Um silêncio americano

Não estreou nos cinemas mas é um dos grandes casos de 2021, Nunca Raramente Às Vezes Sempre ainda pode ser visto nos canais de assinatura. Urso de Prata na Berlinale.

O cinema indie americano é hoje uma contradição nos termos. Não existe, já não existe. Se há quem acredite que uma pequena produção como esta - com direito a seleção oficial de Berlim 2020, foi também um dos nomeados para os Independent Spirit Awards (terá estado com um pé nos prémios da Academia) - é um último hurrah do cinema independente americano desengane-se. O filme de Eliza Hittman tem no seu genérico o logo da Universal e, talvez por isso, em Portugal foi atirado para o mercado do home video e está agora nos TVCine sem direito a passagem nas salas. É mais do que óbvio que a situação pandémica pode ser uma das justificações para que um dos grandes filmes do ano não tenha direito a estreia comercial, mas não deixa de ser um sinal de que as pérolas mais consagradas no cinema de autor americano acabam por passar ao lado, mesmo quando é evidente que aqui os trunfos comerciais não rimam com uma cineasta conhecida (não conhecemos o que está para trás na carreira desta realizadora) nem há atores conhecidos no elenco. Aliás, é bom que não haja: esta é uma história de duas jovens adultas de uma pequena cidade da Pensilvânia em viagem a Nova Iorque para tratar de um aborto. Chegam quase sem dinheiro, sem planos e percebem que o processo é mais demorado e traumático do que julgam.

O título diz respeito a um inquérito que a jovem grávida, Autumm (interpretada em under-acting por uma revelação chamada Sidney Flannagan), é obrigada a responder numa clínica, no qual se perguntam pormenores da sua vida sexual. Trata-se de uma cena composta por pesados silêncios e por uma força de gravidade que não se explica. Aliás, este é um drama sob um princípio muito pudico de não haver um carácter de "explicação", isto num registo raro de equilíbrio de emoções fortes. Eliza Hittman filma uma verdade íntima muito feminina, é mesmo daqueles casos em que uma câmara de um realizador não conseguiria essa verdade.

O resultado é francamente perturbante, tanto mais que esta câmara carrega consigo uma certa poesia cheia de dor...

dnot@dn.pt

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