Abdicou do sonho para salvar a vida dos que escalavam com ela

Tamara Lunger estava prestes a tornar-se a primeira mulher a chegar ao topo de uma montanha de mais de 8000 metros no inverno, quando - já fisicamente debilitada - decidiu desistir, para não pôr em risco a sua vida e dos que a acompanhavam

Abdicar é, muitas vezes, um gesto de grandeza - mas poucas serão aquelas em que essa renúncia faz a diferença entre viver e morrer. Se hoje a italiana Tamara Lunger não goza de fama mundial por ter sido a primeira mulher a chegar ao cimo de uma montanha de mais de oito mil metros, no inverno, é porque abdicou a menos de cem metros do pico. E, provavelmente, salvou a sua vida e as dos três alpinistas que a acompanhavam.

O caso aconteceu em finais de fevereiro, mas só agora ganhou ecos mundiais. Tamara Lunger, alpinista de 29 anos, perseguia o sonho de escalar a Nanga Parbat (a nona montanha mais alta do mundo, com 8125 metros de altitude, localizada na zona ocidental nos Himalaias, no Paquistão) no inverno. Porém, fisicamente debilitada e sob condições extremas (temperaturas de cerca de 50 graus negativos), a transalpina acabou por desistir, para não pôr em risco a sua vida, a do seu mentor, Simone Moro, e as dos colegas Ali Sadpara e Alex Txikon (que se lhes juntaram a meio da subida).

Tudo se decidiu em poucos minutos, quando a italiana - filha de Hansjörg Lunger, antigo campeão mundial de esqui alpino - estava a cerca de meia hora de completar o desafio. O paquistanês Sadpara tinha acabado de se tornar o primeiro a conquistar a Nanga Parbat no inverno, fixando um recorde de quatro chegadas ao topo da "montanha assassina". Moro, italiano, e Txikon, espanhol, rapidamente se lhe juntaram no topo.

No entanto, Tamara, esgotada, desidratada e enfraquecida após ter vomitado várias vezes ao longo do dia, não foi capaz de acompanhá-los. E percebeu que se fizesse um último esforço para chegar ao topo não seria capaz de regressar sozinha e estaria a colocar em risco todo o grupo.

"Disse ao Simone: "Sou capaz de chegar ao topo, mas vocês vão ter de me ajudar a descer." Ele incentivou-me. Mas logo pensei "se chegar ao topo posso não voltar a ver aqueles que amo". Se os meus colegas tivessem tentado salvar-me... seria impossível e estaria a criar problemas para eles", explicou Tamara.

"Foi a primeira vez na minha carreira de alpinista que assisti a uma demonstração tão emocionante de generosidade e ética na montanha. Em vez de se tornar a primeira mulher na história a atingir uma montanha de oito mil metros [marca mítica do alpinismo] no inverno, Tamara pensou em nós ao recuar. É uma das coisas mais incríveis que vi", destacou, por sua vez, Simone Moro.

"Não fiquei triste por ter abdicado do topo e sinto-me orgulhosa por isso. Aprendi algumas coisas. Mais importante é estar viva", conclui Tamara. No entanto, isso não significa que nunca mais tente subir aos oito mil metros no inverno (Simone Moro anunciou que não voltará a fazê-lo). "É demasiado cedo para responder", diz a italiana, ainda não preparada para esse tipo de renúncia.

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