David Thompson: O chef que fez o melhor restaurante da Ásia

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Abro a

caixa e vejo um e-mail do chef: "Virei a conduzir de Hua Hin depois

de uma dieta detox e devo dizer-te que só irei comer legumes.

Infelizmente. David." Não percebi se também se aplicava a mim,

mas respondo que não tenho problema com isso. Tenho comido tanta

coisa estranha recentemente que talvez um detox também me fizesse

bem.

Uns dias

mais tarde recebo outra mensagem. "Comi apenas três pedaços de

couve-flor cozida ao vapor na noite passada e hoje uma taça de

lentilhas. Tão pouca comida só me faz ter vontade de regressar. Oh,

meu Deus, não vejo a hora de fazer a entrevista para poder comer

novamente comida saborosa!"

Esqueci

rapidamente o detox.

Na semana

seguinte encontrámo-nos finalmente no seu restaurante Nahm, em

Banguecoque. Fico feliz quando me pergunta se prefiro peixe ou carne.

"Qualquer coisa", digo, "também gosto de legumes" - tento

ainda assim mostrar alguma solidariedade com a sua escolha. "Estou

farto de legumes", desabafa, "mas sei que me está a fazer bem."

E por isso vai continuar.

"Podes

comer picante?" Respondo que sim, mas acrescento imediatamente:

"Não sei quanto aguento." Tenho percebido que a comida daqui é

bastante mais condimentada do que estou habituado e tenho receio de

acabar lost in translation.

"Deixa-me

trazer-te vinho. Branco ou tinto? Não sei. "Que vinhos combinam

com esta gastronomia?" Desconheço a harmonização com a comida

tailandesa. Os ocidentais têm tendência para beber branco com tudo

o que é picante, mas pode ser um engano. Eu até prefiro tinto.

O chef

resolve-me a dúvida: "Tu tratas das perguntas, eu da comida."

David é

uma carta fora do baralho. Um chef australiano que se apaixonou pela

cozinha tailandesa e se transformou no seu mais conhecido embaixador

e defensor. "É uma das culturas culinárias mais ricas e diversas

do mundo. Devia ser Património Cultural Imaterial (Unesco), porque é

tão boa como a francesa, tão boa como a chinesa", dir-me-á.

Ele sabe do

que fala. O seu Nahm foi eleito este ano n.o 1 na lista dos Asia"s

50 Best Restaurants, a edição regional dos The World"s 50 Best

Restaurants Awards. É de esperar que a enorme vitalidade e

competitividade da região se faça notar cada vez mais. Como

comentou o editor da revista Restaurant, William Drew, responsável

pela lista: "A entrada de dez restaurantes este ano sublinha a

criatividade, variedade e sofisticação do panorama culinário

asiático."

Chega o

vinho. Um Pinot Noir da Nova Zelândia que se irá revelar ótima

companhia. Servem-me um pequeníssimo aperitivo. Maho: porco picado,

galinha, açúcar de palma, ervas frescas e alho por cima de um

triângulo de ananás. Come-se à mão. "De alguma forma resume o

que a cozinha tailandesa representa: doce, ácido, salgado, picante."

Achei uma ótima forma de começar. Não só porque nos seduz

imediatamente mas também porque nos deixa despertos para uma

característica que se irá manter todo o almoço. Vários

ingredientes e sabores que se completam, nunca um só. Como diz o

chef, "se há palavra que define a cozinha tailandesa é

equilíbrio. É isso que tentam alcançar, senão na política (nesse

dia tinham recomeçado protestos contra o governo com distúrbios e

manifestações por toda a cidade), decerto na cozinha".

Vêm os

legumes. "A minha refeição", sorri resignado, "legumes

salteados, cogumelos e ervas frescas".

Para mim

trazem canapés que o chef me ajuda a identificar. "Bolacha de

camarão com gengibre e rebentos de soja, caranguejo, ervas ácidas e

peixe salgado com manga verde e gengibre. Também pedi peixe ao vapor

com tapioca." Provo algumas das coisas. "Isto é picante!"

"Médio picante", diz o chef.

Sempre quis

saber uma coisa: "Isto não vai influenciar todo o meu sabor

depois?" "Não", responde-me, "vai desaparecendo". Se for

muito picante demora mais, claro. Geralmente quanto mais pequeno o

chili, mais picante é. "Estes tailandeses mais pequenos são

razoavelmente picantes, rondam os cinco mil na escala de Scoville"

[as Scoville Heat Units (SHU) medem a pungência em quantidade de

capsaicina no chili].

Mas isto

não é nada. David conta--me que ia morrendo ao comer um que estava

perto de um milhão SHU. "Era como metal a ferver a martelar-me a

língua. E cada vez mais picante. Durante 45 minutos não conseguia

concentrar-me. Não conseguia falar." Os tailandeses da sua brigada

na cozinha só riam. A sua credibilidade estava a ser posta em causa

até que os obrigou a provar o mesmo chili. "Desataram a correr

pela cozinha como idiotas. Um dos cozinheiros, no chão, só gritava

"chamem uma ambulância". Tive de fechar o restaurante nesse

dia." O chili em causa chama-se ghost chili, o que sugere quanto

nos aproximamos da morte ao comê-los. "Este doce vem de quê?",

pergunto. "Açúcar. Há uns 60 tipos. Está em todos os

condimentos; qualquer prato tem uma componente de açúcar." É

algo que faz confusão a um ocidental mas ali tem razão de ser.

Aponto para

um dos pratos e pergunto o que é. "É um prato muito antigo. Faço

muita pesquisa sobre receitas antigas. Este é doce, salgado e

fumado." Há receitas escritas de cozinha tradicional tailandesa ou

é sobretudo uma tradição oral? "Mais oral. Deixa-me ir buscar um

livro antigo, volto num minuto."

Quando

alguém morria, sobretudo nas famílias importantes, fazia-se um

livro sobre essa pessoa. Um livro de memórias encadernado onde se

contavam as histórias do falecido, os seus interesses e hobbies. E,

como seria de esperar numa sociedade que dá tanta importância à

cozinha, as suas receitas. David tem centenas. A sua ambição é um

dia fazer uma livraria digital do maior número possível de livros

como esses, para que as receitas não se percam.

"Este é

um dos primeiros livros de cozinha escritos neste país e, quando se

vai tão atrás, é puro. Conta a história desta senhora e, claro,

as suas receitas." O prato em causa - um caril mussaman com carne

de vaca, batata doce e cebolas - era uma interpretação de uma

delas.

Inquiri o

chef sobre como tinha começado o seu interesse pela cozinha. "A

minha mãe era a pior cozinheira do mundo." Estranha forma de

começar, pensei. "Mas eu sobrevivi à sua cozinha. Era comida

convencional australiana, que é comida anglo-céltica, pior que a

comida inglesa, pior do que a irlandesa. Às vezes penso que uma das

razões por que saltei para a cozinha tailandesa foi para escapar

daquilo [risos]."

O chef tem

um sentido de humor peculiar que se irá revelar durante a tarde. É

seco, direto, diverte-o deixar-nos fora de pé. As subtilezas do

sentido de humor são das coisas que mais nos confundem no

entendimento entre culturas. Mas também as que abrem mais portas a

conversas interessantes. Foi o caso.

De vez em

quando um empregado aproxima-se e o chef fala em tailandês com ele.

Como me dirá mais tarde, aquele país é a sua casa. Mas eu puxo-o

de novo para a Austrália. Sempre tive curiosidade sobre aquele

pedaço do mundo e fascínio pela ideia de vastidão, natureza e

encontro de culturas que penso lá haver. Como evoluiu a cozinha

australiana? David enquadra os comentários numa perspetiva

histórica. É sempre assim que vê as coisas. "Depois da II Guerra

Mundial, europeus de norte e sul chegaram à Austrália e trouxeram

muitos novos hábitos. Somos um país muito diverso e fértil, seco

no centro, mas temos manga e fruta tropical em Queensland, neve na

Tasmânia e trufas no oeste. Um lugar que esteve muito tempo nas

algemas de um país bastante puritano, que tinha coisas boas -

estradas, escolas, um governo decente - mas comida miserável. Não

se pode discordar. A imigração trouxe novos ingredientes e ajudou a

dissolver aquela comida horrível com a chegada do delicioso sol

italiano ou do picante vietnamita."

Gregos,

também? "Sim, claro. Por isso assistimos a uma erosão lenta da

cultura anglo-céltica que começou nos anos 70, continuou nos 80 e

agora já desapareceu. E hoje temos esse elemento multicultural, na

sociedade e na cozinha. Talvez porque não houvesse uma cultura

suficientemente entrincheirada que não pudesse ser alterada pela

comida. Isso está a acontecer noutros países. Até Inglaterra está

a mudar."

"Mas

Londres sempre foi muito global", comento. "Nas ruas, não

necessariamente em casa", diz-me.

Cheira-me a

arroz desde que entrei. Um cheiro intenso, maravilhoso. "É de

Surin, norte da Tailândia. É cozido em água de jasmim e muito bem

cuidado." O arroz representa cerca de 60% de uma refeição

tailandesa. Numa família pobre talvez, 90%. "É essencial ser de

qualidade."

Quem será

o ator secundário, quem será o principal?, pensei.

"Estava

ansioso por mudança, era uma bomba-relógio genética que explodiu

aos 22 anos. Fiquei obcecado por comida - então a francesa."

Vêm mais

pratos.

"Sopa Tom

Yum, um condimento feito com gambas picadas e chalotas que comes com

estes legumes. Bochecha de porco grelhada e salada de pennywort

(centella asiática) com gambas. E porco salteado com camarões

secos, beringelas, maçã e chili."

Não sei

por onde começar. "Não há uma sequência definida para comeres.

Nunca. É como te apetecer."

Começou a

cozinhar mas "era terrível". Decidiu ir para a escola mas também

não era grande aprendiz. O seu espírito rebelde levava-o a

desconsiderar o que as pessoas lhe diziam. E tinha sempre questões a

levantar. Comentei que a curiosidade é um elemento fundamental na

cozinha mas o chef lembra que a cozinha não é uma democracia

liberal onde as perguntas são encorajadas. "É uma ditadura que

não aprecia perguntas, especialmente vindas de um jovem naïf e não

muito habilidoso."

Refiro que

a alta cozinha tem um lado criativo e um lado de produção e neste o

estilo ditatorial tende a dar-se melhor. "Tens de executar. É um

negócio também. Não é só habilidade ou arte, é também um

negócio. E é a combinação dos três que faz desta uma profissão

tão difícil." E não é grande negócio, pois não? "Não.

Consegues uma margem de 5%, 10% se tiveres sorte", responde.

Continuo a

provar aleatoriamente os pratos. "Não importa se tudo se mistura,

a ideia de uma refeição tailandesa é que cada prato funciona

juntamente com os outros. Não há pratos isolados. É um exercício

de equilíbrio. Não necessariamente em harmonia, pode ser por

contraste."

Estamos a

falar de comida, mas quem nos ouvisse podia pensar que estávamos a

debater geopolítica. "A cozinha ocidental é como jogar damas, ao

passo que a cozinha tailandesa é como o xadrez. Olhar para os

pratos, sabores, texturas e condimentos, não individualmente mas na

sua relação com tudo o resto."

Nos seus

dois primeiros empregos em Sydney, David passa alguns anos a aprender

em diferentes cozinhas - "de forma bastante incompetente, diria".

Ainda consegue entrar em alguns dos melhores restaurantes da cidade,

"mas topavam-me logo" - o humor autodepreciativo é um traço

constante do chef, e funciona: desarma e conquista a nossa simpatia.

Em 1986 vem

pela primeira vez à Tailândia, em férias. "Fiquei seduzido pelo

lugar, pelo caos, pela escala."

Comento que

o arroz é reconfortante, dava para se comer só arroz. "Mas é um

bom arroz. O arroz é um pouco como o pão." Deve ser por isso. Eu

adoro pão.

David

continua a contar-me o seu enamoramento por este país. "Gostei da

ideia de ser tão diferente da Austrália segura, lógica, fiável."

De tal forma que decidiu que queria viver ali. Mas não fica. Só

volta em 1988, "no Dia da Austrália, curiosamente". Com a ajuda

dos pais, trouxe poupanças que lhe dariam para dois ou três anos.

Mas a adaptação não foi fácil, as diferenças eram muitas e com o

dinheiro a acabar decide voltar. Estamos em 1990.

Sente-se

arrependido? "Não, faz parte da viagem [da vida]. Nunca teria

feito o que fiz se não tivesse estado aqui. E descobri que a minha

vida não é de fazer planos, olho para trás e parece fazer sentido,

mas na altura não sabia o que esperar ou como as coisas iriam

acabar."

"Eu tinha

a ideia de que a comida tailandesa tinha pouca qualidade." O que

mudou? "Encontrei esta senhora mais velha, cozinheira de habilidade

extraordinária. Foi uma revelação, a elegância com que cozinhava.

Então fui para casa dela e comecei a cozinhar, porque as coisas que

comi feitas por ela fizeram-me perceber que a comida tailandesa era

muito mais do que a cozinha simples e fácil das ilhas Phi Phi."

O toque de

ironia era para mim. Tinha comentado a sopa Tom Yum que comi pela

primeira vez numa praia daquelas ilhas, dias antes.

"Para o

tailandês a comida é indispensável, um traço cultural. O sentido

de compromisso, hospitalidade e generosidade foi sempre expresso pela

comida. Também devido à religião: não há problema em desfrutar

das coisas boas, não há pecado. Não há prescrição contra o

prazer no budismo como há no cristianismo." Ainda assim, de

regresso à Austrália o primeiro restaurante que abre é de comida

ocidental. "Mas porque gostava tanto de comida tailandesa, fazíamos

umas noites tailandesas, e de repente as pessoas faziam fila à porta

- e eu pensei, porque não?"

Subitamente

sinto que comi algo superpicante. "O que comeste? Estes chilis

gémeos?" Eu estou a tentar sobreviver, só consigo acenar.

"Fantástico,

posso falar à vontade", diz. Não estou em condições de o

contradizer, correm-me lágrimas pela cara, tenho um vulcão nos

ouvidos. "É de cortar a respiração, não é?", comenta,

divertido com a minha aflição.

Pouco tempo

depois houve um boom de comida e bons restaurantes em Sydney. David

abre o Darley Street Thai e mais tarde o Sailor"s Thai, que veio a

ser, nas palavras dele, "um restaurante bastante bom, com muito

sucesso".

Na altura

tinha sete ou oito pessoas na cozinha, aqui são 30. "Não

conseguiria fazer este restaurante com menos; podia fazer street food

mas nunca isto. É demasiado especial."

"Já

recuperaste?" Quase...

Em 2000 vai

para Londres, onde fica dez anos. Abre o primeiro Nahm no Halkin

Hotel. "Muito upmarket." Correu tão bem, que conquistou a

estrela Michelin - foi o primeiro restaurante tailandês a

consegui-la.

"Melhor?"

"Sim já passou." "Teve piada, foi divertido ver-te assim."

Estamos a

chegar às sobremesas. O chef pergunta-me "Já comeste durian?"

Respondo que não. E olho com espanto para a quantidade de comida que

chega. Um dos doces lembra o nosso doce de ovos. "Algumas

sobremesas tailandesas têm origem portuguesa. Este é foy thong. A

mulher que o introduziu aqui era meio portuguesa meio japonesa."

Aproveito a deixa. David esteve no Vila Joya para o International

Gourmet Festival. Com que impressão ficou de Portugal?

"Despreocupado; um lugar lindo, sedutor e despreocupado.

Especialmente Lisboa, uma cidade entusiasmante e charmosa. Adoro as

cores das casas de Alfama e como as colinas se deitam preguiçosamente

sobre o rio de prata." Provo um cupcake de coco. Também muito bom.

"Prova agora o durian, é a fruta mais famosa do mundo." "Meu

Deus!" - o cheiro é insuportável e o sabor indissociável do

mesmo. "Presumo que não gostaste... Para mim é das coisas mais

deliciosas que posso comer." "Eu não gosto mesmo nada." Ele

fica a olhar para mim fixamente. "Desculpa, mas não tenho jeito

para mentir", justifico-me. "Isso não é bom para um jornalista.

Ou um publicitário..." "Talvez aprenda a gostar, mas à primeira

é difícil", digo, pondo água na fervura. "Não, está no teu

ADN. Ou se adora ou se odeia, é instantâneo."

Fico mais

descansado. "Então isto não faz de mim a pior pessoa do mundo?"

"Aos meus olhos, sim. [faz uma pausa] Lamento, esta entrevista está

terminada." Contém-se uns segundos e solta uma gargalhada. "Vou

pedir algo que gostes."

Mudamos de

assunto, descubro que o Nahm de Londres teve de fechar porque as

normas da UE proibiram a entrada na Europa de 70% dos ingredientes

que usavam por falta de rastreabilidade. E que o basílico tailandês,

por exemplo, passasse de 8,40 a 40 libras/kg. "É como se perdesses

70% do teu vocabulário." Mas isso fez que voltasse "a casa",

abrisse este Nahm e fosse eleito o melhor restaurante da Ásia.

Ocorre-me

uma palavra inglesa que ajuda a descrever a sua vida e o seu

percurso: serendipity. É uma das dez mais difíceis de traduzir.

Refere--se a descobertas inesperadas que se fazem por sorte ou acaso.

verdade. Embora eu não seja da ilha de Serendip fui-me cruzando com

as coisas por acaso. Qual era a história do príncipe que foi à

procura de uma mulher, encontrou outra e casou? Ele era do Sri

Lanka..." Pesquisa a palavra no telefone: "Foi cunhada pelo

escritor Horace Walpole, é inspirada numa lenda persa sobre os três

príncipes de Serendip que estavam sempre a descobrir, por acaso ou

sagacidade, coisas que não procuravam. Serendip é a designação

antiga de Sri Lanka", lê-me.

Se tivesse

continuado, iria ler que temos de estar disponíveis para o acaso,

criar condições para que ocorra, estar atentos para descobrir.

David nasceu com essa predisposição.

Chega nova

sobremesa. Um pudim de cinzas de coco delicioso, com banana e creme

de coco fresco perfumado com flores de jasmim. "Esta eu adoro!"

"Isto não

é só um negócio, é dar mais. A cara que fizeste ao provar o pudim

de coco, é isso que queremos de um cliente." Chegam por fim os

petit fours e um café. Levo um à boca e comento que me faz lembrar

algo de quando era criança. Serendipity?

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