Tiago Guedes. "Estamos super-poluídos de imagens em que o pensamento está a desaparecer"

Três anos depois de A Herdade, o cineasta Tiago Guedes assina Restos do Vento (estreia quinta-feira), drama centrado num ritual de iniciação algures no interior de Portugal. Há no filme uma dimensão simbólica universal, já que se trata de encenar uma história que reflete o modo "como, do nada, as pessoas podem ser violentas umas com as outras".

No elenco de Restos do Vento encontramos os nomes de Albano Jerónimo, Nuno Lopes, Isabel Abreu, João Pedro Vaz, Gonçalo Waddington, Leonor Vasconcelos... É um lote invulgar de talentosos atores. Qual o foi o seu papel na gestação do projeto e como é que o seu trabalho marca os resultados finais?
São, na grande maioria, companheiros de outros projetos; a exceção é a Leonor, já que a sua escolha resultou mesmo de um casting que fiz. São pessoas de quem gosto muito. Já há algum tempo que queríamos fazer um filme em que pudéssemos estar juntos -- isso foi mesmo um pressuposto na escrita do argumento com o Tiago Rodrigues. O trabalho foi muito simples, como costumamos fazer, com uma diferença: desta vez conseguimos um período de residência de dez dias, no local da ação, antes das filmagens. Foi bom para ver os locais, para analisar o texto. Foi quase como no teatro, na fase de discussão dramatúrgica, mas não fizemos propriamente ensaios -- conheço-os suficientemente bem para perceber como funcionam.

Este não é, portanto, um filme ao qual se possa aplicar aquela frase que muitas vezes ouvimos no cinema português: "Não houve tempo para trabalhar com os atores..."
Eu procuro muito isso, preciso mesmo desse tempo. No princípio, começou por ser uma questão mais de ensaios, mas a experiência que fui acumulando no teatro levou-me a perceber que há formas diferentes de chegar a determinado resultados.

O que suscita uma pergunta tradicional: que diferenças são essas?
São muitas, claro. Estar num palco ou filmar com uma câmara são abordagens muito distintas, mas acontece que estes atores conhecem muito bem essas diferenças. Decorrem de elementos clássicos: a proximidade, a distância... O teatro é um plano-sequência gigante, em que os atores estão sempre na mesma escala, o que, obviamente, não acontece no cinema. Ao mesmo tempo, curiosamente, ando com vontade de trazer para o cinema o tempo do teatro.

Que tempo é esse?
Gosto cada vez mais do tempo que se consegue registar sem resultar muito da montagem. Isto apesar de usar e precisar da montagem, mas estou cada vez mais interessado no tempo que se consegue conquistar dentro do mesmo enquadramento e do mesmo plano - e isso vem do teatro.

Quer dizer que o interessam cada vez mais os planos-sequência?
Não é obrigatório haver um plano-sequência num sentido quase demonstrativo, mas interessa-me esse tempo que os planos-sequência podem trazer e o modo como obrigam o ator. O ator tem de estar sempre presente -- pode estar a escutar, pode estar a fazer... nada, mas tem de estar lá. Gosto dessa escuta que se vai conquistando quando deixamos a câmara correr mais tempo, em vez de se limitar a registar o tempo das falas. E isso prolonga-se na montagem: tenho tendência a deixar que os planos durem um pouco mais.

Há um velho cliché, obviamente preconceituoso, que diz que o cinema português é "lento"...
O cinema português é tão diverso que é difícil catalogá-lo assim, mas é verdade que esse preconceito existe. Eu próprio o tinha quando era ainda jovem estudante, aspirante a fazer alguma coisa dentro do cinema. Agora, sinto-me cansado do excesso de rapidez dos planos. Acho que isso é muito característico do tempo em que vivemos. Estamos super-poluídos de imagens em que o pensamento está a desaparecer. Estamos a ficar poluídos pelo lado visual que o cinema tem, e que eu também aprecio muito, mas eu preciso desse tempo... Preciso, não: gosto.

Será que passou a haver filmes que se parecem mais com longos videoclips?
Sim, há. No meu caso, há coisas que apreciei muito para as quais, hoje em dia, já não tenho paciência. Claro que, como realizador, posso manipular tudo, mas o gosto da manipulação pela manipulação interessa-me cada vez menos. Por exemplo, sinto cada vez mais que estou a "secar" a música nos filmes: a música normalmente funciona como indução de uma emoção, mas a minha vontade é deixar tudo um pouco mais neutro, de modo a que cada um sinta o que deve sentir.

Isso aplica-se igualmente para cinema e televisão?
Um dos aspetos que me seduziu nas séries é a possibilidade de trazermos algo do tempo do cinema para a televisão, mas sinto que, muitas vezes, está a acontecer o contrário.

O seu trabalho nas séries, nomeadamente em Glória (Netflix), reflete, de alguma maneira, essas questões?
Sim, com Glória tentei "travar", desacelerar um pouco tudo aquilo. Ao mesmo tempo, sei também o que estou a fazer e para onde o estou a fazer -- e como também tenho a escola da publicidade, consigo viver bem com isso. Seja como for, enquanto espetador, essa rapidez pela rapidez interessa-me cada vez menos. Os filmes do Guy Ritchie, por exemplo: na altura achei piada àqueles maneirismos, agora não consigo ver, aquilo aborrece-me...

O que é que a escola da publicidade lhe deu?
Deu-me capacidade de síntese e tornou-me também sensível ao tempo -- no limite, ao fotograma. E permitiu-me o acesso aos "brinquedos" mais caros porque em publicidade temos (ou tínhamos) verbas que nos permitem usar as máquinas mais requintadas. Tenho a noção, por exemplo, de que para fazermos o Glória, toda a minha escola da publicidade foi mesmo importante.

Tudo isso desembocando agora num filme como Restos do Vento. Tendo em conta o ritual de iniciação dos jovens, que marca a primeira parte do filme, aceita que se diga que é um filme sobre um certo Portugal primitivo?
Aceito, mas não porque isso corresponda à intenção de apontar o interior como algo "primitivo".

Qual é, então, o primitivismo que está em cena?
Tem que ver com a forma como, enquanto humanidade, não vamos evoluindo no pensamento, perpetuando certas formas de violência e maus-tratos dos poderosos sobre os mais fracos. Quis partir da história muito particular de alguém que é vítima de violência, ficando com a sua vida marcada para sempre. Era esse o meu ponto de partida: como é que um episódio da juventude, simples para alguns, pode mudar a vida de uma pessoa. Tudo isso veio a gerar uma história sobre rituais de iniciação, mas com o cuidado de não estar a apontar o dedo a esta ou àquela tradição -- a tradição que inventámos para o filme envolve até elementos que provêm de rituais da República Checa... O certo é que todas as tradições do género têm em comum alguma forma de poder sobre outros seres humanos, nomeadamente sobre as mulheres. É daí que vem a masculinidade tóxica que o filme aborda que, além do mais, só faria sentido num lugar remoto.

Restos do Vento teve a sua estreia internacional no Festival de Cannes (Extracompetição). A receção de que foi objeto refletiu, de algum modo, essa dimensão universal que o filme procura?
Em boa verdade, senti que essa dimensão estava no filme desde a fase de preparação. Ao falar com produtores de diversas origens, europeus ou americanos, todos me diziam que reconhecem naquela história algo que, infelizmente, faz sentido nos mais diversos contextos -- algo que decorre da ideia de os homens deverem ser de determinada forma, subjugando as mulheres.

Acontece com frequência os filmes serem valorizados apenas porque refletem um determinado "tema". Como reage ao facto de Restos do Vento poder ser visto como ilustração desse "tema", secundarizando-se todo o trabalho de que já falámos, nomeadamente com os atores e o tempo da narrativa?
Só consigo responder, claro, do meu ponto de vista. Para mim, esse é apenas um pano de fundo, não é o "tema" do filme. O filme nasce, de facto, da vontade de falar da violência dos mais fortes sobre os mais frágeis, mas para mim o tema principal é a forma como avaliamos as coisas da vida a partir do lugar que é o nosso. A violência é um assunto que me mobiliza sempre -- como, do nada, as pessoas podem ser violentas umas com as outras. E isso leva-me a tentar conhecer os pontos de vista de cada um.

Talvez um pouco à maneira do que dizia Jean Renoir, quando falava do facto de ninguém ter uma uma razão absoluta, mas todos terem "as suas razões"...
Se calhar... Eu concordo com isso! Até porque a questão do Bem e do Mal é das conceções mais ambíguas que podemos ter -- vai depender sempre de onde olhamos, em que posição nos encontramos.

dnot@dn.pt

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