A mais rápida. É portuguesa há menos de um mês e vai aos Jogos

Perseguida no Congo, Lorène Bazolo encontrou refúgio em Portugal. Com dupla nacionalidade desde maio, já bateu o recorde dos 100 metros e vai aos Jogos Olímpicos

Lorène Bazolo, de 33 anos, é uma atleta luso-congolesa que despertou a atenção no último fim de semana ao bater o recorde nacional feminino dos 100 metros, retirando nove centésimos de segundos a uma marca que estava na posse de Lucrécia Jardim já desde 1997. O seu feito - 11,21 segundos, obtido no meeting de Salamanca -, pode ter apanhado muita gente de surpresa, mas não a José Fonseca, treinador que a orientou no Sporting até abril passado. Nos leões desde final de 2014, Bazolo chegou a Portugal em 2013, começando por representar o JOMA.

"Não fiquei surpreendido porque a conheço muito bem e sei o quanto evoluiu nos últimos meses. É uma lutadora e foca-se muito nos seus objetivos. Acredito que poderá trazer uma medalha do Rio de Janeiro!", adianta ao DN.

Basta ouvir a alegria com que Bazolo fala para perceber como aprecia a vida que leva em Portugal. E, por isso, prefere não recordar os derradeiros tempos difíceis passados no Congo e que a levaram a emigrar para o nosso país. Por isso, foi José Fonseca a desfiar a história. "Ela saiu do seu país em conflito com a federação, uma vez que era perseguida pelo facto de pertencer a uma tribo diferente das pessoas que passaram a mandar lá. Mesmo sendo a melhor atleta, era posta de lado e sentiu-se na necessidade de procurar abrigo noutro país", conta.

O (rápido) processo de naturalização de Lorène ficou concluído no início de maio e a verdade é que a atleta não esperou muito tempo a demonstrar que pode ser uma mais-valia para Portugal. Curiosamente, Lorène diz ter sido apanhada de surpresa com este recorde, que lhe permitirá participar nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. "O meu objetivo era obter apenas os mínimos para o Rio, ou seja, fazer 11,32 segundos. Não esperava bater o recorde da Lucrécia Jardim e fiquei muito contente, claro", afirma, num português quase perfeito do ponto de vista gramatical, mas com forte pronúncia afrancesada.

"Quero muito fazer os portugueses felizes e por isso vou dar tudo nos Jogos Olímpicos. Quem sabe se não conseguirei trazer uma medalha no Brasil? Sei que a minha marca chega para atingir pelo menos a final... Mas tenho de ir devagar, pensando primeiro em passar as eliminatórias, depois as meias-finais e tentar um bom resultado na final", sublinha, ela que já esteve nos Jogos Olímpicos de Londres 2012, tendo inclusivamente sido porta-estandarte do Congo, antes das mudanças que a obrigaram a procurar refúgio em Portugal.

Das dificuldades ao Rio de Janeiro

Os primeiros tempos em terras lusas não foram nada fáceis, garante José Fonseca. "Ela só conhecia um atleta do JOMA, não sabia obviamente nada de português e esteve a viver num andar apenas com atletas estrangeiros do clube. Felizmente agora está muito melhor, ocupa um quarto de uma vivenda, mas com acesso a uma piscina e o subsídio que lhe é pago pelo Sporting mais do que duplicou em relação ao que recebia do JOMA", revela.

Lorène confessa-se muito agradecida ao Sporting e em especial ao presidente Bruno de Carvalho. "O clube tem-me apoiado em tudo e foi muito importante para o sucesso da minha naturalização. Reconheceram o meu talento e deram--me a oportunidade de crescer e evoluir. Agradeço ao presidente do Sporting por me ter enviado uma mensagem de parabéns para o meu telemóvel depois de eu ter batido o recorde. Não irei esquecer esse gesto. É bom perceber que ele não liga apenas ao futebol", elogia.

Lorène viveu há poucos dias outro grande momento, ao sagrar-se campeã europeia de clubes pelo Sporting. "Foi um feito histórico para o clube e para Portugal e que só foi possível porque, além da qualidade dos atletas, somos todas muito unidas", realça. E, claro, com o contributo importante de Lorène, que ganhou os 100 metros.

Definitivamente ultrapassados estão os primeiros tempos difíceis em Portugal. "Vim para cá porque tinha boas referências do atletismo português. Mas não conhecia as pessoas e não conseguia comunicar. Depois comecei a ler em português, a ver televisão e a tentar entender os meus colegas, além de frequentar aulas de Português. Sabe que quando queremos muito uma coisa conseguimos sempre os nossos objetivos! E hoje posso dizer que falo e percebo português muito bem", sublinha a atleta, que nos últimos tempos passou a trabalhar mais diretamente sob alçada do treinador Rui Norte.

A paixão pelo atletismo surgiu de forma natural na sua vida. "A minha mãe, que infelizmente já faleceu, sempre praticou atletismo e o meu pai era maluco por todos os desportos, fazia atletismo, judo, natação, tudo o que conseguisse... Comecei a praticar atletismo no desporto escolar, depois parei um pouco e foi a partir de 2008 que me comecei a dedicar mais a sério à modalidade", conta. Quando questionada sobre quais são os seus pontos fortes e fracos como velocista, remete-se ao silêncio. "Ah! Não vou dizer isso num jornal! E se as minhas adversárias lerem?", atira.

No Rio de Janeiro, em agosto, Lorène vai também competir nos 200 metros. Mas antes tem a estreia nos Europeus, em Amesterdão (6 a 10 de julho). Por isso, os Jogos Olímpicos ainda não lhe tiram o sono. "Se já estou ansiosa? Não, não, até lá tenho o Meeting de Lisboa, o campeonato de Portugal e outras competições. É importante continuar a trabalhar e a fazer boas marcas, para aparecer em forma no Rio", diz Bazolo.

[correção: Lorene Bazolo melhorou o recorde anterior de Lucrécia Jardim em nove centésimos de segundo e não nove segundos como erradamente referia uma versão inicial do texto]

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