Uma família brasileira pré-Bolsonaro

Depois de uma passagem com sucesso pelo Festival Luso-Brasileiro de Santa Maria da Feira, chega aos cinema Benzinho, de Gustavo Pizzi, crónica daquilo que é mais íntimo no seio de uma família.

A dor de uma mãe no momento em que se capacita que o filho adolescente vai sair de casa para viver no estrangeiro. Xaropada? Nada disso, Gustavo Pizzi pega nessa premissa para construir uma teia melodramática tão sóbria como moderada sobre o amor incondicional. Sem se esforçar muito, Benzinho é também uma observação sobre um momento generalista da condição da classe média no Brasil pré-Bolsonaro, um Brasil onde as famílias acreditavam numa estabilidade financeira e num futuro melhor para os seus filhos.

A história introduz-nos a um casal do subúrbio de São Paulo e os seus quatro filhos. Tudo muda quando o rapaz mais velho, de 17 anos, recebe uma proposta para ir para a Alemanha como guarda-redes profissional de andebol. Uma proposta que causa uma agitação familiar e também um pretexto para uma mudança. O pai aceita a ideia ao mesmo tempo que pensa investir num novo negócio, mas é a mãe que aos poucos parece encontrar um vazio grande quando percebe que o tempo está a passar e que o seu menino querido, o seu "benzinho", a vai deixar. Daqueles momentos na vida de uma mãe que pode mudar o sentido da vida.

Benzinho prefere nunca forçar o sentimento e é filme ao sabor de um naturalismo que muitos podem achar raro no panorama brasileiro, sabê-lo-íamos em função de um eventual preconceito do espetador com a ditadura do engenho da telenovela. Pizzi joga também muito com um festim metafórico. Esta família ruidosa que também inclui a irmã da mãe, personagem que serve para meter ao barulho a questão da violência doméstica (o seu marido é violento e ressabiado), vive numa casa a ruir. Obviamente, é o Brasil a ruir mas também serve de paralelismo de um certo fim de ciclo.

A mãe no centro da equação é certamente o foco da câmara. Importa referir que Karine Teles, a portentosa atriz que lhe dá corpo, é a co-argumentista do filme, escrito a meias com Pizzi, ex-companheiro dela na vida real. Essa marca de "primeira pessoa" torna-se vital para dar credibilidade a esse ato de homenagem às mães. E é ainda fundamental, quem pudera imaginar, para ser fiel a uma imersão de intimidade familiar genuína, onde o peso da adultidade e as pequenas coisas do dia-a-dia ganham ascendência. Por isso, uma refeição, um banho das crianças, uma ida à praia, torna-se num invisível ato de exaltação dramática. O processo, sobretudo se pensarmos nos atores mais juvenis, é de um rigor muito complicado de se atingir, mas se pensarmos que por entre ruídos de televisão e cacofonia, surge uma verdade muito íntima de "cenas de uma família", o filme ganha aí o seu propósito: estamos literalmente no conforto e desconforto daquele lar vívido.

Gustavo Pizzi, cineasta de um cinema brasileiro de afetos, reflete também sobre o sonho brasileiro, o da classe média em sonhar com uma outra vida. Fala-se de empréstimos bancários, de acumulação de trabalhos, de biscates, esquemas e de furar ou sonhar o futuro. E as personagens têm fragilidades, forças interiores e exteriores. É bonito de se sentir e é lícito pensar-se nos efeitos de Little Miss Sunchine- Uma Família à Beira de um Ataque de Nervos, de Valerie Faris e Jonathan Dayton, embora a orgânica de uma família brasileira tenha um outro mel e uma génese mais "terra a terra".

Benzinho foi um caso sério no Festival Sundance e percebe-se a razão. Estamos perante um objeto equilibrado e com força melodramática feroz. Nem todo o novo cinema brasileiro tem de ter a estafada causa de protesto político...

*** Bom

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