1986: Eis Maradona

No Mundial do México, Portugal caiu na primeira fase, numa campanha marcada pelo famoso caso Saltillo

Grandes craques, grandes equipas e grandes golos numa concentração rara de talento, virtuosismo e finalizações para a eternidade. Ainda assim, nunca se viu nada como Diego Armando Maradona, simplesmente D10S, num desempenho individual no torneio jamais igualado na história dos mundiais. A Argentina foi rebocada por El Pibe até ao título na final com a Alemanha, no regresso da competição ao México apenas 16 depois (por desistência da Colômbia). Enquanto o planeta do futebol celebrava, talvez, o melhor mundial da história, Portugal apurava-se vinte anos volvidos, mas para sair pela porta dos fundos com o estrondo do caso "Saltillo".

O Brasil era uma constelação de estrelas (Zico, Falcão, Júnior, Muller, Alemão ou Leão), tal como quatro anos antes, mas reforçada por Careca (cinco golos; em 87 juntar-se-ia a El Pibe no Nápoles para dar títulos ao clube italiano) e o desempregado e desconhecido Josimar. Assinou dois golos memoráveis na primeira fase, frente à Irlanda do Norte e à Polónia. De "placa" (Pelé marcou um golo tão bonito no Maracanã, no triunfo do Santos sobre o Fluminense, por 3-1, que decidiram dedicar-lhe uma placa).

Mas este mundial era provavelmente a primeira parada de estrelas planetária: era olhar para Itália (Bergomi, Cabrini, Scirea, Vierchowod, Ancelotti, Baresi, Tardelli, Conti, Vialli, Paolo Rossi e Serena), França (Bats, Amoros, Luis Fernández, Platini, Giresse, Tigana ou Papin), República Federal da Alemanha (Briegel, Brehme, Littbarski, Matthaus, Voller, Magath, Rummenigge, Augenthaler, Olaf Thon, Klaus Allofs ou Dieter Hoeness), Espanha (Zubizarreta, Camacho, Gordillo, Butragueño, Salinas ou Michel) ou a "Dinamáquina", ou Dinamarca (Morten Olsen, Soren Lerby, Jan Molby, Jesper Olsen, Preben Elkjaer Larsen, Michael Laudrup, Allan Simonsen ou Frank Arnesen). E sem esquecer a Inglaterra do treinador Bobby Robson, que na década de 90 passaria por Sporting (1992/94) e FC Porto (1994/96, iniciando a série do penta): Peter Shilton, Glenn Hoddle, Brian Robson, Ray Wilkins, Mark Hateley, Gary Lineker, Chris Waddle, John Barnes ou Peter Beardsley. Ufa, tanta estrela justificada pelo valor intrínseco do futebol que praticavam.

Foi a estreia do modelo competitivo mais próximo do atual: fase de grupos (apuravam-se os seis primeiros e segundos e os melhores quatro terceiros classificados), estreando-se os oitavos-de-final, seguidos dos quartos e meias, antes do jogo de atribuição de 3.º e 4.º lugar e da final.

O que encantava, além do surgimento da 'ola' mexicana (importada do beisebol americano), era tanta vedeta, tanto craque, tanto futebol. E a Argentina a atropelar a concorrência com golos fenomenais. Destaque para três de Maradona: os dois à Inglaterra (2-1, respondeu o melhor marcador do torneio Gary Lineker, que fez seis golos) nos quartos-de-final (a mão de Deus e a cabeça de Maradona; e o golo do século, em que em onze segundos partiu do próprio meio campo, passou por seis adversários e encostou para as redes) e um dos dois à Bélgica (2-0) nas meias-finais (em que fintou meia equipa até finalizar com subtileza, mimetizando o golo do século) - este encontro teve Carlos Valente como fiscal-de-linha do mexicano Márquez Ramirez, tendo o árbitro luso apitado o Hungria 0-3 França da fase de grupos. No total, Diego marcou cinco golos e fez cinco assistências.

A última foi também a do último golo do torneio: Brown e Valdano deram uma vantagem confortável aos albicelestes, mas Rummenigge e Voller empataram a dez minutos do fim. Só que, logo a seguir, D10S encontrou Burruchaga e este bateu Harald Schumacher. E a Argentina sagrava-se bicampeã mundial em oito anos. À 13.ª edição, ultrapassava Inglaterra, igualava Uruguai e Alemanha e ficava a um dos tricampeões Brasil e Itália.

A França, que eliminara a campeã do mundo Itália nos oitavos-de-final (2-0) e o Brasil nos quartos (1-1, 4-3 nos penáltis), não resistiu à RFA no acesso à final (0-2), mas acabou em 3.º ao bater, por 4-2 após prolongamento, uma talentosa Bélgica (de Pfaff, Gerets, Vercauteren - treinou o Sporting há uns anos -, Enzo Scifo, Vandenbergh, Ceulemans e Stéphane Demol).

A extensão do campeonato português

Portugal chegou ao México após uma vitória épica em Estugarda, por 1-0 (golaço de Carlos Manuel), iluminada pelo "deixem-nos sonhar" do selecionador José Torres. E se começou bem (1-0 à Inglaterra, Carlos Manuel), acabou pior, com derrotas frente a Polónia (0-1) e Marrocos (1-3) para acabar em último num dos grupos que apurou três equipas para os oitavos.

Pior, ainda, foi a imagem transmitida pelo caso "Saltillo", com greves dos jogadores, conflitos entre estes e os dirigentes, uma expressão de amadorismo total que manchou a imagem de Portugal.

Ainda assim, este mundial tornar-se-ia numa extensão do campeonato português. O guarda-redes polaco Jozef Mlynarczyk e o avançado Rabah Madjer já estavam no FC Porto, para onde viria nesse verão o brasileiro Casagrande e dois anos depois o lateral Branco. O mexicano Negrete passaria brevemente pelo Sporting ainda neste ano (numa equipa que tinha o médio Javier Hernández, pai de Javier Hernández Balcázar, Chicharito, que vai este ano joga o terceiro mundial pela tricolor; antes de pai e filho, jogou o sogro e avô: Tomás Balcázar disputou o Mundial 1954). Mas outros acabariam por transferir-se para Portugal, como os brasileiros Elzo (Benfica, 87/89), Valdo (Benfica, 88/91 e 95/97) e Silas (Sporting, 88/90), os marroquino Aziz Bouderbala (Estoril, 92/93) e Mustafa El Biyaz (87/88) ou o guarda-redes uruguaio Rodolfo Rodríguez (Sporting, 88/89). Mas da Bulgária, veio um terço dos 22 convocados: Borislav Mikhailov (Belenenses, 89/91); Petar Petrov (Beira-Mar, 89/93); Ayan Sadakov (Belenenses, 89/91); Stoycho Mladenov (de 86 a 94: Belenenses, V. Setúbal, Estoril e Olhanense); Zhivko Gospodinov (Fafe, 89/90); Plamen Getov (Portimonense, 89/91); Radoslav Zdravkov (de 86 a 92: brilhou no Chaves e passou por Braga, Paços e Felgueiras); e Kostadin Kostadinov (este passou pelo Braga em 87/88, não confundir com Emil, no FC Porto após o mundial seguinte). Isto já para não mencionar os capitães de Espanha e Escócia, José Antonio Camacho e Graeme Souness, que posteriormente seriam treinadores do Benfica.

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