1970: A eternidade do Brasil (e de Pelé e Zagallo)

Com o Estádio Azteca lotado, Itália e Brasil defrontaram-se na final. Quem vencesse levava a Taça Jules Rimet, porque chegaria ao tricampeonato. O Brasil foi perfeito

Brasil: Félix; Carlos Alberto (capitão), Brito, Wilson Piazza, Everaldo; Clodoaldo, Gelson, Rivelino; Jairzinho, Tostão e Pelé. Um conglomerado de artistas. O México 1970 foi um dos mundiais mais espetaculares da história, e com muitas novidades regulamentares. Valeu a eternidade ao Brasil e a Pelé com expressão máxima de arte no futebol e o tricampeonato (o Rei esteve em todos os triunfos canarinhos: 1958, 1962 e, agora, 1970). E Zagallo tornou-se o primeiro a ganhar como jogador e treinador.

Pelé? Sim, Pelé que aos 29 anos atravessava uma debilitada forma física na antecâmera da Copa. E que depois de dois torneios incompletos devido a lesão (1962 e 1966), ameaçara não voltar aos campeonatos do mundo - só em 1969, depois de uma primeira hesitação, aceitou juntar-se ao escrete. E tendo voltado numa equipa repleta de artistas (sobretudo os seis do meio campo para a frente), sobressaía como o prodigioso líder espiritual e competitivo.

No primeiro mundial fora do eixo América do Sul-Europa, o México acolheu jogos memoráveis e foi território de eternidade para o Brasil, que, de acordo com as regras da FIFA, tinha direito a ficar com o original troféu Jules Rimet (a partir de 1974 a nova taça designar-se-ia FIFA World Cup Trophy - Troféu Mundial da FIFA). Irónico, a taça foi roubada em 1983 e, julga-se, terá sido derretida (era em ouro maciço). Em 1986, a FIFA entregou uma réplica ao país do verde e amarelo, mas em 2015 descobriu-se nas catacumbas do organismo em Zurique a base do troféu original, com a inscrição dos campeões até 1950 (Uruguai, 1930 e 1950; e Itália, 1934 e 1938).

Fora deste mundial moderno, transmitido em tecnicolor (a cores, vá, mas ainda de acesso restrito), em que foram introduzidos os cartões amarelo e vermelho (concebidos pelo árbitro Ken Aston, o da infame "Batalha de Santiago", entre Chile e Itália em 1962) e duas substituições por equipa, ficaram ilustres seleções como as de Portugal, Espanha, França, Hungria e Argentina (a única vez em que falhou o apuramento). Mas teve como novidade Israel, apurado na qualificação asiática, até nunca mais. O árbitro Saldanha Ribeiro apitou o Bulgária 1-1 Marrocos (teve como fiscal-de-linha o mundialmente famoso Tafiq Baharamov - o do golo sancionado à Inglaterra na final de 1966) e foi fiscal-de-linha no Alemanha Ocidental 5-2 Bulgária (jogo com mais golos do México 1970), ambos da fase de grupos.

Verde e amarelo e guarda-redes

Com muita qualidade a ser exibida nos relvados mexicanos, destacaram-se Uruguai, Brasil, Itália e República Federal da Alemanha (RFA). A campeã Inglaterra tentou gerir os jogadores mais velhos e foi punida nos quartos-de-final. No primeiro de três jogos que entraram para a história dos mais espetaculares da história.

Antes, com quatro dias de folga até ao encontro, os ingleses decidiram ir descontrair e jogar golf para o Guadalajara Country Club, que cobrava uma joia anual equivalente a 21.600 euros atuais. Uma cerveja desgraçou Gordon Banks, que já tinha entrado para a história na fase de grupos com a "defesa do século" na derrota frente ao Brasil (0-1, Jairzinho): Pelé cabeceia com estrondo à entrada da pequena área, a bola sai fulminante e "como mandam as regras" bate no chão e sobe em direção ao imparável golo. Errado: Banks, como um raio, atira-se para a direita e com uns reflexos de relâmpago, sacode com a mão por cima da barra.

Depois, a tal cerveja que uma hora e meia depois deixou Banks derreado, com dores abdominais insuportáveis. Junte-se uma viagem de cinco horas de autocarro sem ar condicionado entre Guadalajara e Léon, onde defrontaram a RFA (que tinha feito a viagem de avião, contrariando as indicações que recebeu a federação inglesa: a pista era muito pequena para aterrar o avião da comitiva). E Banks acabou para o mundial.

Peter Bonetti foi para a baliza no eletrizante Inglaterra - RFA. Os ingleses chegaram ao 2-0 aos 49", mas Beckenbauer liderou uma equipa alemã maravilhosa (Sepp Maier, Vogts, Seeler, Overath e Muller). O defesa fez o 1-2 e Seeler levou o jogo para o prolongamento. Aí, "Der Bomber" Gerd Muller decidiu o encontro, numa reviravolta épica a remeter vagamente para a de Portugal frente à Coreia do Norte em 1966 (de 0-3 para 5-3). Muller que foi o goleador do torneio, com dez golos.

Nota ainda para o Peru, que tinha um jovem de 19 anos a despontar: Teófilo Cubillas marcou cinco golos e repetiria a proeza oito anos volvidos na Argentina (precisamente a equipa que os peruanos eliminaram para chegar ao México). Entre 1974 e 1976, Cubillas foi herói do FC Porto, com 65 golos em 108 jogos.

Nas meias-finais, outro jogo para a eternidade: o Itália 4-3 Alemanha. Boninsegna adiantou os italianos (8"), mas Schnellinger empatou sobre os 90" e levou a partida para um prolongamento louco. Muller adiantou os germânicos, Burgnich e Riva deram a volta, Muller voltou a empatar (3-3) e logo a seguir Rivera deu a final à Itália. Épico, épico foi o espírito de sacrifício de Franz Beckenbauer, que jogou grande parte dos 120 minutos com o braço imobilizado devido a uma lesão no ombro.

E com o Estádio Azteca lotado, Itália e Brasil defrontaram-se na final. Quem vencesse levava a Taça Jules Rimet, porque chegaria ao tricampeonato. Mas o Brasil foi perfeito, Pelé marcou o 12.º golo em mundiais (ao inaugurar o marcador), a Itália ainda resistiu e empatou (Boninsegna), mas o escrete foi irresistível na segunda parte: Gerson, Jairzinho e Carlos Alberto (um belo golo com um remate na passada após assistência de Pelé). O 4-1 final demonstrava o nível inatingível do Brasil e confirmava Mário Zagallo como homem dos mundiais: ganhou como jogador em 1958 e 1962, ganhava agora como treinador no México 1970. Ainda havia de ganhar em 1994 como adjunto de Carlos Alberto Parreira (que no México foi preparador físico) e voltar ao comando da seleção em 1974 e 1998 (vice-campeão), voltando como adjunto em 2006. No total, esteve em cinco finais em sete participações.

Acima dele, só Pelé, único jogador da história tricampeão mundial e, a par do grande avançado alemão Uwe Seeler (9 golos no total), a marcar em quatro fases finais (12 golos no total).

Nota final: já aqui se falou de Félix (Brasil, e não era a regra "gordo vai à baliza": foi decisivo frente a Inglaterra e Uruguai), Sepp Maier (RFA) e Gordon Banks (Inglaterra), não se referiu Enrico Albertosi (Itália), que tinha no banco o "jovem" Dino Zoff (titular no título europeu de 1968, seria campeão 12 anos depois no Espanha 1982). Falámos destes todos e falta mencionar aquele que foi considerado o melhor do Mundial 1970: o uruguaio Ladislao Mazurkiewicz. Ele que nas meias-finais quase sofreu o golo do século, quando Pelé, com uma finta de corpo, retirou o adversário da frente, mas acabou por rematar ao lado. "Fiz o suficiente para o manter longe do golo", brincou posteriormente Mazurkiewicz.

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