A escritora catalã Clara Usón decidiu empreender uma aventura literária que reúne a ficção e a não ficção no romance As Feras, a história de uma militante da organização terrorista ETA que tem no seu currículo 23 assassinatos. Não terá sido por acaso que foi considerada um dos elementos mais sanguinários da estrutura que criou o caos na Espanha dos anos 1980. Também não foi fruto do acaso que a protagonista deste romance, Idoia López Riaño, ficou também conhecida por Tigresa, é que mesmo enquanto realizava os seus atos de violência fazia questão de chamar à atenção com o seu visual sexy.A epígrafe do romance é “Para aqueles que duvidam”, frase que Clara Usón escolheu como entrada para o leitor porque considera que o tema principal é o dogma. Explica: “É um romance com muitos personagens mas o assunto central é uma velha obsessão minha: o dogma. Desta vez o dogma nacionalista, porque esta é uma razão para lutas constantes, perigoso e um inimigo de uma nação. Como o dogma não admite dúvidas, torna-se muito sedutor e resolve vários dos problemas que as pessoas enfrentam”. E referir o dogma como solução tem muito a ver com a protagonista Tigresa, bem como todos os outros que irão surgir no romance, como justifica a autora: “Em nome do dogma, os militantes da ETA afirmavam estar a lutar para libertar a sua pátria e as mortes que provocaram mais não eram do que um legítimo exercício de autodefesa, ou seja, podiam cometer todo o género de atrocidades.”Transformar a Tigresa na protagonista não foi fácil para Clara Usón: “A mulher verdadeira é muito complexa e por isso não posso garantir que tudo o que utilizo na sua construção é verdadeiro. Aliás, ela fez questão de ter várias facetas e as histórias que se contam sobre ela tem partes improváveis e outras incontestáveis, como a de ter matado. Se disso não se pode duvidar, depois vêm muitas outras particularidades que ninguém sabe se são reais ou inventadas. Daí que me permita colocar na construção da personagem os vários detalhes que se foram acrescentando à vida dela, até porque queria que muitos dos testemunhos sobre a Tigresa estivessem no romance e fizessem ouvir as suas vozes. Pode-se perguntar se tudo isto aconteceu, se o que se noticiou à época e o que ela falou era verdade. Ou seja, quis fazer um romance de vozes, onde cada personagem expõe a sua verdade e, depois, cabe ao leitor tirar conclusões.”Para Clara Usón o esquema narrativo que utilizou pode ser inquietante: “Afinal, para alguns leitores há personagens que são assassinos e que para outros leitores serão heróis. É como nas guerras, de um lado o mau e de outro o bom. Foi isso também que gostei de escrever: explorar essas várias facetas das personagens”. Para o conseguir, a escritora garante que tentou evitar a caricatura ou o retrato que se foi fazendo sobre a Tigresa: “Quis mostrá-la como um ser humano, humanizá-la sem justificar os seus atos, porque para mim os romances que se dividem entre bons e maus são mentirosos”.É impossível não perguntar o que há de ficção e de não-ficção no romance As Feras. A autora socorre-se de uma frase do escritor Mario Vargas Llosa: “É na ficção que está a verdade das mentiras”. Em seguida destrinça o que pertence a um género literário e a outro: “A ficção é a melhor forma para descrever uma mulher que matou 23 homens, porque se não for assim como enquadrar o que aconteceu além dos factos conhecidos e dar à personagem os pensamentos que terá tido naqueles momentos. Se não se puder imaginar nada, a história ficará muito árida e é aí que enquanto escritora posso dar o meu contributo. Ao introduzir-me na sua cabeça, estou a fazer ficção para ajudar a esclarecer as suas motivações, os medos e as suas contradições, e desse modo a personagem torna-se muito mais interessante.”Segundo Clara Usón, a Tigresa não era a típica terrorista: “Idoia tinha como característica não ser muito discreta e como era uma mulher muito bonita e se vestia de forma sexy, desesperava os seus companheiros, que lhe diziam estarem obrigados a serem normais e passar despercebidos porque eram terroristas. Mas ela gostava de sair à rua e que todos olhassem para ela, pois era muito vaidosa e não queria renunciar ao poder magnético da sua beleza apesar do que fazia na vida. Nesse sentido, era uma má terrorista.”À parte de não-ficção não faltam factos, apesar de Clara Usón não os ter obtido através do contacto com a mulher que a inspirou: “Ela saiu da prisão em 2017, mas não tentei falar com ela. Tigresa criou um mito sobre si mesma para poder viver em paz durante esses anos na cadeia e deu origem a duas prisioneiras: a real e a que criou. A razão? Porque não se quis expor ao exterior e aceitar o que dizem que fez, então cumpriu uma pena muito pessoal e fugiu do seu passado. Ela tem um claro perfil narcisista e vê-se a si própria como uma vítima, apesar de ter matado 23 pessoas. Acha-se generosa e uma santa. É o que está numa espécie de autobiografia que foi publicando na Internet, uma verdade paralela que enfrenta uma crise quando se confronta com a verdade pública.”Além da protagonista Tigresa, a escritora criou uma série de personagens e organizações, como a dos GAL, que contextualiza toda a não-ficção de modo que o leitor tenha uma perceção muito realista da época em que o terrorismo reinou em Espanha. A que a literatura demorou a tomar como tema devido ao medo. Explica: “Enquanto a ETA atuava era muito perigoso escrever sobre o que acontecia, basta ver os jornalistas que foram mortos. Quando foi dissolvida, o receio manteve-se durante algum tempo, até que o escritor Fernando Aramburu publicou o romance Pátria. Aí deu-se a explosão sobre o tema e passou a haver cada vez mais literatura sobre essa realidade. Creio que depois da Guerra Civil espanhola, que é de uma dimensão incomparável, a ETA é o segundo maior trauma coletivo em Espanha.” .AS FERASClara UsónElsinore302 páginas.DESVIOS RELIGIOSOSAo ver-se a capa deste Dicionário Global das Heresias será difícil ao leitor mais distraído ou menos conhecedor do tema fazer uma pequena ideia do seu conteúdo. Em quase 700 páginas, mais do que meia centena de investigadores distribuem-se por um incontável número de verbetes que sintetizam as muitas heresias que têm povoado o cristianismo. Que fomentando uma crise religiosa, foram também muitas vezes uma fonte de debate teológico que fez com que se chegasse mais cedo a propostas que alterariam a prática religiosa e a sociedade. No entanto, essas dissidências nunca foram pacíficas na cristandade, tanto que as dissensões que tiveram lugar nos seus últimos 1700 anos deram origem a tantas situações como as que preenchem este Dicionário. Dividido por épocas – Antiga, Medieval, Moderna, Contemporânea –, acrescentado por uma introdução dos diretores da obra e por um posfácio de Pierre-Antoine Fabre, esta obra interessa não só a académicos como a leitores generalistas interessados em questões de teologia, cultura e literatura. Não sendo o primeiro “catálogo” de heresias, pois já no século XVI se começaram a fazer, este volume traz o benefício de tornar mais claro o entendimento das mudanças de mentalidades. DICIONÁRIO GLOBAL DAS HERESIASDireção de José Eduardo Franco e Porfírio PintoEdições Afrontamento675 páginas