Num universo tradicionalmente dominado por homens, duas jogadoras portuguesas estão a afirmar-se como referências da competição nacional de EA Sports FC. Beatriz Seabra, conhecida como Byaseabra_09, e Sílvia Santos, conhecida como SilviaSantos8, são campeãs nacionais de equipas e integram o restrito grupo de mulheres que competem ao mais alto nível nos esports em Portugal. Representam a Betclic Apogee Esports, organização profissional fundada em 2017, que compete em várias modalidades, com destaque para o EA Sports FC, e que se tem distinguido também por uma postura inovadora e responsável no ecossistema competitivo, incluindo iniciativas ligadas à sustentabilidade ambiental.A presença de mulheres na competição de futebol virtual é hoje uma realidade mais visível, mas nem sempre foi assim. Quando Beatriz começou a jogar, na altura do FIFA 14 e 15, fazia-o de forma totalmente casual. “Nem sequer fazia ideia de que isto poderia vir a ser um trabalho”, recorda. Jogava por gosto, sem imaginar que existia uma estrutura competitiva organizada. Com o tempo, começou a descobrir torneios, a acompanhar jogadores profissionais e a conhecer a vertente federada dos esports em Portugal. Inscreveu-se em competições, começou a ganhar, a conquistar visibilidade e, naturalmente, surgiram os primeiros contactos de equipas. “Foi aí que percebi que já não era apenas um hobby. Havia torneios com milhares de euros em prize pool, havia organizações estruturadas. Dei o passo do casual para o profissional.”.No início, a presença feminina era praticamente inexistente. “Quando comecei, éramos eu e a Raquel. Se havia mais meninas, não apareciam”, conta. Através das redes sociais, começaram a incentivar outras jogadoras a assumirem-se, a participarem e a criarem comunidade. O que começou com duas ou três atletas transformou-se, hoje, num grupo de mais de duas dezenas de jogadoras que competem regularmente. “No início foi complicado. Havia comentários desagradáveis, porque a comunidade era 99% masculina. Mas fomos crescendo, fomos aparecendo, e hoje sinto muito mais respeito.”Sílvia Santos contou ao Diário de Notícias que teve uma trajetória diferente, mas igualmente marcada pela persistência. Sempre ligada ao desporto, foi federada em futsal desde muito jovem. Cresceu a jogar futebol com os amigos na rua e mais tarde conciliou competição com estudos e trabalho. Quando deixou o futsal federado, por dificuldades em gerir horários, encontrou nos videojogos uma nova forma de manter viva a ligação ao futebol. Em 2017 comprou a primeira consola. “Costumo dizer que nunca é tarde”, afirma. Pouco depois percebeu que existia uma vertente competitiva no FIFA, mas praticamente sem espaço para mulheres. “Não havia competições femininas. Havia a Bia (Beatriz), mas era em Pro Clubs, não no um para um.”Determinada a criar oportunidades, começou a mobilizar outras jogadoras e a contactar entidades para organizar torneios. O primeiro torneio presencial feminino surgiu em 2020. “Foi aí que percebemos que afinal havia meninas a jogar e que queriam marcar presença.” A partir desse momento, a federação e os organizadores passaram a dar maior atenção à competição feminina, ainda que de forma gradual..Ser jogadora profissional de EA Sports FC implica muito mais do que jogar partidas sucessivas. A preparação é exigente e multidimensional. Beatriz explica que dedica três a quatro horas diárias ao treino direto, mas o trabalho não termina aí. “Vejo gameplay, estudo jogadores, analiso táticas. Isto exige muito conhecimento estratégico.” A análise de jogos próprios e de adversárias é constante, muitas vezes com o apoio de treinador e analista. A componente mental assume um peso determinante. “Acho que o mais importante é o controlo emocional. Podemos estar a perder por 3-0 ao intervalo e dar a volta. Mas isso só acontece com qualidade e, principalmente, com a parte mental.”Sílvia reforça a importância da resiliência. “Meti na cabeça que ia conseguir. Acreditar faz toda a diferença.” Para ambas, o nervosismo antes das competições é um sinal positivo. “Quando este bichinho desaparecer, já não estamos aqui a fazer nada”, diz Beatriz. A pressão faz parte do processo e é encarada como motivação.O ecossistema competitivo do EA Sports FC está estruturado de forma hierárquica. Tudo começa com qualificações abertas online, onde milhares de jogadores competem para ganhar pontos e acesso a fases superiores. Seguem-se as competições de clubes, como a FIFAe Club Series, e as provas de seleções nacionais, culminando em finais presenciais, com palco, público e transmissões em direto. As equipas são reduzidas, normalmente compostas por dois a quatro jogadores, acompanhados por treinador, manager e, em alguns casos, mental coach. “Na Betclic Apogee temos treinador, mental coach e team manager. Nós só nos preocupamos em jogar”, explica Sílvia. “Temos apoio logístico, transporte, alimentação. Isso faz toda a diferença.”.Contudo, persistem desigualdades estruturais. No circuito masculino internacional, os prémios podem atingir centenas de milhares de euros. No feminino, os valores são substancialmente inferiores. Sílvia aponta ainda outra questão: a necessidade de investimento financeiro dentro do próprio jogo. “Infelizmente é um jogo que precisa de dinheiro real para se ser melhor ou pior. Isso eu mudaria. Tornava tudo mais equilibrado. Tem de haver dinheiro para podermos investir em jogadores para as nossas equipas e isso nem todos conseguem ter.” A possibilidade de investir em conteúdos que aumentam a competitividade cria uma barreira adicional para quem não integra uma organização com apoio financeiro.Apesar dos desafios, as conquistas falam por si. Ambas foram campeãs nacionais, um momento que descrevem como o ponto alto da carreira. Para Beatriz, a final que lhe deu o primeiro título individual teve um simbolismo especial, por ter sido disputada contra uma amiga próxima. “Foi um jogo muito marcante. Tornar-me campeã nacional foi o topo.” Sílvia partilha a mesma emoção. “Ser campeã nacional com a Bia foi uma sensação incrível. Foi um torneio duro, mas estava escrito que aquele era nosso.”O desgaste não é apenas emocional. Embora não exista contacto físico direto, a exigência mental é elevada e o impacto físico também se faz sentir. “É muito mais desgaste mental, mas também há físico. Dor nas costas, dor nos dedos. As mãos são o nosso instrumento de trabalho”, sublinha Beatriz.Olhando para o futuro, ambas acreditam na consolidação da competição feminina. “Daqui a cinco ou seis anos acredito que possamos ter um Mundial feminino com milhões de prize pool”, projeta Beatriz. Sílvia acrescenta: “Fiz parte do início e quero deixar legado. Quero olhar para trás e dizer que ajudei.”Num cenário em constante evolução, Beatriz Seabra e Sílvia Santos são mais do que símbolos de uma geração que abriu espaço num território onde quase não existia representação feminina. Com disciplina, estudo tático, preparação mental e o apoio de uma estrutura profissional, demonstram que o alto rendimento nos esports exige o mesmo rigor, dedicação e competitividade de qualquer outra modalidade desportiva. E provam, sobretudo, que o futuro do futebol virtual em Portugal também se escreve no feminino..Como as marcas em Portugal se renderam à loucura dos eSports.Eleven Sports com 1 milhão de visualizações em eSports