Quando o Manchester United decidiu dispensar Ruben Amorim, esta segunda-feira, o desfecho já estava escrito há meses — não nos resultados imediatos, mas na arquitetura de poder que o clube escolheu para si próprio.O erro não foi apenas tático, estatístico ou emocional. Foi organizacional.A história começa ainda antes da chegada de Amorim a Old Trafford, quando o United decidiu, finalmente, romper com a figura clássica do manager todo-poderoso que marcou a era pós-Ferguson. A nova administração apostou num modelo moderno: CEO forte, diretor desportivo com controlo do mercado, treinador reduzido ao papel de head coach. Amorim aceitou esse enquadramento — mas nunca se resignou totalmente a ele.Esse desalinhamento silencioso acabaria por ser fatal.Amorim foi contratado como símbolo de modernidade: jovem, vencedor em Portugal, identificado com ideias claras de jogo e processos longos. Mas o contexto que encontrou era tudo menos paciente.Desde o primeiro mercado, tornou-se evidente que o treinador tinha influência limitada nas decisões estratégicas. A política de contratações privilegiou oportunidades financeiras, equilíbrio orçamental e ativos valorizáveis, mais do que necessidades específicas do modelo de jogo. Não houve rutura aberta, mas houve fricção constante.Ao longo dos meses, o discurso público de Amorim foi-se tornando mais defensivo, depois mais político, até finalmente assumir um tom reivindicativo: pediu tempo, pediu coerência, pediu poder. E, num clube como o United, pedir poder é muitas vezes mais perigoso do que perder jogos.Os números nunca ajudaram verdadeiramente Amorim a ganhar margem. A equipa foi irregular, oscilou entre boas sequências e quedas abruptas, nunca se afirmou como candidata real aos primeiros lugares. A tabela mostrava um United competitivo, mas distante do topo, incapaz de impor uma identidade clara.Ainda assim, o momento do despedimento não coincide com um colapso absoluto. Pelo contrário: havia sinais de estabilização, uma defesa mais organizada, maior controlo em jogos grandes e um balneário que, segundo várias fontes, permanecia maioritariamente alinhado com o treinador.O problema foi outro: o clube deixou de acreditar que Amorim aceitasse continuar dentro do modelo que lhe tinha sido imposto.O ponto de não retorno surgiu fora das quatro linhas. Após um empate frustrante, Amorim falou mais do que devia — ou, talvez, falou exatamente o que pensava. Questionou a estrutura, insinuou falta de ambição desportiva no mercado e deixou claro que não se revia num papel meramente operacional.Internamente, a leitura foi imediata: o treinador estava a expor uma fratura de governação. Para uma administração que tenta recuperar controlo institucional depois de anos de caos, isso foi interpretado como um risco maior do que qualquer série de resultados negativos.A decisão foi tomada rapidamente. Não por pânico, mas por incompatibilidade estratégica.Amorim não falhou apenas porque ganhou pouco. Falhou porque tentou ser mais do que lhe permitiram ser.No imediato, o United entra novamente em modo interino, uma imagem recorrente da última década. O ciclo repete-se: nova liderança temporária, reavaliação do plantel, promessas de “aprendizagem” e mais uma busca por um treinador que se encaixe — não apenas no balneário, mas no organograma.Para Amorim, a saída deixa marcas, mas não destrói reputação. Pelo contrário: reforça a imagem de um treinador que exige contexto, autonomia e coerência — características que continuam raras ao mais alto nível.A passagem por Old Trafford — mesmo com resultados abaixo do esperado — representa uma validação clara do seu estatuto no futebol europeu. O clube não escolhe treinadores em fase de aprendizagem; escolhe perfis que considera capazes de liderar sob escrutínio máximo, gerir balneários complexos e representar uma marca global.Para o Manchester United, fica a questão essencial, ainda sem resposta: quem manda no futebol do clube? Enquanto essa dúvida persistir, os treinadores continuarão a cair — alguns por maus resultados, outros por pensarem demasiado alto.