Das entregas de leite à seleção inglesa, a epopeia de Nick Pope

Guarda-redes do Burnley convocado pela primeira vez. Foi dispensado das camadas jovens do Ipswich, começou na oitava divisão, subiu a pulso e começou 2017-18 no banco

Gordon Banks, Peter Shilton e David Seaman. É a este lote, de três ilustres guarda-redes que vestiram a camisola da seleção inglesa, que Nick Pope pode juntar-se já esta noite (19.45, SportTV2), em Amesterdão, no jogo particular que vai colocar frente a frente Holanda e Inglaterra.

Atendendo que tem 25 anos e é titular de uma equipa que ocupa o 7.º lugar na Liga inglesa, o Burnley, até aqui tudo parece enquadrar-se dentro da normalidade. Afinal, os outros guardiões convocados por Gareth Southgate, Jordan Pickford (Everton), Joe Hart (West Ham) e Jack Butland (Stoke City), também atuam em clubes fora do primeiro terço da tabela da Premier League.

Contudo, o que foge da normalidade é a história de vida e carreira de Pope, que começou o seu percurso no futebol nas camadas jovens do clube do coração, o Ipswich Town, que o dispensou aos 16 anos. "Evidentemente, quando aos 16 anos te descartam, pensas que o futebol profissional está muito longe. Estudei marketing empresarial durante dois anos e ciências do desporto durante um, e tive dois empregos", contou o guarda-redes. "Trabalhei nas entregas de leite a partir das quatro da manhã numa povoação próxima de Soham (Este de Inglaterra) e numa loja de roupas. Mas sair de Ipswich permitiu-me jogar 150 partidas em três anos, algo que no futebol juvenil teria sido impossível", revelou o guardião natural de Cambridge.

Oitava divisão e seis empréstimos

Após a dispensa no Ipswich, Nick Pope começou a jogar no futebol sénior no oitavo escalão de Inglaterra, ao serviço do modesto Bury Town, pelo qual atuou entre 2008 e 2011. O bom desempenho cativou a atenção do Charlton, da III Divisão (League One), mas desengane-se quem pense que o percurso do guarda-redes foi meramente ascendente.

Em cinco temporadas no emblema londrino, apenas na última (2015-16) conseguiu vingar. Nas quatro anteriores foi emprestado a seis clubes: Harrow Borough (sétimo escalão), Welling United (sexto), Cambridge United e Aldershot Town (ambos quinto) e York City e Bury (ambos quarto).

Uma época a jogar com regularidade no Charlton, numa fase em que o clube já estava no segundo escalão do país (Championship), bastou para convencer os responsáveis do Burnley, então recém--promovido à liga inglesa.

Pope assinou contrato em julho de 2016, mas somente a 10 de setembro do ano passado conseguiu fazer a estreia na Premier League, ao substituir o lesionado Tom Heaton - titularíssimo no emblema do noroeste inglês desde 2013 e escolha habitual na seleção de Inglaterra -, durante a primeira parte de uma vitória caseira sobre o Crystal Palace (0-1). Na semana seguinte, estreou-se a titular no campeonato em Anfield, com um empate (1-1) diante do Liverpool - Peter Schmeichel apelidou de "defesa da temporada" uma intervenção do guardião dos clarets nesse jogo.

Agora, depois de quase três dezenas de encontros num dos mais competitivos campeonatos do planeta e de uma renovação de contrato até junho 2020, surge a chamada aos three lions. "Agora que estou aqui, a minha ambição vai além de ser convocado para a seleção. Tenho de estar com fome e quero provar a mim mesmo o que valho", atirou, dez anos depois da deceção de ser dispensado do clube do coração: "Tinha pouca confiança. Era adepto do Ipswich desde pequeno, e senti que era o fim."

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG