O Curtas Vila do Conde nunca foi um festival alheado do universo das longas-metragens. Em boa verdade, desde a sua fundação, em 1993, a programação, embora enraizada nos formatos mais breves, sempre integrou os chamados “filmes de fundo” nas respetivas escolhas. Assim volta a acontecer na 34ª edição (a decorrer até domingo, dia 26), com um leque de ofertas que, além do mais, propõe algumas memórias que não poderão deixar de surpreender os espetadores mais jovens. No texto de apresentação, Nuno Rodrigues (que partilha a direção artística do certame com Miguel Dias e Mário Micaelo) lembra mesmo que “a formação e renovação de públicos permanece um dos pilares do Curtas Vila do Conde” — sem esquecer a secção Curtinhas, visando, em particular, os mais jovens.Um destaque especial vai para o espaço “Cinema Revisitado”, com uma seleção de longas-metragens que têm a particularidade de resultarem de coleções de curtas — são os chamados “filmes de episódios” que, sobretudo nas décadas de 1960/70, foram uma moda frequentemente descrita pela expressão “filmes de sketches”. O mais antigo, o britânico Dead of Night/A Dança da Morte, produzido em 1945, é uma coleção de histórias de terror realizadas por Alberto Cavalcanti, Charles Crichton, Basil Dearden e Robert Hamer — numa extrapolação simbólica, talvez possa ser visto como uma “antecipação” dos clássicos de terror do estúdio Hammer Film, também britânico, sobretudo ao longo da década de 60; o mais recente, Histórias de Nova Iorque (1989), reúne três histórias realizadas por Woody Allen, Francis Ford Coppola e Martin Scorsese. Raridade absoluta é Longe do Vietname, uma coleção de reflexões políticas de 1967 assinadas por Agnès Varda, Alain Resnais, William Klein, Joris Ivens, Claude Lelouch e Jean- Luc Godard.Outro espaço que regressa com uma proposta dupla é o “In Focus”: por um lado, com a retrospetiva de uma parte significativa da filmografia de Todd Haynes, por certo um dos nomes mais emblemáticos do cinema independente made in USA; por outro lado, dando a conhecer um conjunto muito significativo do labor do iraniano Mohammad Rasoulof, incluindo vários títulos inéditos nas salas portuguesas..No caso de Haynes, Velvet Goldmine (1998), sobre uma estrela fictícia do glam rock (embora não estranha às imagens e ao imaginário de David Bowie), poderá servir de matriz da ambiguidade “romântica” do seu cinema. E tanto mais quanto se trata de um exemplo modelar da relação de Haynes com a produtora Christine Vachon. Aliás, este é, de facto um programa Haynes/Vachon, acompanhado pela própria produtora, que participará numa conversa com o público (dia 23, 14h30) — para essa sessão anuncia-se uma curta-metragem surpresa de Todd Haynes.Quanto a Rasoulof, vale a pena referir que o seu nome adquiriu imediata ressonância internacional quando O Mal Não Existe, uma antologia de quatro histórias sobre a pena de morte, lhe valeu o Urso de Ouro do Festival de Berlim de 2020 — o realizador estava, na altura, preso no Irão. Mais recentemente, na edição de 2024 de Cannes, ganhou um Prémio Especial do Júri com A Semente do Figo Sagrado, precisamente um dramático, e muito crítico, ensaio sobre o sistema legal iraniano. Rasoulof participará também numa conversa em Vila do Conde (dia 22, 15h00).Entretanto, não esquecendo a fundamental presença das curtas-metragens, recorde-se que, para lá da produção nacional e internacional, a competição inclui também zonas dedicadas a produções experimentais e filmes de escola (Take One!). A entrega de prémios ocorrerá no domingo, às 15h00.