Como um golo fantasma deixou o soccer em crise e o Panamá em festa

Panamianos garantem estreia no Mundial, nos últimos minutos, deixando os EUA fora de prova, pela primeira vez desde 1986

"A noite mais surreal e embaraçosa da história do futebol nos EUA" (como lhe chamou Grant Wahl, jornalista da Sports Illustrated) foi a mesma em que "as lágrimas de dor dos panamianos se converteram, passados quatro anos, em alegria" (como escreveu o jornal La Prensa). Graças um polémico golo fantasma, escreveu-se - direito por linhas tortas...? - um dos episódios mais incríveis das fases de qualificação para o Rússia 2018: o Panamá garantiu a estreia em Campeonatos do Mundo de futebol e o soccer entrou em crise, falhando a competição (como não acontecia desde 1986).

O futebol é irónico, por vezes. Em 2013, dois golos dos (já qualificados) EUA, no tempo de compensação da última jornada, derrotaram o Panamá (2-3) e entregaram ao México a derradeira vaga no play-off intercontinental de apuramento para o Brasil 2014. Quatro anos depois - na terça-feira à noite - os panamianos vingaram-se: derrotaram a Costa Rica in extremis por 2-1 e, aproveitando a inesperada derrota norte--americana em Trindade e Tobago (2-1), subiram ao 3.º e último lugar de qualificação para o Rússia 2018. O 4.º lugar - de acesso ao play-off - ficou para as Honduras, que deram a volta ao México (3-2). E os estadounidenses - que tinham a sétima sequência mais longa de presenças consecutivas em Mundiais (apenas atrás de Brasil, Alemanha, Itália, Argentina, Espanha e Coreia do Sul) - ficaram de mãos a abanar.

A inesperada hecatombe deixou os EUA em choque, com o selecionador Bruce Arena (que rendeu Jurgen Klinsmann a meio da qualificação) e o presidente da federação, Sunil Gulati, debaixo de fogo. "Isto nunca poderia ter acontecido depois dos biliões de dólares que foram investidos na Major League Soccer [MLS, liga norte-americana] e no desenvolvimento das seleções jovens. Os responsáveis deve olhar-se bem ao espelho", criticou Taylor Twellman, ex-internacional (2002--2007), comentador da ESPN.

Em xeque ficam os investimentos milionários feitos pela Fox Sports e pela Nike para capitalizar, no mercado norte-americano, mais uma presença dos Yanks no Campeonato do Mundo. É a primeira vez, desde a ascensão do soccer nos EUA, no início dos anos 1990, que a seleção - carrasco de Portugal nas edições de 2002 e 2014 - fica fora de uma grande competição. "Nós é que falhámos hoje. Não há desculpas", reconheceu Bruce Arena.

Na verdade, a única desculpa a que os estadounidenses se podem agarrar é o golo fantasma que lançou o Panamá para a Rússia: a bola não passou a linha de baliza no lance do 1-1 panamiano, atribuído a Gabriel Torres (53"). Sem tecnologia de linha de golo, o árbitro Walter López, da Guatemala, não teve dúvidas. Contudo, agora, EUA e Honduras (que teriam garantido o 3.º lugar) poderão recorrer à FIFA, para exigir a repetição da partida.

O organismo que superintende o futebol a nível mundial não operou qualquer volte-face quando a "mão de Henry" apurou a França e afastou a República da Irlanda do Mundial 2010 mas acabou por indemnizar a federação irlandesa (após um acordo extrajudicial). Agora, não é certo que alguma queixa tenha pernas para andar, até porque os panamianos alegam que Blas Pérez foi derrubado na área (falta passível de grande penalidade), no mesmo instante em que o golo foi validado.

De resto, a polémica não ensombrou a festa que tomou conta do pequeno país da América Central, levando até a que o presidente Juan Carlos Varela decretasse o dia de ontem como feriado. Após duas presenças em Mundiais de sub-17 e cinco nos de sub-20, o Panamá - com o ex-Belenenses Gabriel Gómez como capitão e o colombiano Hernán Darío Gómez como selecionador - pôde enfim celebrar a estreia na competição principal. O golo decisivo (o 2-1) foi marcado aos 87", pelo central Román Torres, dos Seattle Sounders, da MLS: mais um toque de ironia na mais surpreendente etapa da caminhada até 2018.

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