35 anos depois, Carlos Móia fala da Meia Maratona de Lisboa como quem folheia um álbum de família: com datas, episódios improváveis, tropeções logísticos e decisões tomadas “com o credo na boca”. A história do Maratona Clube de Portugal e da prova que atualmente enche Lisboa de corredores começou longe da ideia de “uma das maiores corridas de estrada da Europa”. “A primeira resposta é que era impensável”, afirma, sem rodeios. “O Maratona Clube de Portugal foi fundado e formado por atletas como eu, na altura, com barriguinha. Queríamos fazer manutenção e poder comer aquilo que gostávamos.”O clube nasceu em 1989, e a primeira meia-maratona chegaria em 1991. Nessa fase inicial, Móia e o grupo de amigos corria provas por Lisboa e pelo país, mas havia um padrão que começou a incomodar. “Reparávamos que ficávamos sempre em último lugar.” E o orgulho, diz, falava alto: “Pelo menos alguns de nós tínhamos a ideia de que o nosso caminho era a vitória.”A solução foi tão pragmática quanto irónica: manter o espírito do grupo, mas colocar o “Maratona” a competir a sério. A seguir veio a parte que não aparece nas fotografias: recrutamento e contas para pagar. “Arranjámos uma grande equipa. Fomos a pé, na altura, ao Benfica, fomos ao Sporting e recrutámos os melhores atletas. Naturalmente começámos a pensar: e agora como é que pagamos a esta gente?”É aqui que entra a decisão que mudaria o destino da prova e se tornaria o seu símbolo maior: atravessar a Ponte 25 de Abril. “Veio a ideia de fazer a meia Maratona na Ponte, o 25 de Abril.” A travessia da ponte como evento desportivo exigiu um percurso de autorizações e telefonemas que, no relato de Móia, parece uma corrida paralela — feita de corredores institucionais e atalhos improváveis. “Falei com o Francisco Lucas Pires. Ele falou ao Presidente da República, que era o Doutor Mário Soares. O Presidente falou com o Ministro das Infraestruturas, que era o engenheiro Ferreira do Amaral.”Os meses passaram e nada acontecia. Até que Móia pegou no telefone e decidiu acelerar o processo e ligar para o ministro. A resposta que recebeu não foi política, foi estrutural — e inesperada. “Ele disse: ‘olhe, é assim, a Ponte, se for passada por uma coluna militar, se for com aquele passo certo, tem toda a possibilidade de poder rachar’.” O desfecho, no relato de Móia, tem uma simplicidade quase cinematográfica: “Ele disse: ‘se você assume a responsabilidade, a partir deste momento está autorizado’.” A decisão formal ainda demorou “dois, três meses”, mas abriu-se caminho. “Foi autorizado e assim começámos com a prova.”A partir daí, a ponte deixou de ser apenas infraestrutura e tornou-se “ícone”. Móia reconhece que hoje parece “quase impossível” imaginar o que foi preciso para fechar uma das principais ligações rodoviárias do país para uma corrida, mas sublinha que houve um alinhamento de vontades: “Houve aqui uma vontade política… e a Lusoponte viu nisso também a possibilidade de ajudar e promover o desporto e a saúde das pessoas.”.E, mais do que um feito desportivo, descreve a travessia como um gesto coletivo. “Dar a possibilidade a várias pessoas de atravessá-la. A todas as culturas, todas as raças, todas as idades.” Há os que vão “correr muito de pressa, para bater os seus recordes pessoais”, e há a elite que, diz, já colocou Lisboa na história da modalidade. “Uma elite que tem vindo a bater recordes do mundo por duas vezes. Este ano estamos a tentar bater novamente o recorde, perdemos o recorde por um segundo.”Móia insiste que não basta anunciar tempos: “Isto não é chegar aqui e um ‘olha’ qualquer, ou até a Federação Portuguesa de Atletismo dizer ‘o tempo foi este, é o melhor do mundo’.” Há protocolos e verificação internacional. “Os sapatos do atleta são tirados, são levados imediatamente para a Federação Internacional de Atletismo… a prova tem de ser remedida por gente internacional para ver se tem realmente os metros certinhos.” Só depois, explica, é possível validar o recorde.Mesmo com um percurso rápido e prémios, a elite não aparece por magia. E em 2026, o relato de Móia inclui uma dificuldade concreta e recente: a viagem. “Estamos com imenso problema. A maioria dos atletas vinha pelo Médio Oriente, ou seja, pelo Dubai.” De um momento para o outro, foi preciso refazer uma operação que envolve agentes, companhias aéreas e ligações entre continentes. “A partir de sábado tivemos imensas reuniões telefónicas com os empresários e com os agentes dos atletas: mudar os aviões, mudar companhias, tentar imaginar a logística. Parecia impossível.” Houve mesmo um instante em que Móia considerou o pior cenário. “No sábado parecia-me impossível… eu dizia: ‘não sei como é que vamos ter elite na prova’Mas se a elite é um motor mediático, a massa de participantes é a base que sustenta a prova — e tem crescido ao ponto de obrigar a travões. “Nós tivemos de baixar relativamente o número”, admite. E conta um episódio que retrata a explosão de procura: depois da edição do ano passado, abriram inscrições para 2026 e o sistema teve de ser preparado como se fosse uma plataforma de bilhetes para um grande concerto. “Sabíamos que ia haver uma grande corrida de inscrições e começámos a fazer experiências. Os nossos servidores não aguentavam.” Só conseguiram abrir em maio. “Quando abrimos, em sete horas, temos quarenta e tal mil inscrições.” A consequência foi inevitável: “Tivemos que fazer um sorteio.”Por trás do cenário de festa há uma máquina logística que só se percebe quando falha. E Móia faz questão de mostrar o invisível. “Temos uma relativa pequena equipa. À volta de 10 pessoas”, diz, mas no terreno a escala multiplica-se. “No dia da prova passa para 2 mil pessoas.” E o trabalho não é apenas correr com barreiras e pórticos. Um exemplo é a gestão de casas de banho. “Não tínhamos a ideia de que, por exemplo, numa prova destas, uma casa de banho tem que ser utilizada, pelo máximo, por 50 pessoas.” Outro exemplo: a logística de sacos e roupa. “É preciso ter cacifos no final para poder guardar as roupas, os sacos, todos esses tipos de melhorias.” As histórias mais marcantes, contudo, são as que lembram que uma grande organização também nasce de tropeções. Móia recorda a primeira edição e um erro de ingenuidade com as medalhas. Decidiram produzi-las onde “Londres fazia”. Ficaram medalhas “bonitas, douradas, todas bonitas”. Mas cometeram, admite, “a estupidez” de as concentrar numa carrinha fechada. “Dissemos: quando acabar, está aqui uma van de caixa fechada Venham aqui buscar.” O que aconteceu a seguir entrou para a história da prova: “Assaltaram as medalhas, começaram a atirar como quem atirava rosas para os atletas.”E foi uma atleta a impor a ordem. “A Rosa Mota chegou ali, conseguiu parar aquela gente toda que a respeitou.” E, só então, “as pessoas fizeram fila e continuaram a receber as medalhas.” Ao longo dos anos, a prova acumulou episódios que mostram a ambição de criar “atração” e diversidade. “Tivemos o atleta mais velho do mundo, Faúja Singh, um indiano Tinha 94 anos e veio correr a meia-maratona de Lisboa.” No meio desta dimensão técnica e logística, Móia insiste que a prova não é apenas elite e recordes. É também inclusão. Foi daí que nasceu a minimaratona, aberta a quem quer atravessar a ponte, sem correr 21 quilómetros. .Maratona e Meia Maratona de Lisboa condicionam trânsito em Lisboa, Oeiras e Cascais no fim de semana.Grupo de corredores do Ceará treina para meia maratona de Lisboa e alia prática esportiva e lazer com a viagem