Will Smith: o Cristiano Ronaldo das forças especiais

Thriller de ação, com clonagem pelo meio, o Projeto Gemini é um passo em frente na exploração das possibilidades do digital, e (mais) um passo atrás no cinema de Ang Lee. Em estreia.

Depois do Génio da lâmpada de Aladdin, um assassino de elite. Dito de outra maneira, Will Smith não é ator para assumir papéis secundários. Continua a ser a peça central das produções em que se envolve e, desta vez, no tão adiado Projeto Gemini, vem em dose dupla...

Com 51 anos - idade que se faz questão de referir várias vezes ao longo do filme -, o protagonista a que dá corpo, Henry Brogan, é uma espécie de Cristiano Ronaldo das forças especiais, alguém psicologicamente desgastado pela exigência da atividade profissional, e que, apesar da boa forma física, decide estar na altura da reforma. Demasiado cedo.

Assim que a paz começa a entrar no seu quotidiano, o próprio se torna um alvo a abater: ele descobre que a agência para a qual trabalhava tem um segredo obscuro, e esta, por sua vez, não pretende manter vivo o seu mais talentoso sniper. Na companhia de uma bem-parecida e perspicaz agente (Mary Elizabeth Winstead) e do melhor amigo (Benedict Wong), Smith/Brogan vai circular entre o estado da Geórgia, Cartagena e Budapeste, perseguido por um "miúdo" encarregado de o apagar do mapa. Alguém capaz de antecipar todos os seus movimentos, e que não só tem as mesmas feições que ele, como o ADN. Um clone de Will Smith? Está claro que sim. Com todo o valor simbólico que isso pode conter. Em termos visuais, é apenas ele rejuvenescido, a sua versão 2.0.

A origem de Projeto Gemini é coisa antiga, e talvez essa antiguidade passe nas entrelinhas do argumento. Foi escrito em 1997, esteve para ser realizado por Tony Scott, mas, uma vez que a conjuntura tecnológica da época não era propícia à concretização da ideia, só em 2016 é que ficou garantido o seu avanço pelas mãos de Ang Lee. O que, de facto, bate muito certo com os últimos trabalhos deste taiwanês convertido à doutrina de Hollywood. Veja-se a sofisticação do 3D de A Vida de Pi (2012) e sobretudo o mais recente, e inédito nas nossas salas, Billy Lynn"s Long Halftime Walk (2016), que utiliza parte da mesma tecnologia por detrás da inovação de Projeto Gemini - o 3D+ em HFR (High Frame Rate). Trata-se de um formato digital com uma velocidade de 120 fotogramas por segundo (mais do que o olho humano consegue apanhar), que o marketing vende como uma ímpar experiência imersiva... Bem, temos algumas dúvidas quanto a isso.

É verdade que a curiosidade técnica de Lee já se manifestava no início do milénio, e com bons resultados, na coreografia da ação do oscarizado O Tigre e o Dragão (2000). Porém, nos casos referidos o que fica em evidência é a falta de harmonia entre os progressos da tecnologia visual e as narrativas que se querem contar através dela. A pecha de Projeto Gemini está nessa enorme estranheza que o efeito ultra HD provoca no espectador, na sua elementar perceção das imagens. Numa descrição possível, parece que estamos mais próximos de uma textura televisiva (ou da suavidade artificial de um desktop do Windows) do que cinematográfica. E esse aspeto importa bastante numa experiência que, por princípio, se queria "imersiva". Acontece que a demonstração tecnológica não é aqui acompanhada de um argumento forte ou sequer impulsionador do método de filmagem. Os clichés da ficção científica tomam conta de algumas situações, as personagens são menos humanas do que funcionais e, para além disto, Clive Owen é um péssimo vilão.

No entanto, há qualquer coisa que resiste em Projeto Gemini, ou seja, que não fica esterilizado pela experimentação digital nem empecilhado por questões narrativas: o ritmo. Ang Lee tem uma verdadeira noção de ritmo, e por vezes até consegue disfarçar a trivialidade de alguns momentos com a cadência certa. Por exemplo, há uma impressionante sequência de ação em Cartagena - com Smith junior a perseguir o Smith "original", ora em telhados, ora de mota - que, pelo ritmo e habilidade de construção, está ao nível das melhores cenas coreográficas de O Tigre e o Dragão. É como se, por alguns minutos, se percebesse o filme que poderia ter sido. Mais tarde, quando o clone de Will Smith aparece à luz do dia, as costuras digitais ficam demasiado à vista, em jeito de metáfora do próprio Projeto Gemini: um disciplinado exército de pixéis que não se conciliam com a luz natural.

** Com interesse

Exclusivos