burro, a darem-se com Deus e com o Diabo", complementa.

Ofendidos com a crítica

Tanto José Calado como Pedro Henriques já sofreram dissabores por terem de dizer aquilo que pensam. "Já me aconteceu fazer uma crítica a uma pessoa que eu conhecia e que é meu amigo pessoal e ele ter ficado meio ofendido comigo. Depois até me disse "podias ter falado mal de toda a gente, mas de mim não". E eu respondi que o respeitava, mas ele não estava a passar uma boa fase. Ele entendeu perfeitamente e quando é amigo é amigo. Aliás, a situação foi tão bem ultrapassada que quando o encontro digo-lhe para ele se portar bem se não (risos)...", revela Calado, sem querer identificar a quem se refere.

Com Pedro Henriques a situação foi um bocadinho mais grave. "Houve um treinador que não gostava dos meus reparos à forma como a equipa dele atuava e achou que eu estava a torcer para que a sua equipa perdesse. Ele e a estrutura dele fartaram-se de me atazanar a cabeça em termos pouco próprios. Com mensagens, porque cara a cara são todos um bocadinho menos crescidos, mirram todos um bocadinho. Houve um funcionário desse treinador a que eu disse que, já que ele estava em Portugal, podia dizer-me aquilo que estava a escrever na cara, mas ele não teve coragem de me atender o telefone", avança o antigo jogador, sem também querer nomear quem se sentiu com os seus comentários.

Aliás, Pedro Henriques tem uma máxima que segue desde os tempos de jogador: "Não falo com pessoas do futebol por opção minha. O meu meio sempre foi muito fora do futebol. Não falo com treinadores, falo com muito poucos jogadores, tenho respeito por todos eles, mas assim também estou mais à vontade. É difícil estar à mesa com um ou mais treinadores e depois ao fim de semana estar condicionado. Não gosto de estar condicionado."

Preparação distinta

É na forma como se preparam para os comentários que Calado e Pedro Henriques diferem quase diametralmente.

"Tento informar-me acerca do trajeto das equipas. E faço tudo, vejo jornais, vou à internet, muitas vezes tento contactar alguns jogadores para lhes perguntar como está a correr a época, se gostam da maneira como são treinados. Entendo que estamos a dar uma informação ao público e quanto mais idónea for essa informação melhor. É preciso perceber os jogadores que estão em alta ou com possibilidades de sair no final da época", refere Calado, que precisa de gastar mais tempo com as equipas que defrontam os grandes. Talvez por isso diga que ser comentador é quase "uma profissão a tempo inteiro".

De tal forma que o antigo futebolista pensa no futuro optar mesmo por se dedicar exclusivamente a ser comentador, até porque não poupa nos elogios a esta nova tarefa: "Não me vão ouvir dizer um dia que gosto mais de ser comentador do que jogador de futebol, mas adoro, adoro ser comentador e por mim fazia isto até ao fim da vida."

Pedro Henriques confessa que tem muito tempo disponível: "Eu falo sobre o que está a acontecer no jogo. O que a Sport TV recomenda é que o importante para eles e para os assinantes é que o comentador está ali para comentar o que está a acontecer. A preparação é ver o jogo e senti-lo. Os dados estatísticos qualquer um pode ir ver à internet. Tenho uma vida desocupada durante o dia, também devido ao background que tenho. Chega a uma altura em que já vi tantas vezes as equipas jogarem que já conheço alguns futebolistas como se fossem meus colegas."

Para o futuro, Pedro Henriques também se vê a fazer o que faz "para sempre", mas não é tão taxativo como Calado: "Vejo-me a fazer isto para o resto da vida, mas posso deixar de fazer, eventualmente, por causa da vida familiar. Durante o dia estou desocupado e a família e os amigos estão a trabalhar, e à noite e ao fim de semana é o inverso. Já estou numa idade em que penso ter menos dinheiro, mas uma vida diferente e com mais tempo de qualidade com aqueles de quem eu gosto."

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