Transilvânia - câmaras em lugar de armas

Numa terra de cinema, um festival que apela à Sétima Arte como resposta à guerra. Em Cluj, Roménia, termina este domingo o Festival da Transilvânia, um evento de combate que assumidamente não quis cancelar o talento individual dos cineastas russos.

Make Films, Not War (Faz Filmes, não a Guerra), diz o slogan do festival. Uma frase por todo o lado nas ruas, uma declaração de intenções deste TIFF - Transilvania International Film Festival, para os amigos Festival de Cluj, o maior na Roménia e um dos festivais em ascensão na Europa. Este manifesto parece à partida demasiado inocente, mas a imagem de uma câmara no lugar de uma arma é poderosa e deixa qualquer espectador a pensar, sobretudo no atual contexto, com a vizinha Ucrânia a ser atacada.

Quer se queira quer não, neste festival com muitas secções, cine-concertos e até espaço para séries, o tema da guerra não poderia ser ignorado, de tal forma que os milhares de refugiados ucranianos têm direito a entrada gratuita nas centenas de sessões. Nestes dias com temperatura quentíssima, o ambiente que se viveu foi de uma autêntica celebração do cinema de autor. Estudantes de cinema de todo o mundo, muita animação nas praças desta cidade com forte ligação à vizinha Hungria e uma invasão substancial da imprensa internacional. A capital da Transilvânia deu um aviso que o cinema está longe de ser uma arte moribunda, mesmo quando um dos principais patrocinadores é a Netflix - nem faltou uma festa excêntrica num clube para se promover a derradeira temporada de Stranger Things nem brindes aos acreditados com merchandising desta série que bate recordes de audiência no streaming. Esta edição 2022 foi aquela que terá levado mais público, sobretudo um público jovem apaixonado por cinema que esgotou muitas vezes a monumental Praça Unirii em sessões ao ar livre capazes de rivalizar com as míticas sessões da Piazza Grande, do Festival de Locarno.

Mas para além de se mostrar cinema, o Festival da Transilvânia tem uma lógica de acolhimento de uma indústria internacional: veem-se muitos debates e há uma deliberada vontade de discutir as novas formas do negócio audiovisual. Num país onde o cinema é um bem exportável considerável, o festival tem também a vocação certa para promover o novo cinema romeno, nomeadamente com a promoção de novos cineastas e filmes da escola realista. Não foi estranho, por isso, ver os diretores do DocLisboa e do Indie andarem por aqui à caça de novidades. E é também simbólico o facto de Cluj ainda ter muitos cinemas antigos e grandes abertos. Diz-se que há realmente uma forte vocação cinéfila destes habitantes, em especial da sua população universitária que no centro da cidade prefere as grandes salas aos modernos multiplexes.

Tudor Giurgiu, o diretor do festival, diz que é muito importante um festival em tempo de guerra: "esta é uma forma marcante de reafirmar o poder da cultura, sobretudo no contexto da pandemia. Quando a guerra eclodiu foi um choque aqui para nós. As nossas famílias passaram a acolher refugiados ucranianos e a nossa rotina mudou - houve quem entrasse em pânico e nas duas primeiras semanas muitos abandonaram o país, pensando que a guerra chegava à Roménia! Foi complicado...mesmo do ponto de vista dos patrocinadores que estavam com a prioridade de ajudar os refugiados...". Ainda assim, mesmo estando do lado da paz e da Ucrânia, há dois filmes russos no programa, um deles em competição, The Execution, de Lado Kvatania, jovem cineasta que é uma voz russa anti-Putin: "Tal como Cannes e outros grandes festivais, a nossa posição em relação aos russos era não querer ter qualquer colaboração com nenhuma organização oficial russa mas achamos estúpido cancelar o talento individual. Por isso, quisemos ter o The Execution pois o realizador logo no começo da invasão se insurgiu na Net contra Putin e o regime. Sei que é um debate complexo e compreendo que a delegação de Pamfir, o filme ucraniano que selecionámos, esteja algo irritada", conta o diretor do festival.

Das sessões mais aplaudidas deste TIFF, destaque para o vencedor da Berlinale, o interminavelmente belo Alcarràs, de Clara Simón, retrato sobre uma comunidade de agricultores espanhóis ameaçados pelos avanços da energia solar e pela máfia corporativa das grandes superfícies na exploração do preço das frutas. Um filme de combate, por completo, mas uma ode à vida no campo e ao espaço familiar. Raramente uma obra de cinema nos consegue colocar tão perto de uma verdade e intimidade familiar. O filme chega já em julho aos cinemas nacionais após a passagem no Curtas Vila do Conde.

Outra das pérolas do festival veio de França, o magnífico Maigret, de Patrice Leconte, policial a partir da personagem de George Simenon, o comissário Maigret, aqui com o peso e o charme de Gérard Depardieu. Um investigador que não tem tiques de Poirot ou o carisma de Sherlock Holmes, mas sim uma aura melancólica. Filme generoso que acerta no tom de balada triste e que dispensa os "twists" da moda....

Como filme surpresa, a programação do TIFF apostou em As Bestas, de Rodrigo Sorogoyen, thriller galego sobre um crime entre vizinhos ou mais uma reflexão sobre o fim da agricultura de subsistência em Espanha. Filme de uma tensão invisível capaz de descodificar ódios ancestrais. Foi um fecho em chave de ouro para um festival que toma riscos.

dnot@dn.pt

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