A complexidade política e geopolítica do mundo em que vivemos tem encontrado eco em muitos filmes contemporâneos das mais variadas origens (geográficas e culturais). Não é, entenda-se, um fenómeno que se esgote em narrativas de “tese”, já que encontramos algumas das suas variações em espectáculos genuinamente populares — exemplo esclarecedor, ao longo de mais de seis décadas, poderão ser as aventuras de James Bond. Resta saber se cada filme possui ideias para lidar com tal complexidade ou se se limita a inventariar sinais dispersos das respetivas manifestações: o exemplo de Yunan, realizado por Ameer Fakher Eldin, aí está para relançar tais questões. No seu centro encontramos a personagem de Munir (Georges Khabbaz), um escritor sírio exilado que descobrimos num impasse de extrema solidão. Mais do que isso: o desenraizamento que se pressente em todos os detalhes da sua existência alimenta impulsos suicidas. Ao procurar um lugar de repouso numa ilha remota, aluga um quarto numa casa isolada, dirigida por Valeska (Hanna Schygulla), começando a viver uma rotina de escassas palavras e muitos silêncios quotidianos... Se é pertinente ligar este universo dramático à trajetória pessoal do realizador, talvez possamos dizer que a sua experiência não será estranha aos temas do exílio. Radicado na Alemanha, nascido em 1991, na Ucrânia, filho de refugiados sírios, Ameer Fakher Eldin criou com este Yunan aquele que será o segundo título de uma trilogia ainda incompleta — o seu tema: os exílios no mundo contemporâneo, precisamente. A primeira longa-metragem dessa trilogia, The Stranger, entrou na corrida ao Óscar de Melhor Filme Internacional de 2021, em representação da Palestina, mas não chegou às nomeações. Infelizmente, a sugestão temática inerente à condição solitária de Munir vai-se diluindo no esquematismo “simbólico” do filme. Pouco ou nada sabemos das raízes dessa condição que, em termos narrativos, tende a ser “figurada” através das desencantadas paisagens que vai percorrendo. Há um interessante labor visual no tratamento dessas paisagens, graças à delicada direção fotográfica do canadiano Ronald Plante. O certo é que a “mise en scène” de Ameer Fakher Eldin parece confundir a mera atitude contemplativa com a criação de uma narrativa consistente — a pontuação com algumas sequências mais ou menos oníricas não deixa de ser sugestiva, mas não resolve os problemas de construção de todo o projeto. .'A Noiva!' Frankenstein em tom feminino .'Maria Vitória'. À procura de um realismo português