Um retrato de Eunice Muñoz e Ruy de Carvalho com cartas, reações e viagens

O documentário Eunice e Ruy - Viagem ao Princípio vai estrear amanhã na RTP1 às 22h30 e levou os atores até Mérida, onde puderam representar a cena da peça censurada O Barão. Uma última oportunidade de ver os dois juntos, após a morte da atriz em abril.

A viagem é a palavra que descreve o documentário que retrata a história de vida de Eunice Muñoz e de Ruy de Carvalho. Uma longa-metragem sobre dois grandes nomes do teatro português filmada em palcos históricos como o Teatro Nacional D. Maria II, o Teatro da Trindade e o Teatro Romano de Mérida - ou ainda na intimidade dos camarins e nas casas dos próprios. O documentário Eunice e Ruy - Viagem ao Princípio produção da Clara Amarela Filmes estreia-se amanhã às 22h30 na RTP1.

Uma ideia que começou com um "e se levássemos os dois atores até à Grécia", ou seja, levá-los ao lugar onde nasceu o teatro. A ideia apaixonou o argumentista, Luís Filipe Borges, que quis avançar imediatamente com a ideia.

No entanto, a pandemia trouxe a impossibilidade de a viagem ser feita, optando-se por uma ida até Mérida. "Acabámos por fazer uma outra viagem mais curta e mais simbólica. Então, fomos ao teatro romano de Mérida. Essa viagem literal acabou por ser a justificação para uma viagem metafórica que é a viagem destas duas lendas pelas suas próprias vidas. É uma ideia de matriosca com a palavra viagem", explicou o argumentista do documentário, Luís Filipe Borges, em conversa com o DN.

Em Mérida, Ruy e Eunice entram em cena num teatro romano completamente vazio. Os dois atores apresentam a cena da peça O Barão, adaptação de Luís Sttau Monteiro e original de Branquinho da Fonseca. Há 50 anos, os dois artistas ensaiaram durante dois meses esta peça que na véspera da estreia foi censurada.

"Naquele momento e depois deste tempo todo, num sítio com milhares de anos, sozinhos, eles têm oportunidade de mostrar um bocadinho daquele trabalho."

Luís Borges criou uma forma de correspondência entre Eunice e Ruy, através de cartas. Os textos foram escritos pelo argumentista, que para replicar as vozes dos protagonistas leu centenas de entrevistas que os dois foram dando ao longo das suas vidas e dos livros escritos pelos próprios. Com frases e palavras dos mesmos, que se encontram nesses livros e em entrevistas, escreveu as cartas.

"Há um momento em que estávamos a filmar a troca de correspondência e em que o Ruy se interrompe e diz-me: "filho, isto está tão bonito". Eu agradeci e disse-lhe: "muito obrigado mas o mérito é seu. O senhor é que disse isto numa entrevista de 1968, mas já não se lembra"", recorda Luís Borges.

O momento de correspondência foi gravado no Teatro da Trindade, com os dois atores sentados em palco com as cartas na mão.

Uma marca da metafórica viagem ao passado é a surpresa que foi feita aos dois durante as gravações. A equipa marcou uma hora e local para cada um dos artistas e com grandes telas projetaram imagens das personagens que ambos fizeram ao longo das suas carreiras, selecionadas a partir do arquivo da RTP, fazendo os dois confrontarem-se consigo mesmos.

O elemento surpresa levou os dois terem reações únicas. Eunice parecia ser a primeira vez que estava a ver aquelas imagens. "A Eunice teve reações maravilhosas, de fazer comentários como se fosse um espectadora. Aplaudiu-se a si própria e estamos a falar de personagens que ela encarnou."

Já Ruy relembrou as suas representações e falas. "O Ruy teve também momentos incríveis em que começou a repetir as deixas que ele próprio estava a interpretar em imagens já com décadas e de repente foi como se se acendesse uma luz e tudo aquilo estava ainda dentro dele", acrescentou o argumentista.

A Antestreia

A antestreia do documentário Eunice e Ruy - Viagem ao Princípio teve lugar a 5 de junho no foyer do Templo da Poesia, no Parque dos Poetas em Oeiras. Um evento intimista que juntou cerca de oitenta pessoas. "Foi uma experiência muito intensa e foi muito emocionante. Acho que não havia um olho seco naquela sala no final da sessão e evidente que a emoção teve a ver com o momento, com o facto de a Eunice já não estar entre nós. É a parte que nos dói mais no coração. Por uma questão de dias não chegou a ver este documentário." A atriz faleceu a 15 de abril, aos 93 anos.

"Espero que quem vir este trabalho pense: que bonita homenagem, que magnífica maneira de demonstrar a vida dos atores. É que nunca mais vamos ver a Eunice Muñoz e o Ruy de Carvalho juntos. Queremos que as pessoas fiquem com a sensação de uma grande despedida que lhes está a ser dada", acrescentou o argumentista.

O objetivo do documentário era sair fora da caixa e fugir ao lado mais académico e tradicional, puxando pela parte artística. Um filme intimista e intemporal, onde se contorna as referências da pandemia da covid-19. Durante 55 minutos, as personagens desta história são unicamente os dois atores, cujas carreiras se cruzaram várias vezes ao longo das décadas.

"Foi um privilégio e um orgulho escrever este argumento pela razão óbvia de estarmos a lidar com estas pessoas com talentos extraordinários", confessa Luís Borges.

mariana.goncalves@dn.pt

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