Bayern sai em defesa do passado judeu e de resistência ao nazismo

Papel "heróico" do clube, um dos raros que se rebelaram contra o regime de Hitler, questionado por historiador. Bávaros querem estudo independente, para defender a sua honra

O presente glorioso do Bayern não deixa perceber o lado tormentoso da sua história centenária. A faceta judia e de resistente ao nazismo do clube de Munique já foi silenciada, exaltada e questionada publicamente. Agora, o emblema bávaro sai em defesa da honra e, para dissipar todas as dúvidas, vai promover um estudo independente que clarifique a sua (des)vinculação ao regime de Adolf Hitler.

A tese comum a quase todos os historiadores alemães que se debruçaram sobre o tema é de que o Bayern Munique foi dos raros clubes que resistiram ao controlo total imposto pelo regime fascista, entre 1933 e 1945. No entanto, essa teoria foi posta em causa por Markwart Herzog, num artigo publicado na revista Der Spiegel em maio. "A versão apresentada pelo clube de que manteve distância do nacional-socialismo não é válida. Basicamente, a história do Bayern não é tão heróica quanto se conta", defende o historiador, baseando-se em relatos de assembleias-gerais da época, até aqui desconhecidas.

Para os responsáveis do emblema da Baviera - que silenciou o passado judeu nos anos do pós-guerra mas abraçou esse legado de resistência nas últimas décadas, principalmente após a abertura do museu do clube, na Allianz Arena -, a acusação de conivência com o regime nazi, à imagem do que fez a maioria das equipas alemãs dos anos 30, soa a insulto. Por isso, segundo a Der Spiegel, encomendaram "a uma comissão científica ou instituto independente" um estudo detalhado sobre esse período.

Ainda assim, como já se disse, a larga maioria dos estudos aponta a folha limpa do Bayern no período nazi, caso raro num regime que se apropriou e instrumentalizou a maioria dos clubes, abalando mesmo o status quo do futebol alemão (o Schalke 04, tido como a equipa predileta de Adolf Hitler, venceu seis dos seus sete títulos nacionais nesse período). O trabalho de Herzog e da Der Spiegel "mescla factos há muito conhecidos com uma boa dose de informações fraudulentas", criticou Dietrich Schulze-Marmeling, um dos estudiosos do tema e autor do livro O FC Bayern e os seus judeus, citado pela agência AFP. "Essas informações e opiniões devem ser avaliadas por cientistas" é a reação oficial do clube bávaro.

No entanto, Der Bayerische Riese ("o gigante da Baviera") tem a sua história bem presente. No sítio oficial (www.fcbayern.com) recorda os "tempos difíceis" a partir de 1933, quando se tinha estabelecido como "um dos maiores clubes da Alemanha" (campeão pela primeira vez em 1932). "Devido às suas raízes judias, o Bayern foi prejudicado de várias formas. O número de sócios, equipas e adeptos nos jogos caiu de forma dramática. Doze anos sob a ditadura fascista fizeram o clube perder a sua posição de destaque, acabando por cair para o 81.º lugar do ranking do Reich", descreve o órgão oficial.

Landauer, ícone da resistência

Aí, só falta a menção ao presidente do clube no início desses "anos difíceis", o judeu Kurt Landauer, que resistiu no cargo até ser expulso pelo regime - que instituira regras que proibiam os membros da comunidade judaica de exercerem funções em qualquer organismo público, cultural ou desportivo. Landauer, obreiro da ascensão bávara com a ajuda de técnicos e dirigentes judeus (presentes na equipa desde a sua fundação, em 1900), acabou por ser preso e enviado para o campo de concentração de Dachau (1939), de onde escapou semanas depois, exilando-se em Zurique (Suíça).

Todavia, no Bayern ninguém esqueceu o ex-presidente nem o perfil alternativo daquele Judenklub, que se ia afundando em divisões secundárias à medida que o arqui-rival TSV 1860 Munique crescia amparado pelo regime. A lenda fala de brigas de jogadores com os "camisas castanhas" (milícia do partido nazi), de manifestações de atletas como Willy Simetsreiter e Sigmund Haringer contra o ideário nacional-socialista e de como o capitão Conny Heidkamp escondeu a prata do clube para que ela não fosse confiscada. Mas o episódio mais emblemático terá acontecido em 1943, quando a equipa foi jogar um particular a Zurique e (desafiando os avisos da polícia política Gestapo), os jogadores decidiram saudar Landauer, que estaria nas bancadas.

Após a II Guerra Mundial, o lendário presidente (bancário até à ascensão nazi) regressou a Munique, em 1947, e reassumiu a liderança do clube, até 1951. Mas o Bayern levou bastante mais tempo a reerguer-se: ficara com o estádio destruído (pelos bombardeamentos dos Aliados) em 1944 e perdera 56 membros da equipa (incluíndo os internacionais Josef Bergmaier e Franz Krumm) no campo de batalha. "Sete outros foram mortos pelos nazis por motivos raciais, políticos e religiosos", nota o site oficial do clube alemão.

Outrora grande, Der Bayerische Riese continuou confinado a um papel secundário até aos anos 60 - a ponto de, em 1963, não ter sido convidado para a edição inaugural da Bundesliga, ao contrário do 1860 Munique. Nas décadas seguintes, o Bayern tratou de escrever outra história (mais 25 títulos nacionais e cinco europeus). Mas isso não significa que renegue o seu passado judeu e de resistência ao nazismo.

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