Em muitos campos relvados, ao final da tarde, repetem-se cenas que se tornaram comuns em Portugal e um pouco por toda a Europa: crianças de oito, nove ou dez anos treinam com preparadores físicos, fazem exercícios individualizados e saem apressadas para sessões extra organizadas pelos pais. O futebol juvenil deixou há muito de ser apenas uma atividade extracurricular. Tornou-se um projeto familiar — emocional e financeiro — que ocupa agendas, condiciona férias e redefine prioridades domésticas. Muitas vezes não é apenas a criança que sonha; é toda a família que investe nesse futuro possível.A realidade estatística, contudo, raramente acompanha o sonho. Investigações académicas europeias sobre formação em futebol, publicadas em revistas científicas como a Frontiers in Sports and Active Living e em estudos universitários britânicos sobre academias profissionais, apontam números consistentes: menos de 1% dos jovens que entram numa academia chega ao futebol profissional. Trabalhos associados ao sistema inglês de formação indicam que cerca de 0,5% assina contrato profissional e aproximadamente 4% atinge o nível mais alto da modalidade, enquanto metade abandona antes dos 16 anos. O modelo estrutural britânico — frequentemente utilizado como referência comparável no espaço europeu — mostra ainda que apenas cerca de 180 em 1,5 milhões de jovens federados acabam por se tornar profissionais. Ou seja, a estrutura funciona como um funil extremamente estreito, cada vez mais cedo.Para o psicólogo do desporto Jorge Silvério, a discrepância entre expectativa e realidade é o maior risco emocional do sistema. “Os estudos apontam que mais ou menos 1% dos jovens consegue chegar a outras possibilidades no futebol. O que quer dizer que é extremamente reduzido”, afirma. “Mas a ênfase é muito posta em lutar por esse objetivo e falta depois acompanhamento quando esses atletas são dispensados.”Nas últimas duas décadas multiplicaram-se academias privadas, treinadores individuais e torneios internacionais para jovens adolescentes. O investimento começa cada vez mais cedo: preparação física personalizada, vídeos de destaque para redes sociais e deslocações frequentes ao estrangeiro. O futebol juvenil criou um verdadeiro ecossistema económico sustentado pela esperança de observação. Muitos pais organizam horários familiares e despesas em função de uma possibilidade que estatisticamente quase nunca acontece — ser o próximo Cristiano Ronaldo — e essa expectativa transforma-se frequentemente em pressão diária..Segundo Jorge Silvério, a pressão parental é hoje um dos fatores mais determinantes na experiência emocional dos jovens atletas. “Muitas vezes o sonho é mais dos pais do que dos próprios atletas”, diz. “Os pais querem muito que resulte, incentivam sempre a continuar e isso pode fazer com que o jovem não tenha espaço para perceber se ainda está ali por prazer ou por obrigação.” O psicólogo explica que essa pressão nem sempre é consciente: surge do investimento emocional e financeiro acumulado ao longo dos anos. “Quando a família organiza a vida inteira em torno daquele objetivo, torna-se difícil aceitar sinais de que pode não acontecer.”Sonhar não é o problemaO problema não está em sonhar, sublinha, mas em não preparar o insucesso. “Quando chega a dispensa — normalmente entre os 14 e os 16 anos — há jovens que não perdem só o futebol. Perdem uma identidade construída desde a infância”, explica. “Andar anos a dizer a um jovem que pode ter um futuro profissional e depois constatar que não vai acontecer cria uma frustração enorme.” O psicólogo acrescenta que o impacto também atinge os pais: “Muitos sentem-se perdidos porque não sabem como ajudar o filho e, por vezes, vivem a desilusão quase como própria.”A literatura científica sobre desenvolvimento juvenil em desporto mostra que o impacto emocional acompanha a intensidade do investimento. Quanto mais cedo o atleta se especializa e mais exclusiva se torna a sua identidade desportiva, maior a dificuldade de transição. Silvério descreve esse momento como um choque semelhante a um luto: “É preciso redefinir objetivos. Nunca vai ser uma transição fácil, mas podia ser mais suave se existisse acompanhamento psicológico e orientação de carreira.” E insiste: “Este trabalho não é de pronto-a-vestir. É de alfaiate. Cada jovem reage de forma diferente, dependendo da personalidade, da experiência e do apoio familiar.”A investigação identifica dois períodos principais de abandono desportivo: início da adolescência e entrada no ensino superior. Silvério confirma pela prática clínica: “Na adolescência aparecem outras prioridades — amigos, relações, novos interesses — e o jovem pesa o sacrifício da carreira desportiva.” Nessa fase, acrescenta, surge muitas vezes conflito com os pais: “O jovem começa a querer parar ou reduzir o compromisso e a família interpreta isso como desistência ou falta de empenho.” Mais tarde surge uma decisão mais racional: “Quando entram na universidade, muitos percebem que a modalidade não lhes vai garantir estabilidade económica e apostam no percurso académico.” Mesmo entre atletas de alto rendimento, a carreira dual nem sempre é preparada. “Muitas vezes só no ano em que terminam a carreira começam a pensar no que vão fazer a seguir”, diz.A pressão competitiva está também a baixar a idade de seleção. “Cada vez mais se exige excelência quando ainda estão em idade de brincar”, afirma o psicólogo. “Isto reflete a sociedade em que vivemos — mais competitiva e mais imediatista — e os adultos são parte desse processo.” Paradoxalmente, o desporto deveria cumprir função educativa. “O desporto promove valores fundamentais: espírito de grupo, saber ganhar e perder, persistência. São competências úteis para a vida inteira”, sublinha. “Mas quando pais ou treinadores passam mensagens de vitória a qualquer custo estão a subverter essa função.”Portugal é reconhecido internacionalmente como um dos maiores produtores de talento futebolístico, mas quanto melhor é a formação, mais seletiva se torna. Para cada profissional que chega ao topo, milhares ficam pelo caminho. Silvério defende que o sistema precisa de assumir essa realidade: “O caminho é ter profissionais competentes — psicólogos, orientadores, técnicos — a acompanhar atletas, treinadores e pais.” Esse apoio deveria existir tanto no sucesso como na dispensa: “Não ser dispensado não quer dizer fim de carreira, e ser dispensado não quer dizer fracasso de vida. Há muitos atletas que saem de um clube e mais tarde encontram outro caminho.”O problema, dizem os especialistas, é transformar a exceção estatística numa expectativa coletiva. O sonho precisa de enquadramento familiar e educativo. “É direcionar a energia para novos objetivos”, conclui Jorge Silvério. “O importante é que os jovens percebam que o valor deles não depende de serem ou não jogadores profissionais.”Para os especialistas, o problema não está apenas no momento da dispensa, mas na forma como todo o percurso é construído. A especialização precoce reduz a diversidade de experiências e limita a perceção de alternativas. Quando o jovem cresce com a ideia de que o seu valor depende exclusivamente do rendimento desportivo, qualquer quebra de rendimento ganha um peso desproporcionado. Jorge Silvério defende que os clubes devem trabalhar desde cedo competências psicológicas e não apenas técnicas. “É importante ensinar a lidar com o erro, com a frustração e com a comparação com os outros. Isso devia fazer parte do treino”, afirma. O psicólogo considera ainda que a comunicação das decisões também pode ser determinante: “A forma como se diz a um atleta que não continua pode marcar mais do que a própria decisão.” Em vários casos, acrescenta, jovens continuam ligados ao desporto noutras funções — arbitragem, treino ou gestão — quando a saída é acompanhada. “O objetivo não é retirar-lhes o futebol, é ajudá-los a reencontrar um lugar nele ou fora dele sem quebra de autoestima”, conclui.."Portugal tem grande potencial no desenvolvimento de psicologia no desporto".Jorge Silvério e a ansiedade dos atletas: "A maioria não tem salários milionários"