Viagem aos continentes do cinema. EUA - um episódio Terror

A Viagem aos continentes do cinema começa pela mão de Rui Pedro Tendinha e pelos mestres do cinema de Terror norte-americano.

Numa altura em que Portugal assiste a The Nun - A Freira Maldita, produto da Warner que bateu todos os recordes de bilheteira de um filme de terror entre nós, propomos um olhar ao que de melhor os americanos fizeram neste género a partir do ano 2000. O cinema de terror, nitidamente, ficou mais refém dos embrulhos do marketing e com fórmulas pensadas para os adolescentes, mas não deixa de ser curioso que o mercado em Portugal está mais disponível para este tipo de propostas.

Já lá vai o tempo em que o terror era visto como um género menor e cada vez mais se assiste a um cruzamento com imaginários da ficção científica e do drama psicológico.

Eis uma seleção de filmes que marca o livro de estilo do cinema que mete medo feito nos EUA.

It, de Andy Muschietti (2017)

Stephen King adaptado ao cinema a partir de uma série televisiva dos anos 1980. No caso deste trabalho de Andy Muschietti, é o mesmo que dizer que é adaptar o sentido de pavor do escritor americano ao sabor dos tempos atuais. Pense-se em Stephen King para os "millenials". O filme foi algo empolado pela imprensa americana, mas este novo Pennywise, o palhaço assassino que rapta as crianças de uma pequena cidade idílica, mais do que assustar, fascina. Foi um sucesso monstruoso e era garrida e sem vergonha a apropriação à febre nostálgica de Stranger Things.

A sequela vem já a caminho e tem no elenco Jessica Chastain e Xavier Dolan. Será com toda a certeza alvo de uma operação de marketing com a fórmula da Warner que, desde o sucesso de The Conjuring, se estabeleceu como o estúdio especializado em tornar o terror como espetáculo para todos os públicos, tal como aconteceu com o fraquinho The Nun- A Freira Maldita.

American Psycho, de Mary Harron (2000)

Estávamos no começo do século e do cinema independente americano brotava uma pequena obra-prima do horror, neste caso com óbvio traço literário - adaptava-se com capa de demência humorística e "gore" o romance homónimo de Brett Easton Ellis sobre um executivo "yuppie" da Nova Iorque endinheirada dos anos 1980, que era também psicopata. Um psicopata que refletia uma misogenia muito americana glorificada por uma sociedade que precipitava o modelo do metrossexual.

American Psycho tinha uma estrutura de farsa e a encenação dos crimes de Patrick Bateman divertia ao mesmo tempo que nos gelava o sangue.

Um muito jovem Christian Bale era perfeito no papel onde mostrava a tudo e a todos que era um ator de composição fascinado pelas transformações.

Mamã, de Andy Muschietti (2013)

Se é verdade que um dos problemas do cinema de terror americano são os clichés abundantes e as fórmulas com as mortes a conta gotas e punição final, é extremamente reconfortante quando encontramos filmes fora-da-caixa como este Mamã, um conto gótico feito com elegância refinada, surpresas e uma criatividade desconcertante, onde se desvenda o mistério de um espírito maligno com a sua maternidade mal processada.

Muchietti, produzido por Guillermo Del Toro, como que inventa um estilo, reencenando processos dos filmes de fantasmas sem respeito às regras.

Foi um êxito surpresa na América e deixou plateias com o coração aos pulos.

Exemplo também de uma obra que confia no peso dos atores, neste caso uma Jessica Chastain plena de garra punk numa personagem marcante que parece provir de um filme dramático de cariz realista.

Hostel, de Eli Roth (2010)

Foi com este filme que Eli Roth se tornou protegido de Quentin Tarantino e ganhou fama de iconoclasta do género. O relato de umas férias na Europa de Leste que correm realmente para o torto.

O cineasta criava uma linguagem de terror só dele, algures entre a série B e o sentido de gozo. O subgénero foi baptizado de "torture porn". Pornografia de tortura? Sim, tudo assumido por um cineasta que glorificava sem medo um imaginário de tortura como discurso sobre a própria violência no cinema. Os detratores chamaram-no de imoral ultrapassando todos os limites, mas era por isso mesmo que Hostel se destacava por uma carga perigosa.

It Follows- Vai Seguir-te, de David Robert Mitchell (2014)

O mais Carpenteriano dos filmes de terror do novo cinema americano. O filme que colocou este jovem realizador no mapa (em Cannes deste ano já estava em competição com uma comédia surreal). A história de uma jovem que sente uma presença sobrenatural a atormentá-la depois de ter tido sexo. Vai Seguir-te é um dos muitos filmes que segue a máxima que todo o pecado da carne tem punição. Robert Mitchell filma esse lugar comum com um fulgor inesperado. O chamado cinema de terror com "panache" de arte & ensaio, cheio de ambientes, comedido nos sustos e com uma "mise-en-scéne" capaz de explorar a psicologia das personagens.

The Conjuring- A Evocação, de James Wan (2013)

Está para esta década como O Exorcista esteve para os anos 1970! É o filme mais assustador saído de um grande estúdio em muitos anos - a galinha dos ovos de ouro da Warner, que já originou sequelas e spin-offs (como Annabell ou agora The Nun- A Freira Maldita).

Um casal de investigadores de demonologia depara-se com um caso de um assombramento de uma casa afastada. Nessa casa há um espírito terrível que destrói a vida de uma jovem família.

James Wan percebeu a necessidade de trazer uma estética "seventies" para o género e dar credibilidade narrativa. Um clássico instantâneo.

Saw- Enigma Mortal, de James Wan (2005)

Fenómeno de bilheteira através de um "budget" muito modesto, coisa que se tornou "trendy" nesta década. O conceito é simples: dois estranhos vêem-se presos numa divisão sem se lembrarem como lá foram parar. São figuras de um jogo perverso de um psicopata.

O filme inaugurava uma ideia de terror sádico, sempre à base da tortura e da figura doentia de um assassino-em-série assustador. O filme assustou tanto a América que fez de James Wan um novo especialista do género e originou um sem número de continuações.

Nem Respires, de Fede Alvarez (2016)

A descoberta de outro autor capaz de fazer cinema de terror de qualidade, o uruguaio Fede Alvarez, que com este trabalho conquistou crítica e público. Um filme em que os espaços fechados são a grande atração numa história que nos leva para uma Detroit abandonada, onde três jovens assaltam a casa errada.

Os sustos inteligentes de Alvarez são conseguidos através de grandes ideias de cinema. Don't Breathe fez-nos voltar a acreditar que em Hollywood ainda há quem faça experiências. Um mimo!

A sequela está a caminho.

Get Out- Foge, de Jordan Peele (2017)

O melhor filme de terror do ano passado. Mas Get Out é também um discurso sobre as aparências da América branca e do racismo escondido na América. Foi aos Óscares, fez história e tornou o seu cineasta no nome mais prometedor do novo cinema negro americano.

Foge é uma história irreverente sobre um jovem negro que vai conhecer os pais da namorada branca e encontra um pesadelo. É produzido por Jason Blum, homem de muitos êxitos e que parece saber o segredo para criar filmes baratos que faturam muito. É também o responsável de Halloween, de David Gordon Green, para muitos o mais esperado filme de 2018 neste domínio.

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