Café, alfinetes, sesta e rezas: conheça as superstições dos atletas portugueses

Patrícia Mamona não dispensa um café antes de competir, Irina Rodrigues usa os alfinetes que prendem o dorsal como amuleto: no dia do adeus a Londres os mundialistas portugueses falam dos seus hábitos, crenças e superstições

Superstição: substantivo feminino; presságio que se tira de acidentes e circunstâncias meramente fortuitas, crença em situações com relações de casualidade que não se podem mostrar de forma racional ou empírica.

A definição acima retirada do dicionário procura explicar hábitos para os quais não encontramos explicação. Comportamentos que temos porque sim - e porque não? -, que nos enchem de certezas os receios que temos, que nos vestem de confiança, porque sem eles estaríamos mais nus.

No desporto esta é uma realidade que entra pelos olhos a dentro. Momentos antes do apito inicial, do tiro de partida, de uma substituição, multiplicam-se os sinais da cruz, os beijos em fios, anéis, tatuagens, um pé que entra sempre primeiro que o outro, meias da sorte, ténis da sorte, raquetes da sorte, ou outras que se escondem do olhar indiscreto. E por isso, o DN foi à caça das bruxas, ou melhor, à procura das superstições dos atletas portugueses nos Mundiais de Atletismo. Alguns assumiram não as ter, outros guardaram as histórias - não vá o azar bater à porta - e muitos revelaram manias sem as quais a competição não vai correr bem.

Patrícia Mamona, atleta do triplo salto, não consegue competir sem beber um café. Pode até ser frio, de saco, sejam como for, desde que esteja lá. E para que não haja percalços, decidiu passar a levar saquetas de café instantâneo consigo. "Café, tenho de beber café. Se não beber café, é como se estivesse incompleta. Já tive uma prova em que me senti tão mal, que tive de beber café instantâneo frio. Não havia expresso e teve de ser café com água fria. Agora, venho sempre com saquetas", conta ao DN. Já lhe atribuíram outras superstições como as meias altas que usa em competição, mas esclarece o mistério com simplicidade: "As pessoas acham que as uso por serem meias da sorte, mas uso-as porque faço muitas feridas na altura do salto. É só para proteger o pé."

No lançamento do disco, Irina Rodrigues não dispensa os seus alfinetes para prender o dorsal. Se a competição anterior lhe correu bem, decide trazê-los para continuar esta maré de sorte: "Gosto de usar um determinado tipo de alfinetes. São os que utilizei na última prova que me correu bem e mantenho. Ah, e tenho sempre de ter música. Se for para uma prova sem música, não me sinto bem."

Já Cátia Azevedo, nos 400 metros, não leva superstições para a pista. Isso é feito na noite anterior. A atleta vê no seu falecido avô o "anjo da guarda". É com ele que fala e reza: "Sou muito religiosa e gosto de rezar ao meu avô, porque é o meu anjo da guarda. Sempre me protegeu e infelizmente já faleceu. É algo que me faz sentir protegida, e dá-me aquela sensação de que tudo vai correr bem."

Diogo Ferreira e Susana Costa foram os que se mostraram mais terra a terra nesta conversa com o DN. A triplista diz não ter superstições, e que antes da prova apenas tenta "não pensar muito" e rodear-se de "pessoas que me passem boas energias". O atleta do salto em altura prefere manter a sua "rotina normal" para assim "fugir à pressão de uma grande competição".

Dentro desta normalidade, há quem fuja às regras sem saber bem porquê. Marta Pen, que corre os 1500 metros, respondeu com um sorriso no rosto enquanto fazia o exercício mental de se lembrar de tudo o que faz antes do dia mais esperado: "Tenho superstições um pouco parvas e outras que não são tão más", confessa.

Comecemos pela mais inusitada: "Tenho de dormir ao lado da janela no dia antes da prova, não posso ficar longe." No dia da competição, não passa sem "dormir uma sesta de três horas" e que tem de acabar "quatro horas antes da prova". Pelo meio, também põe os seus pensamentos em palavras: "Gosto de escrever antes de competir. Eu adoro escrever, preciso de escrever os meus pensamentos. É importante em tudo quem somos, com quem queremos estar e para onde queremos ir".

Já na pista não pode faltar o beijo na tatuagem que ostenta no pulso em memória do pai. O seu maior apoio no atletismo, a pessoa que a levava a cada corrida, que se sentava na bancada a incentivá-la, desapareceu um dia. Marta homenageia-o a cada prova, a cada beijo antes da partida.

Num desporto em que tudo é medido com precisão, nunca se saberá o peso que todas estas superstições e hábitos possam ter no desempenho na pista. Porém, numa altura em que cada vez mais os atletas se assemelham a máquinas, talvez seja isto que os torna mais humanos.

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