Os Memoráveis é um “romance-chave” sobre o 25 e Abril e dá-se o caso de ter sido lançado no Teatro Aberto, em 2014. Quem o recorda é Vera San Payo de Lemos que, juntamente com João Lourenço, escreveu o libreto da ópera Por Todos Nós com base nesta história de Lídia Jorge. O Teatro Aberto respondeu assim ao convite do Ministério da Cultura para que as companhias “históricas” criassem uma obra para assinalar os 50 anos do 25 de Abril. E porquê uma ópera? Além do facto do teatro da Praça de Espanha, em Lisboa, permitir essas duas valências, teatro e música, a dramaturga sublinha outros aspetos. “Pelo lado grandioso que uma ópera tem, e, pensando também que a música foi fundamental no 25 de Abril. Basta nos lembrarmos que foram duas canções que foram as senhas. E que no tempo a seguir, as pessoas estavam sempre a cantar. As pessoas estavam na rua e cantavam os hinos, as marchas. Havia muita música”.O DN assistiu a um ensaio da ópera que estreia amanhã no Teatro Aberto e João Lourenço, o encenador da obra escrita pelo compositor Eurico Carrapatoso – e que será interpretada pela Orquestra Sinfónica Portuguesa sob a direção musical de João Paulo Santos –, anda no palco a dar indicações aos solistas e ao coro sobre como se posicionarem. No intervalo do ensaio ele explica que Os Memoráveis foi o romance que mais “cumplicidade “ teve com ele, com a forma como ele viveu a Revolução dos Cravos. “Foi aquele que dava mais a visão que eu tinha do 25 de Abril e que vi escrita. Até aí nunca tinha acontecido”. Além disso, sublinha o fundador deste teatro que faz este ano meio século, “achei que só se podia dar isto por música. Quando agora ouvi o final da ópera, senti pela primeira vez dentro de mim o que eu senti nessa altura, nesse dia. Com música entra-nos mais, toca-nos nuns sentidos que não é costume. Nem com as palavras. Sentimos muito mais com música e palavras”. .Pegar num romance de mais 300 páginas e reduzi-lo a um libreto foi uma tarefa exigente, diz Vera San Payo de Lemos. “Um libreto tem de ser necessariamente muito, muito conciso. Portanto, temos de abdicar, de cortar, de reduzir, temos de condensar tudo o que é descrito num romance. Temos de transformar uma estrutura narrativa, com muitas descrições, numa estrutura dramática”.E foi isso que aconteceu, resultando numa ópera com epílogo, 16 cenas divididas em duas partes, e um prólogo. A dramaturga fala numa “recriação” da obra de Lídia Jorge. “Demos-lhe uma estrutura diferente, daí ser uma obra nova, com um título novo, que recria e reinventa o romance. Tem uma figura nova, um anjo, que aparece no prólogo e no epílogo, mas também atravessa toda a ação”. .Este anjo, explica João Lourenço, é a “cabeça” da protagonista, Ana Maria Machado (interpretada pela meio-soprano Cátia Moreso). Ela é uma jornalista portuguesa que vive nos Estados Unidos e que regressa a Portugal para realizar um documentário televisivo sobre um grupo de militares e civis ligados ao 25 de Abril, conhecidos como “os memoráveis”, que aparecem numa fotografia tirada num restaurante chamado Memories, em agosto de 1975. É a partir dessa imagem que Ana Maria Machado começa a investigar, entrevistando essas figuras três décadas após os acontecimentos. . “A ideia do anjo surgiu-nos, a mim e à Vera, porque ela [Lídia Jorge, no romance] diz às tantas que um anjo nessa altura passou por Lisboa. Nós queríamos que alguém dialogasse com a protagonista, com quem vai fazer a reportagem. E decidimos pôr um anjo que passou, por acaso. Como aqueles que estavam em Berlim, nos telhados. É um anjo que apareceu por ali, que está na cabeça dela. No fundo, o anjo é a cabeça dela”. A figura do anjo, a que dá voz a soprano Mariana Castello-Branco, veio dar uma grande ajuda a Eurico Carrapatoso. “Este anjo da história foi um bálsamo para mim como compositor. A ideia do anjo eleva-nos para outras esferas, onde normalmente se pensa habitar o elemento da própria composição, que é incorpóreo. E isso foi uma ajuda muito importante na minha imaginação. Este anjo que diz aquilo que ela, a protagonista, não tem coragem de dizer e que vai, num certo sentido, acompanhando a cena do princípio até ao fim”. O compositor diz que a primeira versão do libreto que lhe foi entregue em outubro de 2024 era demasiado longa, mas que “negociou” uma segunda versão, mais “moderada”, ainda assim, um desafio. “Foi realmente um desafio muito grande, porque há 16 personagens principais na obra. Bem sei que há um núcleo fundamental de quatro, mas há mais 12 personagens muito importantes. É uma situação que candidata esta obra a um lugar no Guinness, porque, pelo meu conhecimento – não estou a brincar, embora isto pareça uma brincadeira – esta deve ser a ópera com mais personagens principais, mas mesmo principais.” . Para o compositor, havia o perigo da “dispersão”. A abordagem foi então a criação de “uma família de temas condutores, citando aqui, sem querer ser pomposo, o leitmotiv, que é a ideia próxima à obra, tal como Wagner a encarou, mas que não está propriamente associada às diferentes personagem. São fios condutores que têm a ver com os temas psicológicos que pairam sobre a obra”, sublinha. Portanto, “há temas que regressam dando unidade e coerência interna, sob pena de estarmos a trabalhar uma coisa invertebrada e disforme”, explica. Uma orgânica “bem-sucedida”, diz Eurico Carrapatoso, mostrando-se satisfeito com o resultado depois de ter assistido à primeira parte do ensaio sem interrupções. Há na ópera antifonia [alternância entre dois grupos sonoros, numa espécie de diálogo] “entre os heróis, os Capitães de Abril, os fotógrafos, enfim, os intervenientes tratados no romance da Lídia Jorge, e o povo, que está em correlação com eles, numa atitude de pergunta e resposta. O coro [do Teatro Nacional de São Carlos] que, para mim, como compositor, é visto como a personagem principal”, diz Carrapatoso. . O processo de criação desta ópera decorreu sob o olhar de Lídia Jorge, revela Vera San Payo de Lemos. “Quando lhe dissemos que tínhamos esta ideia, ela ficou logo muito, muito, contente. Deu-nos carta branca para fazermos esta adaptação, esta recriação. E depois demos-lhe o libreto para ela ler, e ela gostou muito. Tal como o compositor, também nos pediu para ajustarmos uma coisinha aqui, uma coisinha ali, o que nós fizemos. E com ela também discutimos o título, porque para nós era muito claro que a obra tinha de ter um título diferente, porque era uma obra diferente.”Por Todos Nós terá quatro récitas no Teatro Aberto. Após a estreia no dia 20, será apresentada nos dias 21 e 23 às 20h00, e no dia 24, domingo, às 16h00. O objetivo, no entanto, é que possa circular pelo país. Ainda sem salas ou datas fechadas, o teatro avança que Vila Real, Faro e Coimbra (no Convento São Francisco) são possibilidades..Diogo Infante dá vida ao “professor que nos inspira” no Clube dos Poetas Mortos.“Este espetáculo não é só sobre o Sr. Engenheiro, é sobre a portugalidade"