Rafa Silva, o miúdo frágil que fez da inteligência a sua arma

O médio foi descoberto pelo Alverca em 2004. A partir daí fintou o destino que o condenava por ser mais pequeno do que os outros

Rafa Silva entra na história do futebol português como o protagonista da maior transferência de sempre entre clubes portugueses. O Benfica paga 15 milhões de euros ao Sp. Braga pelo médio de 23 anos, numa transferência que será oficializada em breve.

É o ponto alto da carreira de um jogador que nos últimos quatro anos teve uma ascensão meteórica. Rafael Alexandre Fernandes Ferreira da Silva nasceu em Vila Franca de Xira e cresceu na freguesia do Forte da Casa, a cerca de três quilómetros da Póvoa de Santa Iria, onde deu os primeiros passos no futebol no União Atlético Povoense. E foi um torneio do seu clube, onde participou o Alverca, que o ajudou a subir o primeiro degrau.

Tinha 11 anos e por esses dias a seleção nacional perdeu a final do Euro 2004 frente à Grécia, no Estádio da Luz. "Na altura pedimos para ele vir para os benjamins do Alverca e assim foi. Era um miúdo pequeno e frágil, mas ultrapassava esse problema com a velocidade e a inteligência com que jogava, denotando uma velocidade de raciocínio acima dos outros", conta ao DN Luís Trincalhetas, um dos seus primeiros treinadores, agora vice-presidente do Alverca.

Quem o conhece bem diz que é uma pessoa simples mas pouco expansiva. Já era assim em criança. "Ao contrário dos outros miúdos, o Rafael não era muito expressivo. Não era de muitas brincadeiras no balneário... era bem-comportado", diz Trincalhetas, que ainda hoje nota esses traços de personalidade no futebolista, que se mantém ligado às suas origens. "Nos últimos anos, não tem sido fácil ele vir a Alverca, mas mantém aqui os amigos e alguns deles até jogam atualmente na nossa equipa sénior", acrescentou o dirigente.

No Braga por 300 mil euros

Esteve sete anos na formação do Alverca, durante os quais esteve duas vezes à beira de dar o salto para o... Sporting. "Quando estava nos infantis, fui com ele duas vezes à Academia de Alcochete para prestar provas. Diziam que era um jogador interessante, mas nunca deram o passo seguinte", revela Luís Trincalhetas, adiantando que "os olheiros do Benfica também o observaram várias vezes em jogos".

Rafa acabou por ficar em Alverca, onde conseguiu conciliar os estudos - "era um aluno regular" - até aos 18 anos. Nessa altura, fez força para sair. "Nós jogávamos na II Divisão de juniores e ele queria jogar na I Divisão, por isso queria para ir para o Sacavenense, mas nós não aceitámos", conta. Só que pouco tempo depois apareceu o Feirense. Os clubes chegaram a acordo e o pai, João Silva, aceitou a mudança do filho para o Norte do país. "Ir jogar para a Feira foi a grande sorte do Rafa, até o pai me disse que lhe fez bem ir viver sozinho, pois amadureceu e percebeu que o futebol podia ser a sua vida", sublinha.

Após um ano nos juniores, em 2012-13 o médio foi lançado na II Liga por Henrique Nunes. A partir daí os olheiros não ficaram indiferentes ao talento de Rafa Silva, que no final da época chegou a acordo para ir para o Sp. Braga. O Sporting ainda fez um forcing para o contratar, mas a palavra entre os dirigentes de Feirense e Braga foi suficiente para que o jogador seguisse para o Minho, a troco de 300 mil euros, tendo o Alverca recebido 32 mil euros por deter ainda 10% do passe. "Se soubéssemos o que sabemos hoje tínhamos mantido essa percentagem e agora receberíamos bem mais", lamenta Trincalhetas.

Mundial 2014 tirou-lhe as férias

Em Braga rapidamente se tornou fundamental para a equipa, chegando a internacional apenas com 20 anos, quatro meses antes do Mundial do Brasil. No final da época 2013-14, Rafa estava preparado para ir de férias com a namorada para um destino paradisíaco, mas uma notícia mudou-lhe os planos: estava convocado por Paulo Bento para o Campeonato do Mundo. Era mesmo verdade... e lá se foram as férias de sonho.

A porta da seleção abriu-se de novo em maio deste ano para disputar o Euro 2016. Jogou pouco, mas sagrou-se campeão da Europa, um feito que corrigiu o desaire de 2004, ano em que Rafa Silva entrou no Alverca.

Paulo Fonseca, que o treinou no Sp. Braga na época passada, garantiu ao DN tratar-se de "um bom miúdo que contribui para fazer um excelente ambiente no balneário", considerando ser "uma excelente contratação do Benfica", um cenário que "já adivinhava".

A chegada à Luz é encarada por Luís Trincalhetas, sportinguista confesso, como "surpreendente pela rapidez com que ele chegou a um alto patamar", pois "nem o mais otimista pensaria que ele chegasse a um grande tão depressa". E, aliás, o vice-presidente do Alverca chama a atenção para o facto de este processo de transferência para o Benfica demonstrar bem a maturidade e forma de pensar de Rafa: "Podia ter ido para o Zenit a ganhar muito dinheiro, mas optou pelo Benfica, onde pode continuar a evoluir." Aliás, quem priva com Rafa destaca o facto de ele dar pouca importância aos bens materiais.
Em termos futebolísticos, Paulo Fonseca diz ter uma "grande margem para crescer", apostando que o Benfica "vai permitir-lhe evoluir muito" para depois "dar um salto ainda maior". "Só depende dele, das circunstâncias e dos resultados do Benfica", assume, apontando contudo aquilo que Rafa tem de melhorar: "Para já, precisa de tempo para encontrar o seu espaço e afirmar-se como titular. O contexto é diferente, terá de perceber a grandeza e a exigência de um clube como o Benfica. Nesse contexto, tem de evoluir nas decisões no último terço do campo. É o seu defeito, mas com o tempo vai melhorar."

Quanto à função mais indicada para o Rafa Silva, o agora treinador do Shakhtar diz que "tanto pode jogar a extremo como por trás do avançado", lembrando que "é muito forte em espaços interiores", onde "pode acelerar o jogo", mas considera que "se jogar a extremo puro o rendimento piora, porque precisa de procurar espaços".

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