Um livro para recordar as crianças que vieram da Áustria para 'O País das Laranjas'

A autora deste livro infantojuvenil, Rosário Alçada Araújo, falou com algumas das "crianças Cáritas", que vieram para Portugal após a Segunda Guerra Mundial.

Martha nunca tinha visto uma laranja. A primeira vez que lhe deram uma laranja para comer, ela pegou nela e deu-lhe uma trinca, com casca e tudo. "Os meus pais começaram a rir-se e a minha mãe apressou-se a tirá-la da minha boca. Ao princípio fiquei aflita, quase comecei a chorar", conta a menina de 10 anos. Martha é austríaca mas quando a conhecemos, nas primeiras páginas do livro O País das Laranjas, ela acabou de chegar à Covilhã. Estamos em outubro de 1949, a Áustria está a recuperar da Segunda Guerra Mundial e os pais mandaram-na passar uma temporada em casa de uma família portuguesa.

A história de Martha é ficção, mas inspirada na realidade: entre 1947 e 1952, 5500 crianças austríacas participaram num programa da Cáritas que lhes permitiu passar vários meses em Portugal, integradas em famílias que, até aí, não conheciam. Entravam no comboio em Viena com destino a Génova e, daí, apanhavam o barco para Lisboa. Traziam uma mala e um cartão, pendurado ao pescoço, com o nome e um número. Não conheciam ninguém nem sabiam a língua, mas rapidamente fizeram amigos, esquecendo, pelo menos por algum tempo, todo o trauma da guerra e da destruição.

Rosário Alçada Araújo recorda-se de um dia, há já alguns anos, a mãe lhe estar a contar histórias da sua infância e lhe ter falado destas crianças. "Eu fiquei fascinada e disse logo: isso dava um livro", conta a escritora. "Fiquei com esta ideia na cabeça e ia recolhendo informações. Não sabia quando, mas sabia que um dia haveria de escrever um livro sobre aquilo."

Autora de livros infantis, como O Dia em Que o Meu Bairro Ficou de Pantanas ou A Caixa de Saudades, Rosário Alçada Araújo estudou Direito (com pouca convicção), depois foi para Londres fazer um mestrado em Sociologia da Comunicação e frequentou alguns cursos de escrita criativa e no regresso escreveu o primeiro livro, História da Pequena Estrela, publicado em 2004: "Embora tenha publicado o primeiro livro com 31 anos, comecei a escrever muito antes, com 6 ou 7 anos, quando aprendi a ler e a escrever e comecei a fazer as primeiras composições. Gosto de pensar que, mesmo sem saber, comecei a escrever ainda antes disso, quando já ouvia histórias, lengalengas, canções e imaginava histórias."

Rosário Alçada Araújo esteve algum tempo na área jurídica mas rapidamente percebeu que o seu mundo era o dos livros. Trabalhou durante 12 anos numa editora e começou não só a escrever os seus próprios livros mas também a dar oficinas de escrita. Há dois anos decidiu que era hora de mudar. Concorreu a uma bolsa de criação literária e durante um ano pôde dedicar-se inteiramente a este projeto. "Se tivesse de ter um emprego teria sido muito mais difícil escrever este livro", admite.

Pensado para crianças a partir dos 10 anos, este livro é o mais ambicioso da autora, porque é o seu primeiro romance e também porque para escrever O País das Laranjas Rosário Alçada Araújo fez muita investigação, leu depoimentos, falou com algumas das "crianças Cáritas" (que hoje já estão longe de ser crianças) e até foi a Linz, onde ficou em casa de Heidi Grün, que tinha integrado esse programa, visitou um abrigo antiaéreo e o campo de concentração de Mauthausen. "Eles contam que pior do que a guerra foi o pós-guerra, porque não havia comida, as casas e as escolas estavam destruídas, as pessoas não tinham emprego. As dificuldades eram muito grandes. Portanto, muitos pais pensaram que o melhor para as crianças seria vir passar uns tempos em Portugal", explica a autora. "Houve uns que ficaram cá, outros voltaram para casa, outros voltaram mas vinham de férias a Portugal. Aqueles com quem eu falei ficaram muito ligados a Portugal e estão muito agradecidos."

Imagine-se como é ter 6 ou 8 anos e cair de paraquedas numa casa onde não conhecemos ninguém e não entendemos o que dizem, onde os costumes são todos diferentes e a comida também. Foi isso que Rosário Alçada Araújo procurou fazer. Para contar a história de Martha (e do seu irmão, Peter) inspirou-se nas muitas histórias que ouviu, recolhendo bocadinhos daqui e dali. Por exemplo, o facto de as crianças austríacas nunca terem comido uma laranja, a rapidez com que aprenderam português, as saudades de casa e, ao mesmo tempo, a vontade de ficar aqui, neste país onde a vida era tranquila e onde as casas não estavam esburacadas. A verdade é que muitas das crianças começaram a chamar mãe e pai aos "pais portugueses" que as acolheram. "Todas as pessoas com quem eu conversei tiveram experiências felizes e falam de Portugal com muito carinho", conta a autora.

"Já as cenas da Covilhã foram inspiradas na minha família, a minha mãe é da Covilhã e eu até aos 12 anos passei lá muito tempo, em casa da minha avó." Todas estas memórias foram depois cozinhadas na narrativa que Martha faz na primeira pessoa: "Claro que depois há coisas que são inventadas, isto é uma história de ficção", sublinha Rosário. Uma ficção que fala aos pequenos leitores de realidades duras como a guerra, a fome, a ausência dos pais ou a necessidade de fugir do seu país para ser mais feliz - temas, infelizmente, bastante atuais.

O País das Laranjas
de Rosário Alçada Araújo
Editora Asa
Preço: 13,30 euros

Lançamento do livro e conversa com a jornalista e escritora Sara Rodi, o presidente da Cáritas, Eugénio Fonseca, e duas "crianças" austríacas
Sábado, dia 12 de outubro, às 17.30
Livraria Buchholz, Lisboa

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